Os poderes do homem-formiga australiano

É comum ouvir que para surfar ondas grandes, um atleta precisa ser grande e forte, ter um porte físico de um Laird Hamilton, por exemplo.

 

O australiano Paul “Antman” Paterson, irmão mais velho de Jake Paterson e renomado surfista de ondas grandes, é a prova de que isso não é verdade. 

 

Antman (homem-formiga, em português), como é conhecido, com sua baixa estatura e corpo franzino, tem um currículo invejável.

 

Foi vencedor do Sunset World Cup em 1996 e do Nissan XXL Big Surf Challenge em 2002 (na categoria remada), três pódios nas últimas três edições do Eddie Aikau e primeiro lugar no campeonato mundial de ondas grandes em Todos os Santos, em 99, são alguns dos melhores resultados.

 

Em Western Australia, numa conversa descontraída em frente a uma das melhores esquerdas do planeta, Paul Paterson fala das temporadas no Hawaii, influências, brasileiros, futuro do surf competitivo e ondas grandes.

Como comecou a competir?

 

Eu ganhei alguns títulos regionais (Western Australia) no começo da minha carreira. Mas a vitória que mais me motivou foi o WQS de Nias, em 94, simplesmente porque as ondas estavam perfeitas. Não estava muito grande, 5 ou 6 pés, talvez algumas maiores, mas perfeitas. Na final contavam as cinco melhores ondas e o nível estava tamanho que para ganhar era necessario tirar cinco notas muito altas. Mais tarde, em 97, ganhei novamente em Nias, mas aquela primeira vitoria foi o que motivou a tentar viver do surf.

 

Você já correu algum evento do WCT?

 

Bom, eu nunca competi no WCT, só em alguns eventos do WQS. Já competi na Europa, Indonésia, Brasil e por toda a Austrália, obviamente. Mas para mim, o mais importante sempre foi o Hawaii. Eu corria os campeonatos e, quando todo mundo ia embora, eu ficava nas ilhas, sempre por uns três meses, no mínimo.

 

Então foi assim que começou a se dedicar às ondas grandes?

Onde eu moro sempre rolam ondas decentes. Não tão grandes quanto o Hawaii, mas swells grandes quebram aqui (região de Yallingup) constantemente. Entao é algo que eu me acostumei a fazer desde criança, surfar ondas grandes e fortes. Quando comecei a competir, a maioria dos campeonatos tinha ondas ruins, fracas e pequenas. Eu perdi o interesse, odiava surfar ondas pequenas. Foi aí que eu comecei a ficar jogado no Hawaii, três a quatro meses por ano. Depois de algumas temporadas, meu surf começou a evoluir em ondas grandes e eu tomei gosto pela coisa.

 

Quantas temporadas já passou no Hawaii?

 

Nove.

 

Você tem reputação de ser um dos melhores surfistas de Sunset. Qual sua relação com a onda?

 

Adoro Sunset, é uma onda que eu gosto de surfar. Acho que eu sempre gostei muito de lá pelo fato das ondas serem muito parecidas com as ondas onde eu cresci, mais abertas e oceânicas. Tambem porque dá para pegar mais ondas do que em outros lugares do North Shore. O line-up é grande e Sunset não possui um só pico definido. Por isso, sempre surfo lá. Se não há ondas em lugar algum, eu vou pra Sunset. Depois de vários meses surfando direto você acaba conhecendo a onda e reconhecendo onde deve sentar e remar. É muito difícil antecipar o que a onda vai fazer em Sunset, e eu me acostumei com isso e comecei a gostar muito da onda. Em Sunset você tem que se dedicar muito, saber onde esperar, como elas quebram em diferentes direções de swell.

 

E o inside de Sunset?

 

Ele pode te ferrar (risos)… Eu já quebrei tantas pranchas lá… Mas os tubos são irados, muito bons no inside. É um tubo bom porque você não sabe exatamente o que vai acontecer. Às vezes tem backwash. É uma sessão meio mutante mesmo.

 

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Muitos consideram Sunset a onda mais pesada do North Shore? E você?

 

O inside Bowl de Sunset é muito pesado. Mas Pipe é mais. Mais pesada e mais intimidadora. Mas eu acho que não se pode comparar as duas. São ondas muito diferentes. As duas muito pesadas, mas, na minha opinião, Pipe é a mais pesada.

 

Quem mais te influenciou na carreira?

 

Caras como Ross-Clarke Jones, Tony Ray e Tom Carroll. Occy também sempre foi uma grande influência. Eu acho que esses caras mais velhos que ainda estão aí, mostrando para a molecada como se faz, eles são minha maior influência.

 

Fale um pouco sobre a vitória de 99 em Todos os Santos (campeonato mundial de ondas grandes, um ano após a vitória de Burle na mesma onda, Killer’s).

 

Foi muito bom, fiquei muito feliz. Mas, na verdade foi um pouco decepcionante, pelo anti-climax, já que no ano anterior o campeonato rolou com 20 pés (risos). Nós pegamos uns 10 a 12 pés, por isso não foi tão legal. Foi um dia muito difícil, maral, mexido. Então, na verdade estávamos todos competindo com as condições do dia, e não contra outros competidores. Eu me dei bem porque, para mim, parecia um dia mexido em Sunset. Surfei com uma prancha menor que a de todo mundo, uma 7’6, e isso me ajudou. Poto (Vetea David), que ficou em segundo, estava com uma 9 pés e pegou as maiores. Mas acho que uma prancha menor foi melhor aquele dia. Fiquei feliz com a vitória, mas como eu disse, não foi nada como no ano anterior, quando o Carlos (Burle) surfou muito e ganhou, merecidamente.

 

Você ganhou o prêmio XXL Nissan pela maior onda pega na remada na temporada de 2002,  que voce pegou durante o Eddie Aikau. Como foi  aquele dia?

 

Ah, aquele dia estava perfeito. Waimea não fica melhor que aquilo. Tivemos muita sorte, pois estava quase sem vento e clean, com um bom swell. Aquela onda foi minha segunda bateria do dia. Como eu só tinha pego uma onda, decidi acabar o campeonato pegando uma grande. Sentei bem atrás e esperei uma grande enquanto todo mundo na minha bateria pegava uma atrás da outra. Nos ultimos cinco minutos, ela finalmente subiu, botei a cabeça pra baixo e remei forte. O prêmio da Nissan foi um bônus muito bem-vindo, mas a onda em si foi o verdadeiro prêmio.

 

Você considera o surf em ondas grandes uma nova face do esporte?

O surf em ondas grandes existe há tempos. Esses caras sabem o que estão fazendo, e fazem com segurança crescente. Acho que se houver segurança, o surf de ondas grandes só tende a crescer. É um esporte ótimo para o público. As pessoas que nunca viram surf piram quando vêem surf de ondas grandes.

 

Qual o seu surfista brasileiro preferido?

 

Eu sempre gostei do (Fabio) Gouveia. Ele surfa fluido e com muito estilo, além de ser um cara muito legal. Recentemente, Carlos (Burle) e Eraldo (Gueiros) têm me impressionado muito. A maneira como eles são dedicados às ondas grandes, viajam o mundo atrás dos maiores swells e das maiores ondas, é realmente uma inspiração. É algo muito difícil de fazer, se organizar, treinar, achar patrocínio.

Principalmente para alguém do Brasil, é muito difícil. Esses caras são uma inspiração pra mim.

 

Quais seus planos para o futuro?

 

Ir para o Hawaii toda temporada, passar alguns meses lá todo ano, e trabalhar com os times da Quiksilver, na Austrália e Nova Zelândia.

 

Como é o trabalho na Quiksilver?

 

Ajudo a organizar campeonatos amadores, e principalmente ajudo atletas mais jovens em campeonatos, treinamentos, basicamente para atender o que eles precisam para se tornar bons competidores.

 

Você acha que o atual domínio australiano no circuito mundial se deve à forte estrutura de base?

 

Com certeza. Nos últimos dez anos tivemos um circuito de base muito forte na Austrália, agora temos até um circuito Júnior. Acho que sem essa estrutura, não teríamos atletas como Taj Burrow, Joel Parkinson e Mick Fanning dominando no tour. Na minha opinião, teremos surfistas excelentes da Austrália e do Hawaii surgindo nos próximos anos, pois as competições amadoras nestes lugares estão muito fortes. É claro que nunca se pode descartar o Brasil, que está sempre produzindo talentos. Mas, acho que nos próximos dez anos teremos muitos garotos da Austrália e Hawaii dominando o tour.

 

Para finalizar, como surgiu o apelido Antman?

 

Bem, como você pode ver, não sou muito grande. Quando eu era moleque, era menor ainda (risos). Um dos caras mais velhos do nosso Boardrider Club comecou a me chamar de Antman, e o apelido pegou.

 

 

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