Gary Linden

Por trás das grandes

Gary Linden, californiano de San Diego, é um distinto, carismático e sorridente senhor de 61 anos.

 

Renomado shaper e criador do Big Wave World Tour (BWWT), o mundial de ondas grandes, começou a surfar aos 12 anos e, já aos 17, iniciava a sua própria marca de pranchas, a Linden Surfboards.

 

Admirável profissional e pessoa louvável, Gary Linden falou ao blog Near The Ocean e ao site Waves sobre sua carreira, sua passagem pelo Brasil nos anos 70 e a respeito do circuito de ondas grandes.

 

Primeiramente, Gary, é uma honra e um prazer imenso tê-lo aqui sentado ao meu lado. E eu já gostaria de saber de onde vem esse seu português impecável.

Muito obrigado! O prazer é meu! Eu fiz uma viagem, partindo das Ilhas Canárias e chegando até Recife, em um iate de 10 metros. Gostei tanto do Brasil que resolvi passar seis meses em Saquarema. Como em Saquarema ninguém falava inglês, tive que aprender (risos).

 

Você é shaper há 45 anos e fabrica pranchas para o mundo todo, o que demonstra muita paixão pela plaina. Mas, afinal, você prefere fazer prancha ou pegar onda grande?

Pegar onda grande, sem dúvida. Na verdade, eu comecei a fazer pranchas para ter uma prancha boa, uma prancha diferente. Fiz uma das primeiras pranchinhas da Califórnia, na época em que estávamos na transição do pranchão para a pranchinha. Isso aconteceu porque eu e meus amigos queríamos fazer um surf mais moderno.

 

A mentalidade era: estou fazendo prancha para surfar melhor. Além disso, eu mesmo testo as pranchas que faço. Os caras que surfam com as minhas pranchas sabem que eu tenho arriscado a minha vida testando-as, antes de eles arriscarem as deles.

 

Qual é o melhor big rider da atualidade?

Não consigo dizer só uma pessoa. Gosto muito do Mark Healey, Greg Long, Grant Twiggy Baker, Carlos Burle, Jamie Sterling, Danilo Couto, Gabriel Villarán, Ramon Navarro, Shane Dorian, Ian Walsh, Peter Mel e Kelly Slater. Existem tantos surfistas bons, cada um tem o seu dia. Todos esses têm capacidade de ganhar.

 

Entendo, não tem como dizer um especificamente.

Ah… é muito difícil. Tá, a minha preferência é pelo Mark Healey (risos). Mas não é porque ele é o melhor, é porque eu gosto muito do estilo dele. Ele não pensa muito para entrar na onda. Acaba tomando uns caldos loucos e eu gosto disso (mais risos).

Em 2011, devido à falta de ondas, aconteceram somente três das cinco etapas do BWWT. Isso não tira um pouco do brilho do circuito?

Não, acho que é o contrário. Se sempre estivesse 8 metros, não seria algo especial. Como o Eddie Aikau, por exemplo, em 25 anos só aconteceram oito vezes. Havíamos programado cinco etapas, aconteceram três, ou seja, 60%. Se isso é suficiente para fazermos um campeão mundial, está ótimo.

 

No primeiro ano do BWWT, por ser ano de El Niño, todas as etapas aconteceram, já 2011 foi ano de La Niña. E essa expectativa da incerteza se o evento vai acontecer faz parte do clima que envolve o surf de ondas grandes. Isso é bonito, muito bonito!

 

Todas as etapas do Big Wave World Tour de 2011 estavam previstas para ocorrer no continente americano. Por que não realizar um evento em outros continentes como na África (em Dungeons) ou na Europa (em Mullaghmore Head)?

Realmente. Em Dungeons, África do Sul, foi o lugar onde nós aprendemos a fazer o circuito. Os métodos, o equipamento, a logística, enfim, tudo foi testado lá. Por dez anos tivemos um campeonato em Dungeons, mas a patrocinadora, resolveu parar com o evento (Red Bull Big Wave Africa). Talvez daqui a um mês eu tenha boas notícias sobre isto, pois estamos com planos de ter um evento em Dungeons no calendário do BWWT.

 

Mas em outros lugares, como Irlanda, só no futuro. Lá não existe estrutura para realizar um campeonato. Por exemplo, neste ano inserimos Newscott Reef, Oregon (EUA), ao BWWT. Foi um teste, pois o swell era de acima de 10 metros, e só para passar pela arrebentação, em apenas um dia perdemos seis jet-skis.

 

Então, temos que fazer um experimento antes de dizer que podemos realizar um campeonato do circuito em determinado lugar. Tem toda uma logística envolvida. Além disso, temos que buscar os lugares mais tradicionais de ondas grandes, lugares onde já houve algum campeonato, por exemplo.

 

E quais são as perspectivas e os planos do BWWT para 2012 e para os próximos anos?

Primeiro nós fizemos um circuito. Agora, que já o temos, é hora de crescer. Teremos um tour de qualificação para o tour principal. Queremos inserir a Austrália e a Europa no calendário. Vamos colocar as mulheres para competir já neste ano. Além disso, temos planos de colocar Jaws já na próxima temporada do BWWT (2011-2012)!

 

Gary, o mundo do surf ficou chocado com o recente falecimento de Sion Milosky. Você, como incentivador do surf de ondas grandes, sente alguma parcela de responsabilidade pelo ocorrido?

Não mais do que qualquer outra pessoa. Quem pega onda grande, pega por si mesmo. Não o faz por fama ou por dinheiro, faz pela adrenalina e pela satisfação do momento. Se tivesse um campeonato naquele dia, nós teríamos jet-ski, salva-vidas, helicóptero, hospital, tudo preparado. Mas, como ele estava num free-surf, não teve como resgatá-lo.

 

Então, o circuito facilita os atletas a surfarem com segurança. Esse é o meu sonho. Neste ano, principalmente por causa da morte dele, a gente aumentou a segurança dentro da água durante os campeonatos. Acho que o que pode ser responsável por essas fatalidades é aquele tipo de campeonato que é só uma foto ou um vídeo.

 

Eu gostaria de saber sua opinião sobre a Maya Gabeira e sobre o seu amigo Carlos Burle.

Maya Gabeira compete muito bem, é bonita e atrai a mídia. Junto com o Carlos Burle, forma uma dupla ideal para o tow-in, além de ela ser muito boa na remada também. Carlos Burle é um grande amigo meu e é o rei de tudo. Nota 10.

 

Ele representa muito bem o esporte e me deu muita alegria o fato de ter sido o primeiro campeão mundial de ondas grandes. Ele é um embaixador de nossa causa, do surf de ondas grandes e da segurança dentro da água. 

 

Sempre penso nele como um sócio. Ligo perguntando uma opinião, ele sempre me liga para me informar de algo. Sempre trocamos ideia, isso é muito legal!

 

Gary, foi um prazer enorme essa oportunidade que tivemos para conversar. Muito obrigado pela atenção e pela disponibilidade. Gostaria de desejar imenso sucesso ao BWWT e a Linden Surfboards. Sinta-se à vontade para mandar o seu recado.

O importante é a alegria. Temos que passar a nossa alegria e as nossas vibrações positivas para tudo que fazemos e a todas as pessoas que encontramos. Essa é a essência do surf! Tudo que eu tenho de bom devo aos meus pais e ao surf. O que eu quero é passar isso adiante! Um abraço a todos!

 

 

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