
A fama de surfcity do Rio de Janeiro já corre o mundo faz tempo, porém nenhum outro pico da cidade caracteriza tão bem essa integração entre a comunidade carioca e o surfe como o Pontão do Leblon nos dias de ressaca.
Para quem não conhece o pico, ele fica encravado na zona sul da cidade, área nobre e cartão postal do Rio, e é extremamente favorável às ondulações do quadrante sul/sudoeste, situação que se confirmou no último domingo (13/04), com a entrada de um sólido swell na região.
Agora, se o swell atinge o Rio num domingo de sol, quando a pista da Orla nas praias do Leblon, Ipanema e Copacabana fica restrita aos pedestres, com centenas de pessoas de todos os tipos caminhando e se exercitando, aí a integração público/surfe chega ao seu clímax, principalmente se rolar uma etapa do circuito local em ondas de quase 10 pés.
Pois foi isso que aconteceu no último fim de semana, com a realização da primeira de quatro etapas do circuito QuikIpanema de surfe, patrocinado pela loja multimarca carioca QuikIpanema em parceria com o restaurante Spoleto e a surfwear Local.
“Nosso objetivo era fazer um circuito que reforçasse nossa identidade com a comunidade local”, explica Bezinho, gerente de marketing do projeto. “Porém, o resultado dessa primeira etapa superou em muito nossa expectativa”.
De fato, dava gosto de ver o público acompanhando eletrizado as séries entrando. A cada vaca ou série mais cabulosa, a gritaria no calçadão era geral, como se fosse uma torcida de jogo de futebol.
Fotógrafos das maiores revistas de surfe disputavam lugar no alto do posto de salva-vidas para conseguir o melhor ângulo, enquanto surfistas, na sua maioria desconhecidos da grande mídia, gozavam de seus minutos de glória.
Salvo raras exceções, a maioria dos participantes do campeonato não possui maiores ambições no surfe além de desfrutar do prazer que ele proporciona e a competição se tornou, na verdade, pretexto para uma grande confraternização.
Apesar do caráter local, o campeonato acabou ganhando destaque na mídia carioca. O Jornal do Brasil publicou matéria no caderno principal destacando o evento e citando os patrocinadores, fato bastante improvável de ocorrer caso a competição tivesse rolado, por exemplo, em merrecas de meio metro.
Além das ondas, que por si só impressionam, para entrar no mar no Pontão o surfista tem que pular de um pequeno quebra-mar situado próximo à encosta. Adrenalina pura, principalmente se considerarmos que um erro de cálculo pode ser fatal, e acidentes não são raros no local.
O resultado disso é que além dos locais, poucos se arriscam nesses dias épicos. Aliás, é comum haver uma saudável disputa para ver quem desce as maiores entre os freqüentadores do pico. Não é raro que nos dias clássicos, praticamente todos que estejam dentro d’água sejam moradores do bairro, ou seja, uma grande irmandade.
Gerações de surfistas apreciadores de ondas grandes se formam nesse pico, como o local Marcelo Biju, o big rider mais fashion do Brasil, que possui um programa numa rádio comunitária na favela do Vidigal, a alguns minutos do Pontão. Marcelo Trekinho é outro talento que desenvolveu seu surfe nas potentes ondas do pico, onde funciona também uma escolinha de surfe nos dias de mar calmo.
Porém, quando o mar sobe no Pontão é normal que o trânsito na praia pare para apreciar a galera descendo as bombas. Dezenas de curiosos se apinham no mirante da Av. Niemeyer, tradicional ponto turístico que se debruça sobre o Pontão, para ver as ondulações marchando em direção ao pico.
Não raro, esses espectadores tomam a iniciativa de avisar aos surfistas, com assobios e gritos lá do alto, quando séries apontam no horizonte, e os desavisados no mirante podem levar um banho das séries maiores, para completar o show.