V – O Carneiro Verde
Nas noites de Puerto de Chicama, a mulher de El Hombre, uma índia gorda com os cabelos oleosos presos em tranças até a cintura, cozinhava um carneiro verde num caldeirão enorme, à luz do lampião. A fumaça da lenha queimada a envolvia, criando sombras móveis na parede de cal.
João Príncipe gostava de sentar na cabeceira da mesa, no fundo mais escuro daquele fim de mundo. Alguns aproveitavam para passar Merthiolate nos cortes feitos nos pés pelas cracas e mariscos, eu tentava limpar o garfo esfregando-o com um guardanapo de papel, outros ficavam em silêncio, esmagados pela memória recente de ondas intermináveis. Surfávamos até cair. A maioria comia também até cair, mas por motivos menos honrosos.
A alimentação possível não seguia os preceitos da boa mesa ou de uma dieta balanceada: leite condensado, banana verde, pão duro, bolacha de quinta, arroz empapado de sétima, carneiro verde. Carneiro verde? Um pesadelo nutricional. Sim, mas lembre-se que, com dezoito, vinte anos, a capacidade de digerir o mundo é outra. Pelo menos a minha era.
Conversando com os locais descobrimos o porquê do suave, mas eterno fedor de urina e fezes que emanava do deserto: eram o resultado do enorme depósito de “guano”, os dejetos das gaivotas, que eles vendiam como adubo. Quando o vento estava contra, ou seja, sempre, pairava um suave lodo pestilento no ar.
Depois de algum tempo, o odor desses milênios de cocô de gaivota acumulados tornaram-se outra espécie de brisa, fundindo-se com o cheiro das ondas. Durante a nossa volta pela trilha, percebíamos que algumas das gaivotas morriam na praia, e seus corpos jaziam ali, para deleite dos caranguejos, que os transformavam rapidamente em pequenos esqueletos distorcidos.
Dormíamos no chão da pousada de El Hombre, colocando nossos sleeping-bags sobre esteiras de palha. Dada a ausência quase total de chuva, o conceito de “índice pluviométrico” era desconhecido por ali. Muitas das casas não possuíam telhado. Para quê? Um violão com as cordas enferrujadas e uma gaita compunha o fundo musical nas noites estreladas. Crosby, Stills, Nash & Young, James Taylor, Genesis, Yes, Gil, Beatles.
O quarto dava para a rua principal (e única) da vila: uma receita inóspita de terra vermelha com areia. Não havia este luxo chamado porta – portanto a teoria de surfar uma, em Chicama, não pôde ser comprovada. Às vezes e como de costume, um porco entrava, dava uma cheirada na galera e saía em disparada. Difícil descrever a sensação de acordar à noite com aquele focinho no seu.
Às vezes o porco se abastecia de nossas excreções recém produzidas e ainda quentes, que, para ele, diante do seu paupérrimo leque de opções, deveria ser fina iguaria proteica. Na completa ausência de banheiros, eles nos seguiam no deserto, e tínhamos que largar e sair correndo, porque o bicho vinha com tudo prá cima do monte. Terceiro mundo trash.
De manhãzinha acordávamos com uma gangue de moleques de braços cruzados nos encarando e sorrindo com seus poucos dentes do vão onde deveria existir a porta. Escovávamos os nossos dentes com água salgada. Nossos cabelos compridos ficaram tão duros e embaraçados com a falta de água doce que tivemos que podá-los.
Esse fato resultou em uma vantagem inesperada: as longas crinas molhadas com a água gelada do Pacífico cessaram de congelar a nuca. Por outro lado, mais um símbolo da civilização ocidental caía frente à realidade terceiro-mundista: Woodstock se curvava ante Chicama.
Poucos sobreviveram com os estômagos intactos ao carneiro da mulher do El Hombre. Pelo o que eu me lembro, o único que não teve um piripiri atômico, a popular caganeira, fui eu, o que me rendeu o apedido de “avestruz”. “Digere tudo, o desgraçado!”, comentavam os invejosos (risos). Quem mandou comer carneiro verde, moçada?!
(Fim)
Sidão Tenucci é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação e Artes da USP (Universidade de São Paulo) e com pós-graduação em letras. É surfista há 42 anos. Viajou 50 países na caça por ondas e pelas diversas visões de mundo. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Autor dos livro Almaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson, e da narrativa de aventuras de viagens O Surfista Peregrino. Vem digerindo carneiros reais e metafóricos, de cores diversas e procedências duvidosas, durante toda a sua vida.
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