
Ao abrir minha caixa de e-mails, vi uma mensagem do Garret Macnamara falando de uma possível trip ao Chile.
Semanas depois, enquanto checava a internet percebi um swell grande na direção do Chile e Peru e retornei o e-mail ao Garret falando que já estava de passagem marcada, que tinha alguns contatos e se ele estava pronto para provar a força das ondas sul-americanas.
Imediatamente, como se já estivesse preparado, falou que iria comprar sua passagem e que me encontraria no Peru em dois dias. Confesso que fiquei surpreso, mais vindo dele, não duvidei.
Fabiana e eu preparamos nossas coisas e voamos para o Peru. A recepção de Luisfer, conhecido por todos os brasileiros por sua simpatia e humildade, foi show. Ficamos hospedados em sua pousada por alguns dias até a chegada de Garret. Lá já estava toda a galera de brasileiros, comandada por Sylvio Mancusi e Formiga.

Fizemos sessions alucinantes em pico alto como Sylvio já escreveu, e com a chegada de Garret no dia exato partimos para nosso próximo objetivo: Chile, mais precisamente em Arica.
Sempre sonhei em surfar as ondas de El Boy de tow-in e inclusive já havia tentado outras vezes, mas sem sucesso. Já surfei algumas vezes na remada, mas fazer tow-in naquela onda realmente seria um sonho. E foi, pois nosso anfitrião Kaman já tinha preparado tudo, jets, barcos, casa e comida, e as ondas estavam realmente de sonho.
A casa onde ficamos era praticamente de frente para a onda e, durante a noite, antes do swell, Garret me falou que os vidros do quarto que dormia estremeciam e que acordou durante a noite e, olhando no espelho, se perguntou se estaria preparado.
Acordamos cedo e nossa superestrutura estava funcionando como nunca tinha visto acontecer antes. Café na mesa, jets com gasolina e óleo, zodiak, câmeras à postos, mecânico e tudo que se pode precisar de uma grande estrutura para o tow-in. Inclusive as ondas perfeitas com tubos de 3 a 4 metros.

Com tudo pronto, lá fomos nós para a missão. Resolvemos esperar o zodiak com o cinegrafista em El Gringo, de dentro da água as coisas sempre são diferentes, e como todo surfista fissurado resolvemos surfar algumas ondas. Peguei duas ondas e Garret também surfou duas. De repente nosso amigo Carlos, dono dos jets e que estava conosco para o caso de precisarmos de outro, deu início a maior emoção do dia.
Com um jet wave blaster, especial para correr, ele se aventurava como de costume nas ondas de El Gringo, quando de repente, em um de seus saltos sobre a onda , voou do jet. Falei ao Garret que saísse do jet e fui na direção dele para salvá-lo e quem sabe salvar o jet também. Pura ilusão, pois foi tudo muito rápido, peguei ele mas o jet já tinha ido para a zona de impacto.

Uma onda de uns 10 pés vinha em nossa direção como uma locomotiva descarrilhada, acelerei tudo que pude, mas o jet 650 não tinha mais motor e a onda já começava a nos vencer. Na minha cabeça muitas coisas passavam rapidamente, pedras, perder toda a session que supostamente seria de sonho e toda a estrutura que tinha conseguido estava indo por água abaixo.
Agüentei firme a espuma da onda nos pegando no slad e em cima de Carlos, até o último momento, sabia que não podia desistir, e mais uma vez consegui, graças a Deus! Só Ele realmente! Naquela altura perder Carlos poderia se dizer perder uma vida, acima de tudo. Bem, com Carlos a salvo, a galera na praia não acreditava no que via, pois o Jet se destruía nas pedras. Moral da história: um jet a menos, mas graças a Deus ninguém ferido.

Meia hora mais para conseguirmos tirar o jet, em pedaços, das pedras – quem conhece El Gringo deve imaginar como foi tirar um jet cheio de água pela frente do pico, ainda com ondas de 3 a 4 metros que lavavam a rua. Bem, tudo certo, agora sim iríamos realizar meu sonho.
Garret não acreditava no que via, nem eu, tubos e mais tubos perfeitos e ondas grandes que às vezes lembravam Jaws. Surfamos durante seis horas, sem parar, revezando-nos e entubando muito. Na água apenas nós e nosso cinegrafista. No final, o local Kurt resolveu assistir de dentro da água e ainda fizemos a alegria dele colocando-o em algumas das maiores ondas de sua vida.
Foi realmente um session de sonho e gostaria muito de agradecer a Kaman e toda sua família, minha esposa Fabiana, Carlos, Francisco, Garret por toda sua vontade e atitude, pois sair do Hawaii, de um dia para o outro e voar durante 15 horas e acreditar que tudo daria certo foi uma grande atitude.
E, é claro, aos meus patrocinadores (Freesurf, Mormaii, Luilui, Bullys e Pro-ilha) que me permitem ir em busca de um swell a qualquer momento e em qualquer lugar. Muito obrigado. Aloha!
Confira a galeria de fotos da barca.