Como, com certeza, toda a galera do surf já sabe, estão quebrando altas ondas no litoral brasileiro! Basta dar uma corrida pelos boletins dos correspondentes do Waves para ver que o swell está bombando desde o Rio Grande do Sul até a Bahia e, provavelmente, nesta sexta e e amanhã, deve chegar ainda mais longe no Nordeste brasileiro.
Como também todo mundo sabe, na noite que antecedeu à chegada da ondulação, os moradores de São Paulo e regiões vizinhas foram surpreendidos por um evento bastante incomum entre nós: um terremoto!
Na escala de intensidade de terremotos, a magnitude do nosso chegou a 5.2, suficiente para balançar prédios e estruturas mais altas, mas, felizmente, insuficiente para causar danos e fatalidades. Em locais sujeitos a terremotos freqüentes, como Chile, Califórnia, Japão
etc, um terremoto de 5.2 talvez nem fosse noticiado, mas aqui entre nós, nosso terremoto fez noticia!
De acordo com os cientistas, o terremoto ocorreu a 10 quilômetros de profundidade na posição 25.7º S e 45.4º W, ou seja, a 215 km a SSE de São Vicente, SP, sob o mar.
Bem, a coincidência desses dois fenômenos da natureza levou muita gente a conjecturar que uma coisa tivesse relação com a outra e isso merece ser esclarecido.
Galera, o swell que está bombando desde quarta-feira não tem ABSOLUTAMENTE NADA a ver com o terremoto! Esse swell é fruto, como SEMPRE acontece, de uma tempestade no oceano.
A tempestade no caso, foi um ciclone extra-tropical que se formou a Sudeste da costa brasileira a meio caminho entre América do Sul e a África. O primeiro mapa é um mapa de pressão atmosférica que mostra o ciclone como uma região circular de baixa pressão (cor azul).
O vento segue aproximadamente as linhas do mapa girando no sentido horário em torno da região de baixa pressão como mostrado no segundo mapa.
As alturas significativas das ondas geradas por esse sistema atmosférico e calculadas com o modelo WW3 estão mostradas no terceiro mapa. Na região marítima onde a tempestade estava atuando o vento chegou a 100 km/h e a altura significativa do mar ficou na faixa entre 8 a 10 metros.
Pela posição do ciclone, as ondas tiveram de se propagar por cerca de 3 mil quilômetros para chegar até nossa costa e, graças ao fenômeno da ?dispersão? (explicado no texto Ondas em Águas Profundas, seção Ciência das Ondas), puderam se ?ajeitar? e chegar na forma de um swell limpo, organizado e com períodos longos.
Essa condição oceânica favorável, associada aos ventos locais igualmente favoráveis, fez quebrar de gala os picos posicionados para receber ondulações de SE, como mostram as fotos dos correspondentes do Waves nos estado do RS, SC, PR, SP, RJ, ES e BA (até agora).
Portanto, vemos que, quando os ingredientes estão presentes, nossa costa mostra o potencial de surf que tem!
E o terremoto, não fez nada com o mar? Aparentemente nada perceptível a olho nu. Para saber ao certo teremos de verificar registros de maré para ver se houve algum sinal de tsunami, que é o nome do tipo de onda gerada por terremotos no mar.
Qual a diferença entre uma onda tsunami e as ondas que surfamos? A diferença principal é o período: as ondas do surf tem períodos na faixa de 10+ segundos e os tsunamis na faixa de 10+ minutos.
Portanto, tsunamis têm períodos muito mais longos! Na verdade, um tsunami se parece mais com a maré do que com as ?nossas? ondas: é como uma subida super rápida de maré, que ocorre em (muitos) minutos em lugar das 12 horas habituais.
O famoso e terrível tsunami de Sumatra no natal de 2005, por exemplo, teve períodos na faixa de 30 minutos. Aliás, esse tsunami, sim, chegou ao Brasil!
Pouca gente percebeu pois o grosso do tsunami de Sumatra chegou na noite do dia 26/Dez/2005, mas chegamos a ter variações de nível de mais de 1 metro medidas em Imbituba e observadas na baía de Guanabara.
Portanto, galera, para que outras ondulações como essa apareçam por aqui são necessários mais ciclones extra-tropicais entre a América do Sul e a África… Terremotos, felizmente, não fazem diferença.
Referência Lahimar.



