
A onda mais longa do planeta (1) quebra margeando as dunas, rochas e colinas secas da paisagem mística do lugar.
A natureza parece ter sido orientada por um experiente surfista sobre como se acomodar para produzir tão impressionante onda. Seriam os deuses surfistas (2)?
A imagem de Chicama quebrando clássica nem sequer entra nos sonhos dos humanos, é uma onda que os supera.
Dizem, os poucos afortunados que viram todas as seções formar uma senhora onda, que esta se estende por quase dois quilômetros e que podes passar mais de cinco minutos numa onda.
Para poder agüentar um percurso de dois quilômetros é preciso ter pernas de ferro. Por outro lado, cinco minutos numa onda é provavelmente mais tempo do que as pessoas passam em todas as ondas de uma sessão de surf. Nesses metros e metros de onda, se misturam tubos com perfeitas seções tubulares.
História – Na década de 50, o Porto Malabrigo, em Chicama, servia para despachar a produção de açúcar dessa região do Peru.

Em outras zonas do continente, engenheiros agrônomos norte-americanos vinham assessorar os produtores locais. Alguns deles depois de verem as perfeitas ondas quebrando, mandaram que lhes enviassem suas pranchas urgentemente.
Foram eles os primeiros seres humanos a deslizar-se com pranchas de surf nas famosas esquerdas peruanas. Ao terminarem sua missão, foram embora do Peru sem espalhar muito a notícia. Soube-se da sua existência porque na capitania de portos foram encontradas pranchas de surf.
Alguns anos depois, quando o laureado escritor americano Ernest Hemingway esteve no Peru em 1956, escreveu um artigo sobre a costa peruana na revista americana Look, onde dizia: “…elefantes brancos que rompiam à distância em perfeita forma”.
Ninguém soube captar isto como uma pista para dar com o pico de ondas mais largas do mundo e elas continuaram quase virgens durantes vários anos.
Em 1960 o pessoal do Peace Corps (Corpo de Paz norte-americano), formado por jovens que não queriam ser baleados no Vietnã e deveriam fazer o serviço militar-obrigatório e veio dar apoio aos povos pobres do Peru.

Felizes da vida ao encontrar essa maravilha, usaram as pranchas deixadas pelos engenheiros agrônomos para correr nas intermináveis esquerdas.
Quando eles foram para Lima, a informação chegou aos ouvidos de Carlos Pareja e seus amigos da praia Makaha. Em 1963, se mandaram para o Norte sem saber muito bem aonde iam.
Perguntando, deram com as extensas esquerdas e fizeram a cabeça. Como viram as famosas pranchas (aquelas deixadas pelos agrônomos), acreditaram que essa onda já era conhecida e nem falaram muito ao respeito.
Mais alguns anos se passaram sem que Chicama fosse conhecida. Até que em 67, quando se fez uma nova edição do Campeonato Internacional de Tabla Havaiana, o havaiano Chuck Shipman hospedou-se na casa do famoso Gordo Barreda.
Após o campeonato, quando voltava para o Hawaii, ao virar-se e olhar pela janela do avião avistou intermináveis ondas que fizeram que ele se levantasse da cadeira aos berros.
Pediu ao piloto as coordenadas de onde se encontravam exatamente naquele momento, chegou ao Hawaii e passou as informações a seus amigos peruanos. Saíram mais uma vez mais na busca pela mística onda. Assim foi que os irmãos Barreda se juntaram aos Hanza, a Carlos Aramburu, Bertrand Taze e o Chino Malpartida e se mandaram para o Norte.
Meio perdidos fizeram seu caminho até a onda em dois carros caindo aos pedaços. A recompensa não poderia ter sido melhor: ondas de minutos e quilômetros de comprimento.
Parte do grupo tentou guardar o segredo, mas os boatos de uma onda interminável ao Norte fizeram que outros se aventurassem a procurá-la.
Pepe Whilar foi em 68 com um grupo de amigos e tirou várias fotografias que foram publicadas na revista Surfer. Assim, Chicama se apresentou ao mundo e nunca mais tornou a ser uma desconhecida.
Durante os anos 80, a expedição de açúcar deixou de ser feita em Chicama e por isso o povoado se converteu em certa forma em uma cidade fantasma. Com pouquíssimos habitantes, agora com algum hotel a mais, o povoado está perdido no meio do deserto, mas recebe sempre a constante visita dos surfistas que querem correr as ondas mais longas da terra.
Referência bibliográfica
1 – Segundo os mexicanos, a onda mais longa do mundo é Mazatlán, no México central. Mas os peruanos garantem que isso não é bem assim; para eles Chicama é a onda mais longa do mundo.
2 – Kojin, Adrian. Alma Pan-americana. Scarpitta Gráfica e Editora, São Paulo, 1994.
Agradecimento muito especial a Pepe Whilar e Karin Sierralta.