I – Milagro
Quando aportamos nas terras incas em 1972 tudo era mágico. Tenho certeza de que não vi nada real. Todo e qualquer momento, pessoa, local, paisagem, onda, estava revestido e impregnado irremediavelmente pelas vestes da imaginação ardorosa do adolescente pilhado.
Vou tentar lembrar-me dos cheiros da “Papa (batata) à Hyuncaína”, da pimenta que ardia até nos ossos, fazendo-nos chorar o lamento dos surpresos para o divertimento dos amigos peruanos, dos livros a luz de velas – Kafta, Gabriel Gárcia Marquez, Carlos Castañeda, Hermann Hesse –, do quilômetro 43 da carretera-estrada que esbarrava na Playa de Silencio e nos tornava oficialmente viajantes do universo (a caminho de Punta Hermosa e Punta Rocas).
Que deliciosa insanidade deixar sua persona social no país de origem e permitir-se ser outro. Qualquer um. Meu querido poeta Fernando Pessoa já dizia: “O que é a vida sem loucura? Uma besta saudável. Um cadáver que procria”.
Vou tentar lembrar-me das noites no deserto, onde não reconhecíamos nada do que tínhamos sido até então; dos locais quase-irmãos, Negro Soto e José, que nos exibiram uma amizade real, uma inédita conotação sobre como reverenciar São Pedro, alguns costumes botânicos calientes e ondas de água fria. Das chicas de pele escura e olhos negros das comunidades indígenas e das loiras de Miraflores e San Isidro, descendentes de europeus. Todas com a terna disposição de nos ensinarem a correta pronúncia para “Ti amo, cabrón!”.
Como não tínhamos carro, levar as pranchas na cabeça ou arrastá-las pela areia por quiilômetros até os outros picos fazia parte do surf, assim como nadar, considerando que a cordinha não tinha sido inventada. Segundo meu amigo Pinguim, que eu tive o prazer de rever semanas atrás depois de muitos anos, ou melhor, décadas, a cordinha foi o maior avanço tecnológico do esporte. Permitiu-se ousar mais, manobrar mais radicalmente, sabendo que o castigo nos seria poupado.
O interessante é que eu, na OP, e ele, em Floripa, começamos nossas empresas alguns anos depois justamente fabricando cordinhas de tubos cirúrgicos, usando fios grossos de nylon como “alma”… É a tal da necessidade que é mãe da tal invenção. É claro que, na época, nadar não era encarado como um algo negativo ou cansativo, era apenas um leve e quase sempre inevitável interlúdio entre as séries. Era parte indissociável do surf. Pensando bem, a natação embutia um aspecto mais holístico à prática. Integrava-nos ainda mais no ambiente, inserindo-nos no mar não só como anfíbios de superfície, mas como peixes de profundidade.
Pan e mantequilla. Leche caliente. Parafina de morango. Cabelos nos ombros. Água salubre. Peles tostadas pelo sol do deserto. Pasta de Lassar, lábios de Minâncora (na época só havia Chicama no mapa do surf, ainda não Mancora), narizes de Hipoglós, pele que saía junto com o mesmo Hipoglós à noite, antes de ouvir os escorpiões baterem suas garras, como chocalhos, embaixo das duas camas grandes onde se aglomeravam exaustos da remada e da excitação do dia, dez moleques loucos para engolir o mundo. O presente nosso de cada dia.
O belo dia em que, sentado no trono sem tampa, diretamente no frio da porcelana, vi um escorpião andando pela parede quando haviam me dito que escorpião não saía do chão. Lentamente, e com uma técnica aprendida no instante do medo, tirei a minha Havaiana do pé direito (olha o comercial merchandising, Serpa! ) e… zap!: dei nas costas do danado, sem dó. Mas não a ponto de esmagá-lo. Depois de um banho de resina, foi emoldurado, lixado e virou chaveiro. Cruel? Sim. Mas se eu fosse picado enquanto, naquele momento sagrado, trocava parte da minha energia já transmutada com o planeta, seria bem mais injusto. Do meu ponto-de-vista, claro.
O ônibus para Chicama, 600 quilômetros ao Norte de Lima, já vinha com nostalgia no preço da passagem. Levo-a (a nostalgia) até hoje, claro, nesse peito que já foi impactado de quase todas as emoções, mas ainda não sabe nada. O fato de a empresa de transportes chamar-se “Milagro” só me enchia de premonições assertivas sobre a beleza dos nossos destinos.
(continua)
Sidão Tenucci é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação e Artes da USP (Universidade de São Paulo) e com pós-graduação em letras. É surfista há 42 anos. Viajou 50 países na caça por ondas e pelas diversas visões de mundo. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Autor dos livro Almaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson, e da narrativa de aventuras de viagens O Surfista Peregrino. Adora um ônibus com destino desconhecido.