Bip-bip, bip-bip, bip-bip! Eis que meu rádio apita na madrugada de terça para a última quarta-feira:
– E aí Xinxa, beleza? Qual foi, aconteceu alguma coisa?
– Não, não, tudo tranquilo. Você não está vendo o campeonato de Bells?
– Não, amanhã vejo no Heat Analyzer, por quê?
– É que os caras falaram de você na transmissão e te chamei para perguntar um lance.
– Pode crer, diga lá.
– Pô, queria saber por que você tem dado tanto intervalo entre um texto e outro do Torcedor Fanático? Sempre repercute pra caramba e queria entender o motivo, só isso.
– É o seguinte, o Torcedor Fanático foi criado para polemizar, mas também pra puxar a orelha da rapaziada e para exaltar os feitos positivos das conquistas. Como andou tudo meio morno nos últimos tempos, resolvi deixar o pessoal do “alisabel” fazer as honrarias do arroz com feijão. Não faz o menor sentido o broncão aqui disputar espaço com os acadêmicos no assunto.
– Saquei, então quer dizer que se o pessoal começar a tropeçar ou se voltarem a ganhar você ressuscita o Fanático?
– É mais ou menos por aí. Brother, preciso dormir, amanhã acordo zero hora.
– Foi mal, valeu e boa noite!
– Boa noite!
Muitos de vocês dirão que eu nem deveria ter acordado, porém aqui estou novamente, firme e forte. Bom dia meus queridos conterrâneos atletas do World Tour! Como anda este comodismo, tudo em cima?
Pois bem, vamos acordar, pois o ano já começou e não me interessa se sua bateria é a segunda na fria manhã em Bells Beach, não me interessa se ano passado você entrou no circuito e já levantou duas taças de campeão, não me interessa se você acabou de voltar de Noronha com um belo cheque e ótimos tubos na memória.
Tem outros que nem lembro bem qual o último feito de louvor, mas só de estarem ali já são passiveis de cobranças da torcida.
Faz 51 anos e ninguém teve a brilhante ideia de definitivamente sacar que Bells é uma onda tão singular, como algo que não tem plural? Ali não pode esperar a onda proporcionar, tem que sair sapecando com estilo o que vier pela frente.
Se ela engorda demais vacilam tentando voar, se corre demais na bancada perdem a seção, se entram muitas séries ficam perdidos sem saber onde se posicionar, se rola muita calmaria começam a remar nas marolas e perdem a prioridade em momentos importantes.
Esquecemos de avisar nosso time que não foram só eles que evoluíram. Não somos somente nós que estudamos, que temos psicólogos, treinadores, entre outros. Do outro lado tem alguém igual ou melhor preparado.
Muitas vezes o surf parece uma batalha individual de nós contra nós mesmos. Engano. O brasileiro está mimado ao ponto de acreditar nisso e que já podemos ser praticamente imbatíveis. Sonhar não custa nada, mas pisar na realidade sim.
Claro que me interessam os resultados recentes, ou mesmo o histórico dos anos anteriores, não serei mala a ponto de descartar tudo em nome do agora. Porém, não quero aceitar desculpas de que a série não veio, de que a prancha boa quebrou, de que a falta de patrocínio abalou o psicológico, entre outros.
A bateria tem 30 minutos para todos, são somente dois atletas em um pico alucinante com altas ondas. Perder para um oponente de responsa é uma coisa, mas dar mole já é outra. Acho que ultimamente temos dado mais mole do que perdido para os adversários.
Eu já queria ter comentado sobre a final de Mineiro contra Taj Burrow em Snapper, pois visivelmente o brasileiro era o melhor surfista do evento, com garra e surf de alto nível. Aposto que houve gente que apostou as cuecas no seu triunfo, porém, deu mole na final. Aquele tal de “sangue nos óio“, como muitos comentavam e falavam na transmissão, acabou coagulando em suas pernas e o algo mais que estava sobrando acabou sumindo do além, virou fumaça na velocidade e nos leques de Taj!
Já em Bells deu pane geral, uma onda power e que coloca todo mundo mais ou menos no mesmo patamar, talvez dificulte um pouco sim para quem é backside, porém, quem quer ser top-10 tem que surfar bem até de “retoside”.
Bells é onde os truqueiros gringos aprenderam a voar bem e nós não, onde os surfistas que surfam com mais linha mostraram que podem radicalizar mais e nós não, ou seja, estou preocupado se estamos mesmo fazendo a lição de casa e sermos realmente tops deste circuito mundial. São somente dez etapas (e poderão ser menos), o tempo passa rápido e pode ser tarde para acordar.
Os atletas e a maioria dos chefes de equipe (e nem o público) estão acostumados a encarar as críticas de frente. É mais uma certeza de que, enquanto a panelinha continuar mimada, ficaremos neste banho.
Valeu por me acordar, Xinxa! Poderia ser tarde para dar esta chamada na galera!