
O australiano Joel Parkinson trouxe emoção para a disputa do título do WCT deste ano ao vencer o hexacampeão mundial Kelly Slater em Trestles, Califórnia. Em boas ondas de até 2 metros, ele dominou a final escolhendo muito bem e manobrando sempre nas partes críticas, com classe e calma dignas de um campeão – ainda mais se lembrarmos que foi na casa do adversário, com torcida contra e em cima do maior surfista de todos os tempos.
Trestles é considerada a melhor onda da Califórnia e desde que esta etapa voltou ao circuito em 2001, foram três vitórias dos cangurus, o que deve estar deixando frustrada a torcida ianque diante da grande rivalidade que há entre americanos e australianos.
Aproveitando a desclassificação precoce do bicampeão mundial e líder do circuito, Andy Irons, Joel leva vantagem nos descartes, pois faltou a duas provas, e com esta segunda vitória no ano pode, com um outro bom resultado na Europa, ficar próximo dos líderes para dar o bote no Brasil ou no Hawaii.
O mesmo vale para Kelly Slater, que precisava de uma vitória para reagir no ranking e que, com o segundo lugar também deu uma encostada nos primeiros lugares. Mas ele ainda precisa de pelo menos dois primeiros e dois pódios nos eventos restantes se quiser ser campeão.
Os brasileiros mais uma vez não foram bem e até agora este vem sendo o pior ano no WCT de nossa seleção, não conseguimos nenhum resultado expressivo. A performance de nossos atletas tem sido abaixo da expectativa, sem nenhum pódio até agora.
Só conseguimos um quinto lugar na primeira etapa e depois disso temos perdido facilmente para os gringos. Não é só a distancia técnica, estamos cometendo erros básicos de leitura de onda e de uso de pranchas, principalmente provocados pela falta de concentração e de preparação para cada etapa.
Nossos surfistas chegam às provas em cima da hora, sem tempo para treinamento e adaptação às condições do mar e conseqüente escolha de pranchas.
Alguma coisa acontece após a formação dos nossos surfistas. Eles estão se distanciando dos australianos, americanos e havaianos. E isso só pode ser por falta de treino em ondas boas.
Todo surfista da elite deveria morar no Hawaii, onde estão as melhores ondas do mundo e que fica bem no meio das ações do circuito mundial. Entre novembro e março o atleta ficaria em casa, competindo e treinando.
Depois, ficaria bem próximo para as etapas da Austrália, Taiti, Fiji, Japão e Califórnia. Ele só viajaria para longe quando fosse para Europa, Brasil e África do Sul. Só morando em lugares de ondas realmente boas nossos surfistas vão conseguir descontar a diferença de uma vida inteira.
Mesmo pagando em dólar, acredito que seja mais barato viver lá fora do que ficar indo e voltando toda hora. Até para ter espaço na mídia mundial e conseqüente patrocínio internacional, é preciso aparecer, estar onde os fotógrafos estão, falar inglês fluentemente para ser chamado para entrevistas, filmes entre outras opções de marketing.
O problema é que eles querem morar no Brasil, passar o Natal em casa, fazer um qualquer no Super Surf, e assim o máximo que conseguem é se concentrar para se re-classificar pelo WQS. Assim não há foco que resista, são muitas ações que atrapalham a concentração para alcançar os objetivos.
Não quero ser o dono da verdade, mas se existe alguma barreira entre os brasileiros e os gringos no circuito mundial. Ela parece ser mais clara no planejamento da carreira, na postura e no comportamento do que na técnica.
O problema é que a falta de treinos nas ondas que realmente decidem o circuito mundial faz com que a diferença técnica aumente. Em um beach break brasileiro ou europeu ela diminui, ou inexiste.
Mas nas ondas de verdade existe um abismo difícil de ser superado, pois experiência e horas de treino em ondas boas são acumulativas e a distância parece estar aumentando.