O Waves.Terra não inovou apenas o layout da maior comunidade virtual de surf da América Latina. A partir desta terça-feira, o Wavescheck conta com um sofisticado sistema de previsão e análise das condições do mar.
Agora, a supervisão do programa fica por conta da equipe do professor Eloi Melo, coordenador do Laboratório de Hidráulica Marítima (LaHiMar) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Em vez de utilizar as previsões do NOAA, o Waves.Terra passa a ter como referência o sistema de previsão de ondas em águas profundas que funciona operacionalmente no LaHiMar / UFSC, mais focado no Atlântico Sul e com uma resolução maior ao longo da costa brasileira.
Carioca de Ipanema, nascido em 1953, Eloi Melo é engenheiro civil formado pela PUC-RJ, mestre em Engenharia Oceânica pela COPPE / UFRJ e, desde 1989, Ph.D. em Ciências Oceânicas pela Universidade da California, San Diego (EUA).
Eloi é professor da UFSC desde 1994, onde coordena o Laboratório de Hidráulica Marítima. Antes disso, foi professor da UFRJ e da UERJ e ainda trabalhou como pesquisador junto ao Instituto de Pesquisas da Marinha em Arraial do Cabo (RJ).
O carioca é um surfista apaixonado desde 1969, quando ganhou, aos 16 anos, sua primeira prancha, uma São Conrado ?mini-model? feita na oficina de Coronel Parreira.
Passou a década de 70, juntamente com seu irmão Duda e outros amigos, explorando a costa brasileira de Norte a Sul.
?Tive o privilégio de surfar na praia de Copacabana antes do aterro. Copacabana dava altas ondas, especialmente o Posto 5, lembro de dias de ondas absolutamente perfeitas quebrando lá fora?, recorda Melo.
Nesta entrevista, o professor conta suas aventuras no surf e passa detalhes do novo Wavescheck.
Soube que você e teu irmão faziam muitas trips ao Nordeste na década de 70. Conte um pouco dessas aventuras.
A família Melo é oriunda de Alagoas e todos os verões íamos de Kombi do Rio até Alagoas passar as férias na fazenda da família. Quando a febre do surfe nos pegou, passamos a levar as pranchas no bagageiro da Kombi. Acho que pouca gente em Maceió sabia o que era uma prancha de surf nessa época, surfamos na praia do Sobral antes da construção do pier da Salgema e também numa praia próxima que, num dia de ondas boas parecia Saquarema: era a praia do Francês!
Um dos meus tios morava no Recife e eu passei a levar a prancha quando ia visitá-lo. No verão de 1972, conheci a galera do surf do Recife (uma meia dúzia) e fiz amizade com um rapaz de nome Piet Snel, um brasileiro filho de holandeses que, como eu, adorava descobrir novos picos de surf. Nesse ano, o Piet me levou para conhecer um recém-descoberto secret: a praia de Maracaípe, em Porto de Galinhas, que na época era completamente selvagem.
Nos anos seguintes, meu irmão e eu começamos a explorar os outros estados do Nordeste. Chegamos ao Ceará e nos deparamos com as ondinhas mais perfeitas e tubulares que já tínhamos visto: era a praia do Titã, em Fortaleza. Costumávamos dizer que essa onda não tinha uma gota fora do lugar! Depois foi a vez de Paracuru, seus fundos de pedra e suas longas direitas. Conhecemos também as direitas da Pipa, no Rio Grande do Norte… Minha nossa, foram anos incríveis e que marcaram nossas vidas, algum dia vou escrever um livro sobre essas aventuras!
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Quando e como você começou a tomar gosto pelo estudo das ondas?
Tudo começou no ano de 1978. Eu havia me formado em Engenharia Civil, mas não me sentia muito motivado a ficar construindo prédios e, como gostava muito de estudar, resolvi fazer um curso de Pós-Graduação. Por coincidência, nesse ano a COPPE / UFRJ abriu seu curso de mestrado em Engenharia Oceânica e isso despertou tremendamente meu interesse, pois vi ali a oportunidade de aliar minha profissão de engenheiro com a coisa que tanto me fascinava, que era o mar. Para aumentar minha surpresa e satisfação, me dei conta de que as ondas do mar eram um dos assuntos mais importantes nesse ramo da engenharia.
Foi aí que eu comecei a estudar as ondas, senti que tinha encontrado meu caminho profissional e mandei bala. Lembro que eu ?devorava? os livros com uma curiosidade insaciável!
Minha tese de mestrado, defendida em 1981, já foi sobre ondas e intitulou-se ?Investigações sobre a análise da Agitação Marítima?.
Nessa época recebi um convite de um dos meus professores e hoje em dia um velho amigo – o Comandante Parente ? para trabalhar como pesquisador no Instituto de Pesquisas da Marinha em Arraial do Cabo. Esse foi meu primeiro emprego e, no ano de 1980, troquei Ipanema pelo Arraial.
O mais incrível era que, quanto mais eu estudava e aprendia sobre as ondas e o mar, mais eu queria saber. A coisa chegou a um ponto tal que eu senti que teria de sair do Brasil para poder continuar a estudar e, no ano de 1983, fomos eu, minha esposa Henriette e nossa primeira filha Renée (então com 5 meses de idade!) para San Diego fazer um doutorado ?duplo? na Universidade da California (minha esposa também é Ph.D. pela UCSD na área de Engenharia de Estruturas).
Resumindo a história: passei 6 anos e meio na UCSD, estudando e convivendo com alguns dos maiores cientistas do mundo na área de oceanografia. Trabalhei como um alucinado e aprendi muito, muito, muito! Minha tese de doutorado, que no ano seguinte ganhou um prêmio, foi sobre um fenômeno estranho que acontecia com o swell do Pacifico ao penetrar no canal da baía de Mission Bay, em San Diego. Em dezembro de 1989, voltei ao Brasil com a mente fervilhando de idéias e planos!
Como é feita a previsão das condições do mar?
Nesses quase 30 anos de estudo, tive oportunidade de acompanhar bem de perto a evolução do conhecimento científico sobre as ondas do mar e posso dizer que a previsão de ondas hoje em dia já atingiu um nível bastante confiável para o oceano profundo (alto mar). Para águas rasas, a coisa é mais complicada e ainda temos de aperfeiçoar um pouco os cálculos. A previsão de ondas é feita assim: primeiramente, é necessário prever o que vai acontecer com os ventos sobre o oceano.
Isso é feito através dos chamados modelos meteorológicos, que hoje em dia são capazes de prever os ventos com uma antecedência de alguns dias com boa precisão. A seguir, essa previsão de ventos sobre o oceano é usada como input nos modelos de geração de ondas que vão calcular as ondas que esses ventos vão produzir no oceano. Como é que esses tais ?modelos? conseguem fazer essas proezas? Usando o que eu costumo chamar de a ?magia negra do homem civilizado?: o conhecimento científico, a física, a matemática, a computação, etc
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Como você analisa o antigo sistema de previsão do Waves (Wavescheck)?
Olha, eu acho a internet uma das coisas mais fantásticas que a ciência e a tecnologia já produziram. Às vezes fico pensando o que um surfista da década de 70 diria se alguém lhe contasse que dali a 30 anos um surfista poderia ligar um computadorzinho do tamanho de um caderno e com ele ter acesso instantâneo a informações sobre as condições do mar em vários locais do Brasil e do mundo, com fotos, vídeos, e ainda dispor de previsões sobre como o mar iria se comportar nos próximos dias… Ninguém acreditaria…
O Wavescheck faz tudo isso e para nós, hoje, isso parece uma coisa corriqueira! Mas, respondendo à sua pergunta, acho que esse tipo de serviço, seja o do Waves.Terra ou qualquer outro, tem de lidar com duas dificuldades básicas: a primeira diz respeito à interpretação das previsões dos tais ?modelos de ondas? e a segunda refere-se à precisão e padronização das observações visuais das condições do mar feitas pelos observadores.
Uma interpretação correta das previsões dos modelos requer conhecimentos de como esses modelos funcionam, o que exatamente eles estão prevendo… Enfim, assuntos de carater técnico que normalmente o público leigo não domina.
Quanto às observações visuais, elas podem ser muito úteis e boas se, novamente, os observadores tiverem conhecimentos que os ajudem a avaliar dados importantes sobre um certo estado de mar. Apenas para citar um exemplo, ninguém faz observações sobre o período das ondas, e esse parâmetro é super importante para muitas questões. Outro aspecto é a importância de haver algum tipo de padronização nas observações das condições do mar. Por exemplo, imagine que alguém quisesse comparar condições de mar em praias diferentes, ou até mesmo as condições numa mesma praia observadas por pessoas diferentes.
Se as observações não forem padronizadas, fica difícíl fazer comparações, pois um mar de, digamos, 1.5 m para um observador pode ser de 2,0 metros para outro e assim por diante. É claro que fazer uma observação ?técnica? das condições do mar no ?olhômetro? não é uma tarefa fácil, mas há espaço para aperfeiçoamentos. Em resumo, creio que o sistema do Waves era bom, mas pode ser ainda melhorado a luz de um conhecimento mais aprofundado das ondas e é isso, no fundo, que a gente vai procurar fazer daqui para frente.
Quais as principais mudanças a partir de agora?
Nessa cooperação que estamos iniciando com o Wavescheck, vamos trabalhar em cima das duas dificuldades básicas que mencionei acima: a previsão e as observações. Para a previsão de ondas, em lugar das previsões da NOOA, vamos passar a usar como referência o sistema de previsão de ondas em águas profundas que funciona operacionalmente no LaHiMar / UFSC. Na verdade, os dois sistemas são muito semelhantes, pois usamos o mesmo modelo de geração de ondas da NOOA, chamado Wave Watch 3. Entretanto, o sistema que montamos no LaHiMar é mais focado no Atlântico Sul e tem uma resolução maior ao longo da costa brasileira.
Além disso, temos todo o controle sobre o modelo e podemos extrair qualquer resultado em qualquer lugar que a gente quiser. Essa parte é fruto do trabalho do Guilherme Hammes, que é quem comanda o modelo WW3 no LaHiMar. Na parte de observações, nossa idéia é procurar padronizar e aperfeiçoar as observações visuais do mar usando a experiência que adquirimos anos atrás no Projeto Sentinelas do Mar. Isso vai envolver um certo trabalho e vai demandar um tempinho, mas creio que vai valer a pena. Essa parte vai ficar a cargo do Marco Romeu, aliás, Dr. Marco, depois da conclusão do seu doutorado aqui na UFSC em fevereiro de 2007! O Marco vai também fazer análises do cenário das condições do mar a partir dos resultados do modelo de ondas, dentre outras coisas.
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O que o internauta pode esperar do novo Wavescheck?
Nossa experiência no Sentinelas do Mar mostrou que a padronização pode potencializar muito as observações visuais do mar. Nós estamos com muitas idéias. Apenas para citar um exemplo, no Sentinelas nós tínhamos um método padronizado (numérico) de avaliação da ?surfabilidade? do mar, com a implantação dessa metodologia no novo Wavescheck vai ser possível trabalhar as observações e começar a investigar coisas do tipo: que condições de mar propiciam condições de alta ?surfabilidade? na praia X, ou, qual estação do ano é mais favorável a ?surfabilidade? na praia Y, e assim por diante.
Pretendemos passar a fazer gráficos comparativos das condições observadas visualmente nas praias com as condições previstas pelo modelo em alto mar, também, gráficos semanais dos parâmetros mais relevantes como altura de onda, ?surfabilidade?, enfim, vai dar para fazer muitas coisas interessantes.
Aliás, uma novidade importante é que queremos dar aos internautas interessados em colaborar voluntariamente, a possibilidade de efetivamente participar do monitoramento visual do mar enviando observações e comentários próprios sobre as condições do mar na sua praia.
Se tivermos êxito, podemos até pensar na ressurreição do Projeto Sentinelas do Mar, agora com o auxílio poderoso da internet! Uma última novidade do novo Wavescheck será a publicação de textos explicativos escritos numa linguagem bem simples que possibilitarão aos internautas ampliar seus conhecimentos sobre as ondas do mar.
Para terminar, baseado na tua experiência de quase 40 anos de surf, que mensagem você enviaria à nova geração de surfistas?
Meu irmão, tem tanta coisa… Olha só, mês passado eu estava surfando lá no meio da Joaquina e, de repente, avistei um dorso escuro e grande cortando a superfície da água, depois outro e mais outro. Era um grupo de golfinhos que estava ?passeando? pela costa. Alguns deles estavam surfando as ondas por baixo da água e pareciam se divertir muito com isso, era impressionante ver a velocidade e a força desses animais dentro d?água.
Realmente a natureza adaptou seus corpos para a água de uma maneira perfeita, eles estavam em casa e eu era um simples visitante, mas para mim foi emocionante estar ali naquele momento compartilhando as ondas com esses verdadeiros mestres dos mares. Qual a mensagem? Nesses dias de hoje, em que a gente vê a violência e a corrupção grassando no nosso país e no mundo, eu gostaria que a nossa galera desse um exemplo e resgatasse os valores que marcaram os primórdios do surf: o contato íntimo e respeitoso pela natureza, o espírito de aventura e, principalmente, a cordialidade e a camaradagem entre os colegas surfistas.
Meu caro, nós vamos ficar velhos, nossos corpos vão enfraquecer, nós vamos passar, mas as ondas vão continuar a quebrar e novas gerações virão para desfrutar delas, é esse o curso natural da vida. Acho que demora um tempinho, mas a gente termina aprendendo que no mar ninguém é dono de nada, desfrutar das ondas é direito de todos: dos golfinhos, dos molequinhos aprendizes, dos veteranos de cabelos brancos… Todos devem ser tratados com dignidade e cordialidade. Esse é o espírito da camaradagem que está na raiz do surf e que não pode ser esquecido pelas novas gerações. Um grande abraço a todos!


