Há exatamente 13 anos, o catarinense Guga Arruda e o pernambucano Eraldo Gueiros faziam história ao realizar a primeira incursão de surf na floresta Amazônica, marcando assim o início de uma nova era para o surf de rio e para o surf mundial.
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Tive o prazer de conhecer Rudá, mais um carioca que aderiu o estado do Amapá como sua casa, uma das peças chaves para que os desbravadores da onda mais longa do mundo pudessem iniciar o processo de desmistificação da lendária pororoca.
Ouvia atentamente cada palavra, cada frase de um capítulo a parte do meu próximo livro. Já ouvia também muitos contos do próprio Guga Arruda, que me contou como tudo começou.
“O Zeca (atual piloto oficial da equipe Surfando na Selva) nem sabia pilotar uma voadeira (lancha de alumínio)! Tivemos que ensinar e capacitar ele em uma tarde livre de pororoca”, lembra Guga.
E foi com Zeca, hoje meu anjo da guarda, que tudo começou. O reencontro de Zeca e Guga 13 anos depois foi emocionante! Não avisei nada a nenhum dos dois. A fisionomia de Guga ao chegar no ancoradouro foi emocionante.
Com os olhos arregalados, uma história estava sendo resgatada em um filme em alta velocidade. E quando os dois se encontraram, tive uma cena digna de programas de TV! Zeca não reconheceu Guga: “Não lembras de mim Zeca?”, disse Guga. “Rapaizzzz…”, exclamou Zeca.
Aí falei: “Tu tens uma prancha dele”. Na hora Zeca falou: “Guga? Quanto tempo!”, e se abraçaram.
Depois de tanto tempo as técnicas de pilotagem do ribeirinho mais destemido da foz do Amazonas já eram conhecidas mundo afora e a prancha que Guga deixou em 97 estava bastante acabada, porém muito bem guardada e com boas lembranças.
Então os dois começaram a reviver e relembrar momentos marcantes do início do surf na selva. “Lembro que fiz um pacto com Eraldo. Não sabíamos bem o que estava por vir, então combinamos que em caso de um perder a onda ou cair, o que permanecesse na onda deveria sair também para ficarmos juntos”, lembra Guga.
“Teve uma onda que o Eraldo caiu e era muito boa. Surfei mais um pouco e saí para não deixá-lo sozinho! Tínhamos medo dos animais selvagens. Além do que, o Zeca ainda não tinha o controle total de resgate como tem hoje”, continua.
Neste momento fiquei de espectador ao lado de Márcio Pinheiro, meu parceiro desde a minha primeira vez na pororoca, em 2000.
Lembro que éramos a segunda equipe a desbravar o rio Araguari no Amapá. Depois que Guga e Eraldo passaram por lá, ninguém mais havia voltado. Passamos dias na região, procuramos o tal do Zeca, mas não tivemos a mesma sorte da dupla pioneira.
Fato que foi fundamental para os nossos dois naufrágios cinematográficos! Isso conto em outra oportunidade. Histórias a parte, estávamos prontos para encarar a última pororoca do primeiro semestre de 2010 sob o olhar e as lentes de dois gigantes captadores de imagens do Brasil, Sebastian Rojas (foto) e Carlos Sanfelice (vídeo). Dois caras que merecem um capítulo a parte na história!
Sebá, como também é chamado, já teve uma experiência na pororoca da Ilha do Marajó e ficou decepcionado. Depois de ver algumas matérias com altas fotos publicadas, mandou um e-mail para mim e se escalou para uma expedição.
O tempo passou e nossos destinos se cruzaram! Um dos maiores fotógrafos aquáticos do Brasil estaria em Belém (PA) na data que antecedia nossa expedição. Enfim, já estava dentro e nem sabia.
O sonho de registrar o Hawaii das pororocas estava para se concretizar. Já o Carlinhos já posso dizer que é um especialista na Pororoca. Filmamos o Surf Adventures 2, fizemos a captação de áudio posteriormente, e depois disso retornou outras vezes para trabalhos com produções nacionais e internacionais. Foi pego pela pororoca mania!
Ou seja, eu e Guga estávamos muito bem de imagens e com a melhor equipe de pilotos, práticos, marinheiros e cozinheiros das pororocas mundiais. Só faltava ação! E isso foi o que mais teve.
No primeiro encontro com a pororoca, Guga e Sebá estavam ansiosos, todos pareciam ter voltado a sua juventude e num pique de euforia não paravam quietos. Até que a onda apontou no horizonte! A adrenalina veio a mil e fui o primeiro a me jogar no rio. Guga com seu olhar técnico avaliou cada movimento da maré e na sua chance entrou em ação também. Foram longos minutos, horas de pura diversão e trabalho.
“Cara, acredita que só agora posso dizer que surfei a pororoca?”, disse o catarinense. “Em 97 agente só levou porrada e foram poucos os momentos de ficar tranqüilo e curtir a onda. Agora não. Sabia que se errasse alguma coisa poderia ser resgatado e voltar pra ação”, relata Guga.
“E era justamente o que pensava. A onda não acaba. Quero testar todas as minhas pranchas”, termina.
O estudioso do surf, levou o seu quiver de pranchas PowerLights. Um modelo novo de prancha sem longarina e com variações de madeira, kevlar e também fibra de carbono. Pranchas super resistentes, flexíveis e testadas e todas as condições de mar.
As condições foram tão boas que Guga só usou duas das três pranchas do quiver. Os foguetes corresponderam perfeitamente as ondas da selva, e Guga ficou viciado em usar apenas dois equipamentos que fluíram maravilhosamente bem.
E quem conhece o Guga, sabe que ele varia bastante o quiver numa mesma queda, até mesmo na mudança das quilhas.
E na pororoca foi diferente… Toda saída para a onda ele dizia: “Amanhã eu levo a Faca na Manteiga”. Passava o outro dia e a história se repetia. Momentos clássicos em que também fiquei viciado em querer surfar a sessão das “Mentawai”, uma direita com cerca de 25 minutos, de Alaia, modelo especial que o Bernardo Sodré fez para as ondas da selva.
No mundo mágico da pororoca tivemos muitos momentos marcantes e iremos lembrar para sempre. Nos vemos em breve em mais uma temporada na Amazônia, partindo rumo a septuagésima pororoca. Longas ondas e Auera Auara.
Agradecimentos especiais: Sumatra Surf Goofy, Ogio, Pranchas TBC, UMBE Alaia, Outdo, Violações, Jamaica Surfshop, PowerLight Surfboards, Sebastian Rojas, Carlos Sanfelice, Márcio Pinheiro, Zeca, Alfeu e toda equipe Surfando na Selva.
(continua…)