Os perigos do bronzeado

Os surfistas passam horas dentro da água e muitas vezes esquecem de reaplicar o protetor solar. Foto: Ricardo Macario.

É muito comum ouvir falar em cuidados com a exposição excessiva aos raios solares, principalmente com o aumento nos buracos na camada de ozônio, que ajudam a causar vários tipos de câncer de pele.

 

Porém, as campanhas preventivas não abordam uma categoria de atletas particularmente mais suscetível a esses riscos: os surfistas – e praticantes de esportes aquáticos em geral.
 
Isso ocorre pelo simples fato de que a imensa maioria dos surfistas fica mais de uma hora dentro da água em cada caída. Na prática, isso significa que a maior parte do tempo em que está surfando, a pessoa fica sem a ação do filtro solar, que já terá saído depois de um certo tempo na água.
 
Se você é daqueles que usa um filtro solar convencional antes da bateria, saiba que esses produtos não agüentam mais do que 45 minutos na sua pele, pois o sal do mar atua como um poderoso solvente e remove esse valioso protetor. Para poder contar com esse produto, o certo seria reaplicar o produto a cada 45 minutos, o que é praticamente impossível para quem pega onda.
 
O Dr. Ricardo Amorim, dermatologista e longboarder carioca, alerta: “Para piorar, considere que o período do dia no qual a radiação solar se torna mais violenta vai das 9 às 15 horas, quando a incidência dos raios é mais perpendicular em relação à nossa posição no planeta – cada vez menos protegido devido aos já famosos rombos na camada de ozônio. Ou seja, justamente no horário em que a maior parte da galera surfa”. 
 

As mulheres também costumam ser vítimas do abuso da radiação solar. Foto: Lima Jr..

“A solução nesse caso é utilizar sempre bases com filtro solar”, continua Amorim. Bases são aqueles cremes de alta aderência, geralmente de cor branca que, combinados a um filtro solar, ficam horas grudados no rosto e são bastante seguros contra a radiação.
 
“Para cada tipo de pele deve ser usado um foto-protetor e um hidratante específicos, prevenindo desde lesões degenerativas, como rugas, por exemplo, até o câncer de pele. Lesões agudas provocadas pela exposição prolongada ao sol causam queimaduras sérias, com sinais e sintomas como vermelhidão e bolhas. Reações como febre, náuseas, desmaios e choque também podem ocorrer quando há o abuso embaixo do sol. Nestes casos, torna-se necessária a monitoração hospitalar”, completa o dermatologista.
 
Outro erro básico cometido pelos surfistas é não usar hidratantes. Esse tipo de produto restabelece a hidratação perdida devido às longas horas de exposição ao sol e ao mar, e previnem o envelhecimento precoce da pele. Não custa lembrar que o mercado de trabalho hoje valoriza profissionais com uma boa aparência e que uma cara enrugada devido a anos de sol e mar não é exatamente o que poderíamos chamar de um bom cartão de visitas. 
 

Câncer de pele malígno, do tipo assimétrico, em locais de grande exposição, como o nariz. Foto: La Roche/Posay.

Para a Dra. Loan Towersey, também especialista em dermatologia, as pessoas cometem um erro grave, e muito comum, ao achar que quanto mais bronzeadas, estarão mais protegidas da radiação. Ledo engano. “A cor que vale para sua proteção é aquela que fica na marca da sunga ou do biquíni. Já aquele tom mais moreno, típico do bronzeado, não garante nenhuma proteção a mais”, explica Towersey.

 

Ela lembra também sobre a importância dos chamados bloqueadores físicos, como camisas de lycra, bonés e roupas de neoprene. Segundo a médica, esses recursos realmente ajudam a proteger, porém não se deve descuidar das áreas que ficam de fora, como braços, batata da perna e, obviamente, o rosto. Nesses locais deve-se usar filtros de altíssima fixação. Atenção: estamos falando de fixação, e não apenas de fator de proteção, que deve ser o maior possível para cada tipo de pele.
 
Outro conceito importante que o surfista tem que entender é que a radiação tem efeito de longo prazo. “A radiação que você pega na juventude vai trazer problemas cerca de 10 anos depois. É como uma bomba relógio, aguardando o momento de detonar. Prevê-se um significativo crescimento  do câncer de pele para os próximos 10 a 20 anos se as pessoas continuarem a não tomar os devidos cuidados”, alerta a dermatologista. 
 

Câncer de pele malígno de borda, de cor acentuada. Foto: La Roche/Posay.

E é aí que está o problema: com o envelhecimento da população de surfistas, prevê-se que uma parcela significativa dessa categoria de esportistas seja portadora em potencial de doenças de pele, provenientes da radiação excessiva que pegou na juventude e que, na maioria dos casos, continuará pegando durante a idade adulta. Afinal, a galera continua afiada e com o surfe no pé, não importa a idade.
 
O Dr. Marcus Maia, coordenador do Programa Nacional de Prevenção ao Câncer de Pele, lembra que existem características que aumentam o risco de uma pessoa de contrair câncer de pele: pele clara, olhos claros, cabelos claros, múltiplas pintas, antecedentes familiares de câncer da pele, sardas e queimaduras solares anteriores.
 
A recente morte de um longboarder australiano devido a um câncer de pele mostra que os riscos são reais para a tribo do surf, principalmente porque nada indica que o cenário de diminuição da cada de ozônio vá se alterar nos próximos 20 anos.
 
Para saber mais informações sobre o assunto visite o site da Sociedade Brasileira de Dermatologia (www.sbd.org.br).
 
Colaboraram nessa matéria:
 
– Dr. Marcus Maia – coordenador do Programa Nacional de Prevenção ao Câncer de Pele.
– Dr. Ricardo Amorim – dermatologista e longboarder ([email protected]).
– Dra. Loan Towersey – dermatologista ([email protected]).

 

 

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