Dono de um dos mais belos estilos da nova geração, o sul-africano radicado na Austrália Craig Anderson viajou por um mês por sua terra natal gravando imagens para seu novo filme, Slow Dance, dirigido por Dane Reynolds. Esta matéria foi publicada orginalmente na edição 330, do último mês de abril, na revista FLUIR e mostra os bastidores da produção do filme.
Por Beau Flemister
Ato I – Skeleton Coast
Cosmic Glitterbug. Reticulated Falcon Wing. Style Boyz. Shredscapades. Liquid Concentration*.
Areia e neblina, um deserto bege e um carro de safári. Talvez houvesse um som tocando no rádio, mas era inaudível por causa do poderoso ronco do V-8. O som parece o de um animal e tem algo de aterrorizante. Alan pisa no acelerador para todos poderem ouvir o ronco. Em algum lugar distante uma leoa levanta as orelhas, despertada pelo som.
Momentos antes, havia salinas cor vermelho sangue e pântanos misteriosos, mas agora galopávamos pela areia. E pela neblina. “Está tocando algo?”, Dustin pergunta, mais alto que o ronco.
“Difícil dizer”, Craig responde, encolhido debaixo de quatro pranchas que não couberam em cima do carro. Quando as empilhamos dentro, ele se recusou a sentar em outro lugar.
Todos permanecem com os olhos fixos no para-brisas. Nosso olhar coletivo tenta derreter o vapor que embaça o vidro. Há uma linha na luz da manhã, como um falso horizonte, bem onde a neblina encontra a areia. Alan e Beren, sentados na frente, esfregam o vidro com pedaços de toalha para desembaçá-lo. Do lado de fora o cenário é o seguinte: totalmente sem direção. “Alan, como diabos sabe para onde deve ir?”, perguntamos. “Simplesmente sigo as os rastros de carros anteriores”, ele responde, ainda olhando para a neblina.
E há mesmo outros rastros de carros. E também pegadas de patas de animais pequenos e grandes, pássaros, além de barrigas de répteis que rastejaram do pântano.
“Acho que qualquer caminho que a gente escolha”, Craig fala do nada, “Vai dar certo de algum jeito.”
“Você só não quer que seja algo sério demais”, Dustin responde.
“Claro, não quero isso mesmo. Mas há uma linha muito tênue entre o sério e o engraçado”, Craig diz. “E você quer que o público saiba se você está sendo ou não sarcástico, pois quando a coisa é séria demais…”
“Tipo o Scratching the Surface?”, pergunto.
“Isso, é sério demais”, Dustin responde rindo. “Mas tem que ser algo bem óbvio, como o Stylemasters.”
“Ah, sim, o Rad Stylemasters”, Craig diz. “Gosto desse.”
E de repente… o mar. Ainda enevoado e com as ondas invisíveis. Seguimos a costa até o point e a luz do dia afasta a neblina. Espuma surge através da névoa. À nossa frente algumas silhuetas vêm surgindo, envoltas pela neblina. Zumbis negros. Nos aproximamos e vemos que os zumbis são surfistas caminhando em direção ao point com expressões de incredulidade e admiração. Dane Gudauskas passa correndo por nós, apontando para a água, gritando palavras incoerentes e batendo na própria testa. Paramos na areia molhada, o rugido de leão para, e o funk volta a tocar. “Hot Pants”, de James Brown, estava tocando o tempo todo.
Pulamos do Land Cruiser e nos lançamos para nossos long johns, frenéticos, com areia voando para todos os lados e alguém em cima do carro gritando: “Pranchas descendo! Pranchas descendo… peguem!”. Nathan Fletcher passa por nós, ele e sua prancha pingando, perguntamos como está o surf, ele sacode a cabeça e murmura algo. Ele é Moisés em uma roupa 4,3 mm voltando do Monte Sinai, cansado, velho e iluminado. Ele continua sacudindo a cabeça, caminha até uma picape, se fecha dentro dela e acende um cigarro.
“Beren!”, Alan grita segurando sua caixa estanque. Se for filmar ali abaixo do point, cuidado com os chacais, bro! Eles arrancam sua perna quando você não está prestando atenção!” Alan olha para mim e dá de ombros. Beren faz o sinal de positivo já a uns 180 metros de nós. Atrás dele, flamingos cor-de-rosa apoiados em uma perna só sobre um pântano formado pela maré escavavam os buracos com o bico à procura de comida.
No mar, um sonho real. Zumbis perdidos em funis. Craig sobre seus calcanhares – despenca, flap, levanta, se abaixa, rabisca, se esconde – então reaparece meio minuto depois. Na água, nossos olhos estão arregalados, as bocas abertas, um safári de tubos grandes e ocos. Jeremy Flores e Aritz Aranburu entubando de backside eternamente. Craig em outra série – mais que o dobro de seu tamanho, uns 3 quilômetros de extensão, a onda da vida dele, a onda de uma vida. Ele sai dela, olha para o céu, sacode a cabeça. Um sonho real.
“Nunca comemorei uma onda na vida, até hoje”, ele diz.
Ainda há mais alguns dias de swell. Linhas verdes que parecem grandes e perfeitas ondulações geradas por barcos. Horas acumuladas de tubos. Focas emitindo sons e nos guiando em meio ao spray. Chacais mordiscando o tripé de Beren. A caminho do aeroporto, atravessando o deserto vazio, mais areia e um céu infinito. Pela janela, uma caravana de veículos assassinos pretos. Tanques com canhões, armas automáticas, metralhadores nos SUVs.
“Golpe de Estado”, penso alto.
Alan ri. “Não, bro. Estão apenas filmando o novo Mad Max com a Charlize Theron.”
“Aaah, Charlize”, Craig suspira e todos no carro murmuram. ##
Ato II – Cabo Ocidental
Glitter Pickle. Ball Point Soul. Earth Ripper. Style Surge. Sea Wolf Shape Shifter. Drip, Drop, Suck, Spit*.
“Sabe pra onde estamos indo?”, pergunto. Craig está dirigindo. Ele parece perdido.
“Não sei dizer”, ele responde, mas seu jeito de falar é mais tipo “não sei”.
Estamos procurando a estrada que leva ao Cabo Ocidental da África do Sul com Craig no volante e Dustin ao seu lado. Do lado de fora do carro, a periferia de Cape Town, favelas se espalham em meio a fumaça e sujeira. Vemos mulheres africanas equilibrando baldes em suas cabeças e carregando crianças. Muitos outros vagando errantes. Todos usando gorros.
“É isso que adoro na África”, Craig diz em um farol. “Todos aqui usam gorro.”
“Isso é o que você adora na África?”, Dustin pergunta.
Um adolescente cambaleante, sem-teto, chega na nossa janela com a mão esticada, palmas das mãos suplicantes, por favor, me alimente. Craig põe a mão no bolso, entrega um bolo de Rands ao garoto e continua a falar: “Quis dizer o jeito que eles usam. Todos usam gorros, mas de maneiras diferentes, um jeito particular de cada pessoa. Têm estilo, só isso”.
O garoto se aproxima de outro carro, cujo vidro vai subindo e se fecha.
“O que realmente quero fazer é tirar várias fotos com uma câmera antiga desses caras usando seus gorros, então fazer uma colagem com elas e mandar para o Dion (Agius). Ele gosta de gorros. Nossa, ele ia ficar louco.”
Craig para em algum lugar próximo a Cape Town. Precisamos de um mapa, um pacote de carne-seca picante de antílope e mais café. Muito mais café. Dustin e eu esperamos no carro alugado. Craig demora muito. Desço do carro, as portas do mercado se abrem e vejo Craig dançando no caixa com duas belas mulatas de uniforme. Ele acena para elas com a mão e elas dizem: “Tchau, Krayg, tchau, Krayg!”.
“O que foi isso?”
“Falei para elas que meu cartão de crédito não tinha funcionado na África, se elas conseguissem passar, eu abraçaria elas. Funcionou, então os abraços viraram dança e elas perguntaram onde eu ia sair hoje à noite”, Craig contou rindo.
“Isso acontece sempre?”
“Às vezes”, ele responde dando de ombros.
Subindo por Cabo Ocidental, com Craig ao volante, a sombra da Montanha da Mesa ia diminuindo no retrovisor. A estibordo, avestruzes selvagens corriam nos acompanhando, se juntando aos antílopes e formando bandos meio borrados. O céu, um oceano sem nuvens, é de um safira metálico na luz invernal. Um tipo de falcão mergulha em direção a terra e, momentos depois, volta a subir e aparecer no nosso campo de visão com algum animalzinho no bico. “Bizzarre Love Triangle”, do New Order, toca no rádio: Every time I see you falling I get down on my knees and pray… waiting for that final moment…
“Que tipo de música você vai pôr no filme, Craig?”
“Difícil dizer agora”, ele diz. “Acho que o que o Dane (Reynolds) quiser. Gosto das músicas dos clipes dele. Quando estão dirigindo, por acaso olham para os animais mortos na estrada?”
“Às vezes”, Dustin responde.
“Ocasionalmente”, falo. “E você?”
“Não mesmo. Nunca olho, me sinto horrível vendo essas coisas”, ele responde.
Paramos no acostamento da estrada. Caminhamos pelas dunas. O som do surf exala estridente a distância. Quando temos uma vista, o que surge é um pico em triângulo em uma praia de areia.
“P@#$a, parece a Graviere perfeita”, Craig grita.
Correndo para descer as dunas, nos juntamos a três bodyboarders.
“Qual é o nome deste lugar?”, pergunto.
“Famoso”, Craig responde, correndo pela praia. “Últimas Palavras!”, ele completa sem olhar para trás. Ótimo.
Alugamos um lugar ao lado de uma enseada com um point de esquerda pequeno em frente. Nos revezamos para fazer o jantar e fingimos gostar daquilo. Começo a lavar os pratos e Craig me diz para parar, pois uma empregada virá limpar as coisas todos os dias. Sento para conversar com Dustin e percebo que Craig está lavando, silenciosamente, atrás de mim. Surfaremos na maré alta.
“Sabe que nem sei se gosto de atum?”, Craig diz espalhando um pouco em nossos sanduíches.
“Não foi você quem pegou umas quatro latas ontem no mercado?”, Dustin perguntou.
“Sim, mas pensei que era o que todos fizessem nessas viagens, tipo, o que se deve comer quando se vai acampar”, Craig falou.
Craig de manhã, pulando das pedras no mar, Craig em meio à nevoa do mar deslizando pelas algas marrons. Craig em uma 5’4’’ sacudindo a cabeça, com o joelho de trás dobrado, com garotos africanos em roupas de borracha velhas gritando: “É ele! É ele!”.
Nós três estamos em um café, checando os mapas de swell. Uma bolha roxa com muitos pés e longos segundos viaja para a África. Craig, com o Wi-Fi lento, está sentado pacientemente, com as pernas cruzadas, cappuccino na mão, esperando um download. “Drifting”, de Rob Machado, só mais seis horas…##
Ato III – Cabo Oriental
Fresh Lips, Cheap Tricks. Shoulder Hoppin’ Turtlenecks. Neap Tide Twilight. Later On, I’ll Smoke You Out*.
“Qual vai ser o nome do filme?”, pergunto.
“Ainda não decidi”, Craig responde. “Mas mandei um e-mail grande para familiares e amigos pedindo sugestões, e todos estão mandando ideias ótimas.”
“Tipo o quê?”
“Meus pais, por exemplo. Meu pai sempre tem nomes bem sérios que sempre têm as palavras rápido (quik) ou prata (silver) no título, tipo: Quik Files, Quik Cuts, Silver Files ou The Silver Chapters. Já minha mãe sempre tem extreme (extremo) nos dela, tipo: Extreme Surfing ou Extreme Adventures: With Craig”, ele diz rindo. “Dane e Courtney mandaram umas oito páginas só com combinações de palavras para eu escolher, tipo: New Cosmic Dance, Cocoon Picnic, Transitional Indian, Abalone Romance (romance molusco).”
“Romance Molusco parece legal”, Dustin diz. “Tem um bom ritmo.”
“É, soa bacana, mas, Deus, não suporto moluscos. Eles cheiram e têm um gosto… de água salgada. Lembram aqueles tacos de frutos do mar que comemos no Chile e que me deixaram passando mal. Moluscos têm gosto de testículos do mar, tipo do saco de Netuno”, Craig fala rindo. “E ainda tem a parte do romance. Isso não soa meio gay, ou radical?”
Indo para a casa da vovó, levamos uma dúzia de pranchas, o diretor, o fotógrafo e um amigo. No caminho para Porto Elizabeth, dentro de um SUV a milhão, vemos próteas pré-históricas brotando em meio à vida selvagem. Há zebras nos arbustos e hipopótamos nos lagos e, apesar de não os vermos exatamente, sabemos que estão lá.
“Você sente uma conexão mais forte com a África ou com a Austrália?”
“Com certeza com a África”, Craig responde. “É onde eu nasci, onde eu aprendi a surfar.” Craig põe a cabeça pra fora do carro em movimento e a África bate em seu rosto e se enrosca em seus cabelos. Na casa dos avós dele, somos recebidos com abraços. A avó de Craig o beija na testa, sacode um dedo e diz: “Você não tem andado de skate, tem? Você pode se machucar Craig”.
J-Bay é J-Bay, igual à cartilha, com quase 2 metros, e Ando é o Occy, usando muita borda e velocidade. O vento é terral, o crowd, pesado e os locais não dão nem um centímetro de espaço. Matt Hoy é um maníaco e chama um kneeboarder pra porrada.
“Ele é meio que o meu mentor”, Craig diz sobre Hoy, mas eles parecem simplesmente opostos.
“Se Hoy é seu mentor, de onde você tirou seu estilo?”
“Lembro-me de ver os filmes de Taylor Steele e ficar alucinado, mas nunca cheguei a estudá-los. Na hora da prática, acabamos surfando como queremos”, Craig filosofa olhando de novo em direção a Supers. “Lembro quando era moleque e o meu pai ia aos campeonatos e estudava os critérios dos juízes. Então me dizia para parar de dar aéreos ou 360s e surfar a onda até o final. E até me levou a um daqueles acampamentos de desempenho que o Martin Dunn fez. Eles nos mostravam vídeos do Ben Dunn e do Parko surfando…”
“Os garotos queriam surfar como o Ben Dunn?”, perguntei.
“Bom”, Craig responde rindo, “ninguém quer receber ordens quando está se divertindo. Eu não queria. Às vezes as pessoas dizem a você o que fazer, mesmo os seus pais, mas se não for algo que pareça certo… não rola. Nunca levei a sério demais o que as pessoas tinham a dizer a respeito do meu surf. Para mim… o surf não é algo muito sério.”
Hoy rema até nós gritando “Galera!”, barbado e com olhos arregalados. O céu está cheio de nuvens, as ondas são longas, a água, gelada e o vento sopra atravessando a borracha de nossas vestes. Um homem magro e idoso emerge dos arbustos e pega umas ondas antes de escurecer.
Retornando a Cape Town, é hora de jantar com os amigos. Baladinha em Green Point. Sushi chique no Beluga. Apresentação europeia a preço africano. Tem um assentamento perto de nós, mas estamos em mundos diferentes. Um grupo de mulheres nos manda uma rodada de drinks, mas sabemos que “nós” significa Craig.
“Você tem namorada, Craig?”
“Não. Tive uma por um tempo, mas com todas as viagens e a carreira…”
“Você já se apaixonou?”
“Essa é difícil”, Craig responde. “Acho que não. Nos círculos que frequento não se acha esse tipo de garota, as que você quer se apaixonar. Sem falar que não posso me apaixonar agora, mal consigo cuidar de mim mesmo!”
Uma garçonete sensual se aproxima e enche o copo vazio de Craig. Depois olha para ele, morde o lábio e vai embora. Ainda olhando ela entrar na cozinha, Craig diz: “Mas ela… acho que eu poderia me apaixonar por ela”. Oceanic Android. Jersey Burners. Wave Flamers. Abalone Romance*.
*Nomes sugeridos por Dane Reynolds e sua namorada Courtney para o filme de Craig Anderson.







