Pauê: vencedor de baterias da vida

Quando o surfe está na veia, o impossível é relativo. Paulo Eduardo Aagaard, o Pauê, que o diga.

 

Quase todo mundo no meio do surfe conhece ou já ouviu falar de Pauê, atleta de São Vicente que há três anos começou a disputar a bateria mais casca de sua vida.

 

Há quatro anos, Pauê voltava pra casa à noite quando foi pego por uma locomotiva, ao cruzar um terminal ferroviário desativado.

 

Por conta do acidente, que lhe custou a amputação das duas pernas abaixo do joelho (o termo ortopédico é bilateral), teve sua perfomance no surfe definitivamente comprometida. Peraí… será que teve mesmo?

 

Paulo Eduardo Aagaard é um baita exemplo. Trocar uma idéia com ele é descobrir um cara zen pra caramba, tranquilo, que sabe que passou (e passa) por uma senhora provação, mas que continua na mesma batida, como antes, com vida “quase” normal.

 

Otimista até a medula, e sem disfarçatez. Não é difícil descobrir que ele já era assim antes do acidente (o que ajudou muito), e que apenas assimilou o baque à sua maneira e fez disso sua força motriz.

 

Amigos e família também fizeram sua parte. Um mês depois da preserpada, o cara já tava andando normalmente com o auxílio de próteses. É como diz o ditado: tomou o gol? Bola pra frente.

 

E vai falar para ele sobre parar de surfar. “Tá certo que foi grave, mas não é por causa de um acidente que eu vou deixar de fazer o que mais gosto na vida”, afirma com todas as letras.

 

Óbvio que ele conhece seus limites. Antes do acontecido, Pauê corria os circuitos locais do eixo Santos-Guarujá, “e tinha bons resultados”, diz. Agora confessa ter suas inseguranças no mar, mas está a cada dia mais adaptado e evoluindo.

Ele recorda que a primeira caída pós-acidente foi inesquecível. “Foi um alívio contornar um problema que tanto me afligia e me sentir reabilitado ao cotidiano”, diz. Até pouco tempo, Pauê surfava em pé, com próteses.

 

Atualmente, está revendo essa estratégia. “Hoje tô surfando sem próteses, estou testando uma maneira de me adaptar melhor”. Pauê acredita que sem próteses pode sentir melhor a prancha, por conta do contato direto com o shape, o que lhe daria mais segurança para a realização de manobras.

 

“Tenho discutido muito isso com o Pirata (surfista santista, também acidentado). Ele acha, inclusive, que estou com um surfe fluido e veloz. Falta só achar a prancha ideal”.

 

É aí que entra o lendário Almir Salazar. Juntos, Pauê e o veterano shaper e surfista têm debatido qual o melhor caminho a seguir. “Ele passa as experiências dele, e eu digo o que sinto. Aí, elaboramos um padrão para a escolha do shape”, explica.

 

“Ele é um dos melhores, senão o melhor shaper do Brasil. Acredito muito no seu trabalho, e sei que vamos chegar à opção mais correta”. Claro que a hipótese de continuar a surfar em pé nem de longe está descartada.

 

“Mas vou esperar até existirem próteses que facilitem o movimento da articulação do calcanhar. As que uso hoje dão apenas um amortecimento, o que dificulta na hora da cavada, ou até mesmo em uma rasgada na parede”.

 

Difícil mesmo para Pauê é aguentar ficar longe do mar. Isso porque o acidente o levou a investir também em outros esportes, e o que antes era lazer, virou compromisso: o triatlon é hoje responsável pelos contratos de patrocínio e campanhas de marketing que lhe rendem divisas.

 

“Tenho caído sempre que dá, mas infelizmente estou empenhado em outros projetos que me tomam tempo. Já aconteceu de estar dando altas ondas e eu não poder surfar porque tinha que ir pedalar e nadar. Mas acho que os dois lados se completam”.

 

Para matar a fissura, às vezes vale até se aventurar. Recentemente, Pauê pegou carona num jet-ski e foi acompanhar in loco a caída de seu amigo Daniks Fisher num mar storm e casca-grossa na Garganta do Diabo, pico off-shore em Santos (SP).

 

“Fui só olhar, mas já deu pra sentir a adrenalina. Aquele mar não era pra mim. Tava uns 10 pés!”, conta.

 

Isso não significa que a Garganta do Diabo esteja fora dos planos, já que um dos desafios a curto prazo é uma session experimental de tow-in lá mesmo, que vem sendo tramada com seu amigo big rider Sylvio Mancusi. “Ele já chamou eu e o Pirata várias vezes quando o mar subiu”, diz Pauê. “Mas nossas agendas ainda vão bater”.

 

Auto-declarado bon vivant, Pauê atualmente cursa Fisioterapia em Santos e treina firme para seu grande objetivo: as Paraolimpíadas de Atenas, em 2004.

 

Currículo não lhe falta: ano passado beliscou no México a faixa de campeão mundial de triatlon, na categoria amputados; um segundo lugar no Troféu Brasil, e um terceiro no Panamericano de Triatlon completam o cardápio.

 

Nas horas vagas, ele tem trocado figurinhas com Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr., que deve render um projeto conjunto em breve. Mas, Pauê não esquece do surfe. 

 

“É até engraçado, quem não me conhece mal sabe que pratico triatlon, mas sabe que sou surfista. Acho que tenho um foco legal do esporte, afinal foi o que moldou minha personalidade na adolescência. No fundo acho que é amor, pois adoro tanto o surfe que minha alma acaba transparecendo isso”.

 

Moral da história: da próxima vez que aquela “vassoura” te chacoalhar de jeito quando estiver voltando pro line-up, e você pensar em virar o bico na direção da praia, lembre do Pauê.

 

O impossível pode até existir, mas é relativo.

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