Ontem, hoje e amanhã

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Pepê Lopes foi finalista do Pipe Masters em 1977, feito inacreditável para um brasileiro. Foto: Steve Wilkings.com.

A oferta de vídeos e notícias sobre surf é imensa na internet. É uma maravilha poder acompanhar as etapas da WSL ao vivo ou admirar as ondas da piscina do Kelly Slater.

Também pela internet é possível saber que no final de janeiro Gabriel Medina curtia o show de Thiaguinho em Jurerê Internacional enquanto o atual campeão mundial John John Florence pegava mais um tubo em Pipeline.

Será que esse excesso de informação instantânea diminuiu o nível de reflexão sobre a cultura e o futuro do surf?

Nesse caso o problema não seria só dos surfistas. Esse imediatismo tomou conta de todas as áreas do conhecimento afetadas pela velocidade da internet.

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Cauli Rodrigues lutou por uma vida de surfista profissional quando essa vida ainda não existia propriamente. Foto: Tunico DeBiase.

Comecei a trabalhar como jornalista especializado em 1987. Naquela época a viagem era olhar para o surf como um movimento capaz de transformar e ser transformado pela sociedade.

Rosaldo Cavalcanti, hoje produtor e diretor de filmes, o diretor de arte e artista plástico Wanderley Carbone e eu fundamos o jornal Now, publicação mensal sobre a cultura do surf. Queríamos falar de comportamento, economia, política, artes, eventos, desde que o assunto envolvesse a estética e a ética do surf. A gente era muito fissurado. Tínhamos pranchas e tempo para surfar. E um monte de amigos que nem a gente.

Rossini Maraca Maranhão era colunista do Now. Quando morreu, no fim do ano passado, foi-se com ele uma parte da história do surf brasileiro. Maraca foi dos primeiros surfistas a imprimir nas ondas daqui o estilo havaiano que dominou os anos 60 e o início dos anos 70. Um craque absoluto que, anos mais tarde, gostava de passar lá em casa depois do jantar para irmos juntos surfar de noite no Arpoador.

Em meados dos anos 70, a linha de surf que Maraca trouxe do Hawaii foi quebrada pelos australianos. Aqui no Brasil a novidade atendia pelo nome de Cauli Rodrigues. Vivia pra cima e pra baixo do litoral carioca num fusquinha que todos os surfistas da época reconheciam de longe. Cauli tinha patrocínio, quiver, verticalidade e técnicas de competição, coisas que praticamente ninguém mais tinha. Durante um bom tempo foi imbatível.

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Quando Rossini “Maraca” morreu, no fim do ano passado, foi-se com ele uma parte da história do surf brasileiro. Foto: Luciano Santos Paula.

 
O melhor amigo dele era o ídolo de todo mundo. Pepê Lopes. Hoje é nome de praia. Na época havia sido finalista do Pipe Masters de 1977, feito inacreditável para um brasileiro. Pepê e Cauli juntos eram a melhor tradução do surf brasileiro naquele momento. Hawaii e Austrália cultivados por aqui mesmo.

Pepê deixou o surf de lado por causa do voo-livre. Ganhou o campeonato mundial da modalidade em 1981, outro feito inacreditável para um brasileiro na época. Morreu em 1991 num acidente enquanto tentava o bicampeonato mundial de voo.

Cauli jamais abandonou o surf. Pelo contrário. Lutou por uma vida de surfista profissional quando essa vida ainda não existia propriamente. Era sério e determinado. A molecada irreverente do Arpoador o chamava de “Véia”, dado seu jeito assertivo de reclamar do que via de errado no mundo do surf. Foi o melhor surfista competidor do Brasil. Ganhou tudo. Foi respeitado, temido e admirado.

Numa descendência imaginária, viagem da minha cabeça, Adriano de Souza seria o principal herdeiro do surf de Cauli, veloz, vertical e focado. O que equivale a dizer que se Cauli tivesse 25 anos hoje, talvez possuísse um merecido título mundial.

Cauli ainda mora em Copacabana. Hoje mesmo vi no Facebook uma foto dele dando uma pancada reta, provavelmente no seu amado Arpoador ou na vizinha praia do Diabo. Dias atrás fez aniversário. 60 anos.

Maraca, Pepê e Cauli são história do surf. Na nossa cultura underground, os três têm status de heróis e deveriam ser sempre lembrados, mesmo que o futuro do surf esteja numa piscina de ondas com show de pagode do Thiaguinho.

Felipe Zobaran
Formado em jornalismo e com uma passagem de 18 anos pela Editora Abril e também pela Azul - onde dirigiu as revistas Fluir, Showbizz e Interview.