
Andei viajando um pouco por aí e só agora sentei para escrever. Exatamente agora estou em Puerto Escondido e acabei de pegar 6 pés clássicos no Beach Break. Na verdade, estou passando uma semaninha de férias depois uma longa maratona de produções. Está sendo a melhor maneira de arrumar as idéias.
Acabamos a série de quatro documentários que estamos produzindo com o Canal Azul para o National Geographic Channel, sobre a última trip do Amyr Klink pela Antártida. Cheguei congelado da Geórgia do Sul e fui derreter na Amazônia para gravar o boto cor-de-rosa para o ?Domingão do Faustão?.
E agora, terminei junto com o Lawrence Wahba as cenas subaquáticas do longa-metragem ?Eliana e o Segredo dos Golfinhos?. Acreditem se quiserem. O bacana dessas ecléticas produções é que, por mais pesado que seja o trampo, meu ambiente de trabalho é aquático e sempre são novos desafios.

Em Ushuaia, embarquei no Parati II e navegamos por um dia inteiro no Canal de Beagle, até chegar em mar aberto. Fui escalado pelo Amyr para participar do revezamento dos turnos de navegação, topei, mas fiquei preocupado em passar mal lá fora.
A travessia foi de seis dias e o mar foi subindo aos poucos. Graças a Deus não fiquei mareado e chegando próximo a Geógia do Sul já estava torcendo para que a ondulação de quatro metros crescesse ainda mais para avistar alguma onda gigante quebrando.
Na última madrugada de navegação, uma parede de uns 20 metros apareceu, de repente, a boreste. Amyr e Haroldo Palo Jr. (o maior cinegrafista de natureza do Brasil) se assustaram ao ver pela cabine de comando um colossal iceberg e não demoraram a acordar toda a tripulação para preparar um esquema de vigilância e para uma possível emergência.

Para a minha surpresa, o maior perigo que podemos encontrar ao navegar dentro da linha de convergência da Antártica (linha que define a mudança drástica de clima e de temperatura da água); os icebergs, também são responsáveis por barrar a ondulação em muitas ilhas e ao redor do continente.
Por isso, parece ser difícil de achar ondas gigantes quebrando na Antártida, segundo Amyr, até nas ilhas sub-antártidas é difícil de rolar (o mais provável é achar breaks em latitudes menores como nas Falklands ou na Tasmânia), e mesmo que quebre deve ser praticamente impossível surfar por causa do frio. Dentro da linha de convergência a temperatura da água varia entre três graus e alguns graus negativos.
Mergulhamos de roupa seca para gravar focas e elefantes-marinhos (como a do James Bond nos filmes, em que ele sai do mergulho de smoking) e mesmo assim passamos muito frio. As extremidades parecem que vão congelar e congelariam certamente em alguns minutos além dos 40 programados por mergulho.
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É dureza de viver no frio, mesmo com os mais diversos recursos que temos nos dias de hoje. Imaginem só, há 100 anos, no apogeu da ocupação da Geórgia do Sul, quando as estações baleerias funcionavam à todo vapor. Antigos relatos de expedições, como a de Ernest Shackleton, um dos grandes exploradores da Antártida, em seu livro ?Endurance?, dão uma idéia do que era desafiar ondas gigantes no frio rigoroso.
Shackleton liderou um dos mais espetaculares resgates náuticos da história, na ocasião do naufrágio do navio Endurance. Ele e mais dois companheiros navegaram quase mil e quinhentos quilômetros numa baleeira a remo em pleno inverno, da Ilha Elefante até a Geórgia, e depois ainda cruzaram montanhas e geleiras, sem nenhum equipamento de alpinismo. Em uma estação conseguiram um navio para começar a longa jornada de volta para resgatar sua tripulação. Todos se salvaram.
Agora, na volta ao Brasil, o bicho pegou. Navegamos em meio de ondas de seis metros, vindas de todas as direções. Não é nada agradável, apear do Paratii II se comportar muito bem nas ondas. Na verdade, tripulei o barco na parte mais tranqüila da viagem.

Meu sócio, Toco Lenzi, documentou toda a circunavegação da Antártica. Foram três meses sem avistar terra, muito frio e muito mar grosso. Ele sim surfou em ondas de 10 metros, com espuma no top e tudo mais. Agora, 100 pés, como dizem por aí, ele não viu não.
De volta ao Brasa, fui gravar o boto cor-de-rosa no Rio Negro. Tarefa difícil. A visibilidade da água era menos que um metro e tive que ser aceito pelas simpáticas criaturas, aos poucos, para poder me aproximar. Contei com a ajuda de suas amiguinhas Marisa e Monique, que todos os dias brincam com os botos depois das aulas. É mais um exemplo de sincronia perfeita da natureza. Depois elas mostraram isso para todo o Brasil, diretamente do palco do Faustão.
Na seqüência fui escalado pelo Lawrence de última hora para participar da filmagem do longa ?Eliana e o Segredo dos Golfinhos?. Por mais ?água com açúcar? que poderia parecer, não perderia a oportunidade de trabalhar com um a câmera High Definition embaixo d?água e estar mais uma vez na Riviera Maia, no México, para dar continuidade ao meu treinamento de mergulho em cavernas. A região guarda mais de 150 km de galerias subterrâneas inundadas.

O mergulho em cavernas é o esporte que proporcionalmente mais mata no mundo. É um ótimo exercício e controle do medo, é como começar a surfar ondas grandes. Aliás, é como pegar tubos muito profundos, dá vontade de amarelar antes de acostumar.
Foi um trabalho que contou uma logística muito complexa. Um simples mergulho em caverna já exige planejamento especial e uma quantidade absurda de equipamento, pois tudo tem que ser redundante para a máxima segurança. Dentro das cavernas, Lawrence fazia câmera (que pesava 40 Kg), eu a iluminação, dois instrutores de mergulho em caverna, Daniel e Murilo, tinham a difícil função de cuidar dos 50 metros de cabo da luz pelos corredores das cavernas e o Sica, diretor e efeitos especiais, dirigia as cenas, também embaixo d?água.
Não acreditamos no resultado; quem tiver coragem de assistir no cinema verá cenas de perseguições dos vilões da trama, numa água claríssima, em meio de estalactites e estalagmites. É uma viagem ao centro da terra.
Viagens que proporcionam desafios e novos limites são sem dúvida muito enriquecedoras, em todos os sentidos. Novas experiências vão somando e uma atividade completa a outra. Mas entre nós, nada melhor do que ficar largado na praia, surfando altas ondas com sol e água quente, e carregar só pranchas e lembranças do melhores moments na bagagem!
Confira a galeria de fotos da expedição.
PS: Tem uma galerinha do body-board do Rio que está arrepiando aqui em Puerto. Vejam a matéria na coluna respectiva.
Agradecimentos
Tripulação do Paratii 2
Circunavegação
Jr.
Flávio Pereira
Toco Lanzi
Geórgia do Sul
Fábio Tozzy
Fabian Silbert
Haroldo Palo Jr
Flávio Pereira
Equipe de Produção do ?Domingão do Faustão?
Produção ?Eliana e o Segredo dos Golfinhos?:
Canal Azul
Teleimage
Scuba Point
Scafo
Elisa ?Chefinha? Chalfon
Equipe de Produção