Vou concluir antes mesmo de começar: nós surfistas não podemos ficar alheios à batalha para proteger as florestas tropicais submarinas, como são também conhecidas as bancadas de corais. Pronto, quem não estiver interessado em mais uma cobrança dos defensores do meio ambiente, se ao menos leu até aqui, já escutou a mensagem final e quem sabe em algum outro momento terá a preocupação de querer saber mais. Talvez até mesmo agir, tomando parte num movimento que visa garantir a integridade do oceano como um todo e a preservação de um dos ecossistemas que mais nos proporciona felicidade.
A realidade é que num país como o Brasil, onde o povo enfrenta problemas tão prementes quanto a violência descontrolada e a corrupção descarada de seus governantes, fica difícil sensibilizar alguém quanto à necessidade de se proteger bancadas de corais. Como se preocupar com o branqueamento dos corais quando o vermelho do sangue derramado de Ricardinho dos Santos ainda pede justiça. Ou protestar contra as emissões de carbono na atmosfera se nem a vergonhosa poluição das praias do Rio de Janeiro, que obriga seus residentes e visitantes, incluídos ai os competidores do Circuito Mundial, a surfarem na merda, motiva as autoridades a tomarem alguma atitude em prol do meio ambiente. Ainda mais se levarmos em conta que no Brasil a maior parte dos fundos sobre os quais se surfa são de areia, e que 80% das bancadas de coral do Nordeste já foram dizimadas nos últimos 50 anos por extração abusiva e poluição urbana e industrial.
Mesmo quem viaja para lugares como a Indonésia, com seus 80 mil quilômetros de litoral praticamente todo recoberto por recifes de coral que dão forma a muitas das melhores ondas do mundo, não presta muito atenção ao que está acontecendo debaixo d’água. Se os tubos estão bombando na superfície, “tá tudo certo”, costuma ser o pensamento imediatista de qualquer surfista. E não me excluo dentre os que estão mais compenetrados em maximizar o prazer do momento do que pesquisar o estado de saúde do fundo do mar. Como não podemos visualizar com facilidade o que pode estar acontecendo até mesmo com o coral sobre o qual quebram as ondas que estamos surfando, dependemos de um alerta que parta de um indivíduo ou organização que esteja monitorando a situação e suas consequências.
O que me levou a tomar consciência da gravidade do que vem ocorrendo, foi uma visita que fiz a ilha Landa Giraavaru, nas Maldivas, uma das duas localidades, a outra sendo a ilha de Kuda Huraa, onde a cadeia de resorts Four Seasons patrocina o projeto Reefscapers, de propagação de bancadas de coral. Lá fui convidado a plantar meu próprio coral. Com o acompanhamento de uma equipe de biólogos marinhos e utilizando uma técnica inovadora e muito efetiva, na qual fragmentos de coral são presos a uma estrutura metálica criada com a finalidade específica de dar sustentação ao seu crescimento, tive o prazer de contribuir para a recomposição da bancada que circunda a ilha.
Até o momento, o projeto Reefscapers já permitiu a instalação de mais de 3000 estruturas nas águas ao redor dos dois resorts, ocupando uma área de mais de 10 mil metros quadrados, na qual estão florescendo mais de 40 espécies diferentes de corais, permitindo inclusive o ressurgimento de peixes considerados extintos nos atóis do norte das Maldivas. Devastadas pelo aquecimento do mar ocorrido durante o fenômeno El Niño de 1998, que matou 90% dos corais de baixa profundidade do arquipélago, as bancadas estão se tornando novamente um importante recurso gerador de renda para a economia local, atraindo turistas e restabelecendo um elo fundamental da cadeia alimentar marinha.
Cada visitante do resort que fizer uma doação ao projeto tem o direito de instalar uma estrutura com seu nome e número presos a ela, permitindo a identificação e acompanhamento do crescimento do “seu” coral, ao vivo num mergulho de reconhecimento durante futuras visitas, ou à distância por fotos enviadas a cada seis meses pela equipe do Reefscapers. Quando recebi a primeira imagem, e em todas as seguintes, num total de quatro até agora, vibrei muito ao constatar que cada pedacinho de coral que amarrei à estrutura havia crescido um pouco mais. Na mais recente, foi possível verificar que quase toda a área originalmente disponível entre cada um dos fragmentos estava ocupada. Aguardo ansioso a próxima foto.
É claro que, apesar de seu pioneirismo e dos resultados bem sucedidos que vem apresentando, o projeto Reefscapers não irá resolver a grave situação que as bancadas de coral enfrentam ao redor do mundo. Mas certamente tem servido como um importante instrumento de divulgação da necessidade de se proteger as formações de coral, além de cumprir o sábio mandamento de que deve-se “pensar globalmente mas agir localmente”. Somadas as áreas de todas as bancadas de coral, temos o maior ser vivo do planeta, que cumpre funções fundamentais na manutenção do mundo como o conhecemos, protegendo a costa da força destrutiva do mar e servindo de berçário para parte substancial da fauna e flora marinhas.
Para sua proliferação as bancadas de coral necessitam de condições encontradas apenas em águas tropicais e sub tropicais, que tem que ser limpas e de baixa profundidade. A temperatura deve idealmente ficar entre 23? e 29? C. Fora desta faixa ocorre o comprometimento da sobrevivência da alga zooxantela, que vive em simbiose com o coral realizando a fotossíntese da qual ele depende para completar sua alimentação. É essa alga que dá cor ao coral, fazendo com que após sua morte, por temperaturas de água baixas ou altas demais, ele branqueie e também morra. Atualmente grande parte das bancadas possuem de 30 a 50% menos corais do que há trinta anos.
Um quinto de todas as bancadas de coral do planeta já estão mortas, sendo que 90% dos corais do Caribe já se foram e 90% das bancadas remanescentes no planeta deverão desaparecer até 2030, com o pouco restante previsto para estar extinto até 2050. Ou diminui-se a liberação de CO2 na atmosfera, com a consequente acidificação e aquecimento dos oceanos, principal causa da morte dos corais, ou o trágico cenário acima se materializará. Junto com tudo isso virá a elevação do nível do mar e o desgaste das bancadas de coral, à medida que elas forem sofrendo o impacto da atuação das ondas e marés sem que ocorra qualquer crescimento repositor. Em outras palavras, estamos caminhando para um mundo onde a maré será sempre cheia e picos que só funcionam na meia maré ou na baixa irão parar de produzir ondas.
Neste sentido, ações como as conduzidas pelo projeto Reefscapers podem dar a esperança de que através da experimentação com diferentes espécies de corais possam ser encontradas aquelas que resistam mais ao aquecimento dos oceanos. Organizações como a The Coral Restoration Foundation e a Nature Conservancy também tem se esforçado para encontrar soluções que garantam a proteção das bancadas de coral. Criar um número cada vez maior de Áreas Marinhas Protegidas está entre as recomendações consideradas mais efetivas por especialistas. Não comprar souvenires feitos de coral, só consumir peixes pescados de maneira sustentável e fiscalizar a ocupação costeira, reduzindo poluição de áreas com incidência de coral, escavação das bancadas para obtenção de material de construção e acesso de embarcações, fazem parte também das medidas a serem tomadas na luta para salvar os corais. Mas tudo indica que a mais decisiva de todas as estratégias ainda é a redução da emissão de CO2.
Quando sugiro no título desta matéria que cada um plante seu coral, sei que isso não é possível de ser feito de uma maneira literal por todos. Mas simbolicamente podemos estar plantando nossa próprio coral cada vez que optarmos por uma ação entre as mencionadas acima para coibir a destruição das bancadas. Agora, se surgir a oportunidade de efetivamente plantar seu coral, não deixe passar a chance, a sensação é muito boa, equivalente à de plantar uma árvore.
Gosto de sonhar com um futuro onde tudo que se está aprendendo em projetos como o Reefscapers venha a servir não só para salvar bancadas de corais afetadas por algum tipo de agressão humana, como também para criar bancadas novas em lugares que julgamos ter o potencial para produzir ondas perfeitas mas que não contam com o fundo necessário. De acordo com as previsões, ao mesmo tempo em que o já inevitável aquecimento do mar irá tornar algumas regiões impróprias para o crescimento de corais por excesso de temperatura, passará também a permitir que outras, antes frias demais, se potencializem como possíveis habitats para as bancadas que os surfistas tanto prezam.
Para quem quser saber mais: http://marinesavers.com/reefscapers-coral-propagation/
The Coral Planters
Conservation International