Quebrei minha prancha ao meio. Um longboard 9’2” novinho, shapeado pelo Avelino Bastos. Toda branca, linda. Invocada. Cheia de canaletas, bordas “hard” da rabeta até o meio para segurar na parede vertical das ondas de Maresias (SP), e tão direcionada a ponto de ser difícil de manobrar.
Era “down the line” o tempo todo. Acho que o Avelino levou muito a sério a minha recomendação de “uma prancha para agarrar na parede de ondas cavadas e não sair de banda”. Nos drops, grudava que nem craca.
O mar estava com até 2 metros de Sul. Liso, ajeitado, glass. A tradução aqui é: estava “over head”. Não a medida havaiana, mas quase. Nada a ver com o sistema medido em polegadas e pés que os ingleses e americanos exercem só para complicar, e que é conhecido pela maioria dos fãs mortais e surfistas imortais.
O tamanho do mar, das ondas, sempre foi medido em “sensações de tamanho”, não na exatidão da fita métrica. E a sensação de tamanho varia de forma drástica de país para país, de olho para olho, de culhão para culhão. Alguns dizem que o tamanho da onda é inversamente proporcional ao tamanho do seu culhão ao vê-la.
Muito pessoal. Quando maiores as ondas, no entanto, menor o critério, e menos ele se aproxima da realidade. Quem já foi para o Hawaii sabe do que eu estou falando. A cultura de quem vê onda grande o tempo todo, durante séculos, como eles, tende a minimizar a medida.
Foi por isso que, por exemplo, quando entrei em um mar em Pipeline, North Shore de Oahu, Hawaii, na década de 70, e os locais me disseram que estava 8 pés plus, achei interessante observar, enquanto remava pelo canal até o pico e via, de lado, a série quebrando, como era possível que de dentro daqueles “míseros” 8 pés poderia caber uma Kombi com quatro longboards no rack, tala-larga, limpadores de pára-brisa à toda e as mãos dos ocupantes para cima, acenando para o fotógrafo.
Neste dia, em Maresias, a maré estava meio baixa com pancadas secas, correnteza em diagonal do demo, e em processo de esvaziamento. Explico: o lip da onda de Mareca me lembra um pouco os punhos implacáveis do mestre de kung-fu Bruce Lee. Na hora que baixa tende a realizar estragos nos ossos e poliuretanos que estiverem no caminho, na espinha dorsal ou na longarina.
Não deu outra. Neste dia eu não tinha pegado nem uma onda. Vinha de dois finais de semana de sucesso, com sessões bem aproveitadas, prazerosas, fortes e com um volume de ondas surfadas que lembravam a artilharia do time do Santos no Paulistão, com pelo menos 20 e poucas surfadas em gol a cada sessão.
Algumas ondas “gol de placa”, outras para cumprir tabela e não esfriar os músculos no outside. A coreografia era feita na própria onda. Isso me dava confiança, embora algo me dizia, enquanto eu caminhava lentamente para o meio da praia, que aquele fim de tarde seria diferente. Não ouvi a intuição. Ou melhor, ouvi, mas queria ver no que ia dar. Deu.
Na minha fértil imaginação vislumbrei um canal para varar. A água quente contribuía para uma equivocada noção de conforto. Chamar aquele rebosteio, um mix de correnteza para fora com espuma provenientes dos mais diversos quadrantes, de canal, era um exagero otimista. Foi.
Sofri um pouco para atravessar, embora tivesse feito treinos de natação, corrida e ashtanga yoga durante a semana, aliás, providenciais, como veremos a seguir. Tentei lembrar-me que a dor acontece, mas que o sofrimento é uma escolha, mas no meio daquela intensa atividade não tive muito tempo para pensar, porque esta é exatamente a natureza da ação: substitui a elucubração mental com vantagem.
Chegando lá fora, ajeitei a lycra que tinha entortado no corpo com as várias “tartarugas” que fui obrigado a executar. Para os leigos: “tartaruga” é quando, para passar pela onda na remada, emborcamos a prancha, ficando por baixo dela, afim de que a onda passe por cima e não nos arraste… muito. Manobra muito utilizada pelos longboarders. Apressei-me em abotoar o calção que tinha aberto com a movimentação frenética, deixando-me, por alguns momentos cruciais, com a bunda para o céu.
No line-up, clean, ainda sem vento, com séries semi-cascudas, quatro caras que eu não conhecia me olharam como se eu fosse um alienígena recém aterrissado em seu domínio aquático. “Howll!, amigo, amigo!”, pensei. Um deles me reconheceu e cumprimentou em silêncio, curvando ligeiramente a cabeça.
Quando o mar está sério, muitas vezes, os surfistas apenas refletem este estado de espírito. A concentração era um pouco maior que o habitual, e algo me dizia que, embora eu não sentisse a minha integridade física ameaçada, não seria um dia comum. Só não sabia incomum no quê.
Veio a primeira série. Um pouco além do horizonte do que eu havia imaginado e, consequentemente, me posicionado. Dois paus bem servidos caminhando em minha direção com a determinação descontraída das intempéries. Deitei na prancha, já com o calção abotoado e a lycra em riba, e remei o mais rápido que pude.
Passei a primeira, que ainda teve a manha de me dar uma irônica lambida nos cabelos brancos, penteando-os e clareando a minha visão; passei a segunda meio no limite – e era melhor eu não ter visto o que se seguiu! – um arrepio sutil, premonitório, anunciou com cortante clareza o que viria a seguir: a terceira exibiu seus dentes de espuma brancos já armados lá em cima e sussurrou com sua voz salgada: “Esquece, não vai dar”.
Não havia espaço para dúvidas: chutei a prancha para o lado, mergulhei o mais fundo que deu e esperei o impacto. Não senti nada. Só um leve puxão na cordinha. Quando subi percebi que, repentinamente, estava de bodyboard. Menos de um metro da traseira da minha prancha boiava ao meu lado ainda com a cordinha. Tinha quebrado ao meio (ou ao “dois terços”) inapelavelmente.
Esta onda não dá mole, pensei, te confronta com quem você é. Os outros dois terços da parte do bico flutuavam mais à frente, ignorando o meu comando, e já se dirigindo para a praia sem a minha permissão. Sempre me impressionou a percepção de como, enquanto estamos remando ou surfando, a prancha é a nossa melhor amiga, mas que quando caímos ou estamos fora dela, na água, torna-se a nossa pior inimiga.
Se permanecemos sobre elas nos amam, quando nos separamos, seja pelo motivo que for, nos odeiam, e muitas vezes se vingam. Meninas imaturas e ressentidas estas pranchas! Talvez todas elas sejam amantes ciumentas ou volúveis, mas, com certeza, são também sempre companheiras. Contradições do amor e do mar.
O fato é que agora eu estava fora da linha de arrebentação sem a prancha, porque remar sobre aquele toco me parecia impossível. Tentei, e até cheguei a me cortar um pouco nas rebarbas de fibra de vidro esgarçadas pela forçada divisão. Tentei remar sobre a outra parte, a maior, mas ficava demasiadamente desajeitado.
A minha prancha quebrou ao meio. Eu quebrei ao meio, psiquicamente? Não. Estava estranhamente tranquilo. Nadei arrastando aquele terço da minha cara-metade, enquanto decidi empurrar a outra parte, que voltava pela correnteza, em uma das ondas da série para que ela fosse para a praia e não para fora, para o limbo de Netuno. Nesta hora a gente pensa coisas estúpidas ou inúteis. Pensei as duas ao mesmo tempo: “Caraca! O poliuretano vai encher de água!”.
Flashback de outra quebra de prancha ao meio: Punta Rocas, Punta Hermosa, Peru. 1972. Antes de Cristo. Jesus vinha andando sobre as águas geladas do Pacífico. Para vocês terem uma ideia: ainda não tinham inventado a cordinha. Só eu e meu compadre Roberto Teixeira na água. Mais uma vez: 8 pés havaianos.
Perdi a prancha lá fora e sai nadando. Água fria. Longe. Neblina. Magoo, Luís, Carlicha e Sérjião filmaram a cena do cliff com a câmera… super 8 (esse número 8 tá estranhamente onipresente), então só algumas semanas depois eu pude ver como a prancha La Bruja, apelido do Senõr Guillermo Letts, famoso shaper e comerciante peruano, aproximou-se das pedras do inside levada pela espumeira, travou numa delas pela pressão das ondas em suas costas até finalmente partir-se… Fim do flash-back.
Neste dia em Maresias também tive que nadar algum tempo: uns 10 a 15 minutos, até que caí em uma espécie de buraco onde a correnteza me impedia de prosseguir. Quando mais eu me esforçava menos eu saía do lugar. Sensação desconfortável, claro. Mantive a calma, ou a calma me manteve. Na verdade eu e a calma demos as mãos e respiramos juntos, em um equilibrado trabalho de equipe.
Sacar esse detalhe emocional me ajudou. Um dos caras passou remando lá longe e fizemos sinais mútuos de que “qualquer coisa estou de olho”. Este pequeno suporte técnico / moral deu uma turbinada extra na confiança e energia remanescentes. Retomei o fôlego e mandei um sprint em direção a terra semi-firme: a areia. Sim, não existe firmeza no surf, no sentido clássico, nem na água, nem na areia. Tudo é móvel, mutável, incerto, impermanente, maravilhoso.
Chegando à praia encarei aqueles dois pedaços de mim, indo e vindo nas marolas da beira, filosoficamente. Não tinha surfado nenhuma onda naquela sessão. Não tive tempo nem de remar para dropar nenhuma. Não tive sequer tempo de conversar com os caras no outside. Mas foi uma experiência. Uma sessão de surf. Claro, pensei, tudo que envolve o surf, da checada no mar, até a caminhada pela praia, o passar da parafina, a avaliação do vento e da correnteza, a varada da arrebentação, o cheiro de maresia, até o sentar lá fora e observar o horizonte, é notável, precioso e suficiente. As ondas são o bônus.
Nada como uma experiência de fragmentação para treinarmos a inteireza. Juntei os cacos. Senti um estranho alívio, como se a tensão que eu estava vivendo o dia inteiro antes de entrar no mar tivesse miraculosamente se esvaído quando o destino se cumpriu de forma incisiva sobre a minha prancha. Foi como se eu pressentisse o desfecho e pudesse finalmente respirar quando ele se completou, por mais que, na aparência, não fosse o destino ideal. E quem decide o que é ideal e o que é destino?
Tirei a cordinha da perna e andei pela praia com um pedaço embaixo de cada braço. Os poucos que ainda estavam por ali na chuva fina que se precipitava sobre o cenário, e puderam acompanhar o meu percurso até o canto da praia, reagiam de forma diversa. Estava quase escuro, mas ainda vibravam alguns rasgos de cor no céu.
Um dos surfistas, já de partida, e arrumando sua tralha com a namorada, tentou mostrar solidariedade mandando um sinal positivo de longe; outro riu, comentando – não sei como ele sabia – que “não foi a primeira nem seria a última”, um siri elétrico cruzou o meu caminho em direção à água – pareceu-me que sorria de lado, irônico…; um cara alto, barbudo e com uma fish debaixo do braço perguntou se eu queria um Tenaz ou se eu ia colar no cuspe mesmo.
A visão de um surfista com o seu instrumento partido pela força da natureza com a qual ele cotidianamente convive é peculiar, principalmente para os outros surfistas, que se espelham, sentem e vivenciam a experiência como se tivesse sido sua.
Todos aqueles que lá estavam, de alguma forma, quebraram suas pranchas junto comigo. Eu não estava só em nenhum momento, e também nenhum deles saiu ileso da experiência de ruptura. Houve simplesmente uma brecha no mar e no tempo que se transformou em memória. Compartilhada.
Sidão Tenucci é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação e Artes da USP (Universidade de São Paulo) e com pós-graduação em letras. É surfista há 41 anos. Viajou 50 países na caça por ondas e pelas diversas visões de mundo. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Autor dos livro Almaquatica (Fnac ), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson, e da narrativa de aventuras de viagens O Surfista Peregrino. Vem tentando juntar as partes desde que se conhece por gente.