Quatro leis da espiritualidade adaptadas ao surf:
1) A pessoa que chega é a pessoa certa – “A onda que chega é a onda certa”.
2) O que aconteceu era a única coisa que poderia ter acontecido – “O caldo ou o tubo que aconteceu é a única coisa que poderia ter acontecido”.
3) Qualquer momento que algo se inicia, é o momento certo – “Seja qual for o momento do drop, é o momento certo”.
4) O que termina, termina! – “A vida, a onda, o amor, a morte”.
O guru Osho daria um pitaco muito ao seu estilo na relação acima: “O certo é fácil”. O nosso guru, o surfista legendário Greg Noll, desbravador do terceiro reef de Pipeline e primeiro a surfar a baía de Waimea nos anos 1960, diria: “Eu peguei as maiores ondas do mundo, os otários que ficaram na praia perdendo tempo, o problema é deles.”
Essas leis são multiuso, inclusive para avaliarmos a porrada-coincidência-cósmica como a extensamente citada e sutil diferença de quatro dias entre a morte de Andy Irons e a conquista do décimo campeonato mundial de Kelly Slater.
Agora, com um pouco mais de distanciamento, insiders e jornalistas dos bastidores do circuito dizem que não foi dengue, ou só dengue, não, mas que o sistema imunológico do local de Kauai – com seus três títulos mundiais, único surfista a desafiar a hegemonia do menino da Flórida, estaria prejudicado pelo provável uso constante de substâncias, digamos, comprometedoras, e seus contravenenos.
O fato é que a polícia do aeroporto de Dallas encontrou remédios contra a depressão e insônia, e segundo o jornal havaiano Honolulu Star Advertiser, o laboratório responsável pela autópsia do surfista apontou que, dentro do frasco de Ambien (remédio contra a insônia), havia cápsulas de metadona.
Slater e Irons. A diferença entre os dois é “simplesmente” o karma? Ou o perfil psicológico construído por cada um – adultos e responsáveis -, através do background familiar? Nasceram com a trilha de suas quilhas já traçadas nas águas e na vida?
E o que dizer da postura extraterrestre de constante radicalidade de Slater, dentro da água – vejam bem -, contra a vida radicalmente inconstante de Irons também fora dela? O que é melhor: vencer 10 campeonatos mundiais e ser ícone do esporte provavelmente pelo próximo milênio, ou “viver rápido e morrer cedo” – live fast, die young? Qual é o mais guerreiro-roqueiro? Não serão guerreiros de estirpes diversas, instrumentos diferentes, propósitos? O que é vencer? O que é a derrota? Pato parado leva chumbo. Pato agitado demais, também.
Pulando de pato morto para ganso guerreiro, só para não perder o costume de inserir analogias tresloucadas e quase nada a ver, mas continuar guerreando com Slater e Irons, lembrei-me de que os Aryas, a tribo ainda nômade que veio para a Índia em 1.500 A.C., da região que hoje é o Paquistão, no seu processo de colonizar a península indiana, foi quem lá introduziu o conceito de castas.
Na época não as tinham hierarquizado, ou seja, ninguém era melhor que ninguém. Cada um cumpria a sua função complementar na sociedade – sem o lixeiro a sociedade entra em caos. No começo, as quatro castas: brâmanes (sacerdotes); kshatryas (guerreiros); vaishyas (comerciantes), e os sudras (operários – depois desmembrada também na “sub-casta” dos dalits, os “intocáveis”) equilibravam-se dessa maneira – os primeiros surfistas sociais? Com o tempo foi-se introduzindo o conceito de um valor maior atribuído a algumas delas:
1) A quem detinha o poder da informação, no caso os intermediários dos deuses, os brâmanes, os sacerdotes;
2) A quem detinha o poder da matéria, os comerciantes – originalmente com a atribuição de prover as necessidades de sobrevivência dos outros membros da sociedade;
3) A quem detinha a força, os guerreiros, que tinham a função original de simplesmente proteger o povo. A função de defender a ética, o espírito, os mais fracos.
O direito à onda de quem estiver no pico. O direito de permanecer vivo. O direito de não exercer a força. Não exercendo a força, mais concentrada ela se torna, e mais poderoso se torna o guerreiro.
Se a força se dispersa e o espírito fenece, perde-se o guerreiro, e, irreconhecível, é engolido pelas ondas do mar ou tragado pelas ondas da vida.
Sidão Tenucci é escritor e surfista há 42 anos, viajou por 50 países. É diretor de marketing da OP Ocean Pacific. Autor dos livros Almaquatica (Fnac) e O Surfista Peregrino (Livraria Cultura).