Os moradores da praia de Armação, em Florianópolis (SC), assistem atônitos à destruição das casas existentes na sua orla Sul.
O mar mostra seu poder, e agora, a cada crescida, mesmo que pequena, as ondas golpeiam as dunas, a vegetação e as moradias ali construídas, muitas das quais com mais de 50 anos de existência.
Para os técnicos, muitas teorias e anos de estudos para decifrar o enigma. Para os atingidos, milhares de reais jogados literalmente ao mar. Para os políticos, um grande e durador palanque eleitoral. Para alguns simples surfistas, uma clara resposta: arrogância do homem em não se submeter aos pequenos caprichos do oceano.
Quem convive com o mar conhece o seu poder, e não duvida da sua força e influência sobre os demais elementos da natureza, sobre o clima e sobre os seres vivos.
Quem precisa transpor e aproveitar as grandes deformações e movimentos que ocorrem na sua superfície, interage também com suas forças secundárias, como as correntes, as variações de temperatura, a densidade e a composição das águas do mar, que podem transportar toneladas de areia, pedras, algas e tudo o que quiser.
Quem passou um grande sufoco, quase se afogou ou quase se quebrou todo, sabe que com o mar não se brinca, e que o mar não pode ser desrespeitado, e muito menos subjugado.
Enquanto nos fornece o prazer do surf, enquanto mantém o laboratório biológico terrestre assegurando a profusão e a manutenção da vida guardada às sete chaves em suas zonas abissais, o oceano, em verdade único e soberano sobre nosso planeta, não cobra tributos, nem exige sacrifícios, pedindo-nos apenas respeito.
Respeito com seus domínios milenares. Respeito com tudo aquilo que é seu. Sua areia, suas praias e suas ilhas, como aquela pequena, que existia no Sul da praia da Armação. A ilha da Campana, ou Compana, que deveria continuar pertencendo naturalmente ao mar e não artificialmente aos homens.
Quando o oceano decidia tê-la para si, decretava uma ressaca e a ilha era dele e de mais ninguém. Mas o ser humano, sempre inconformado com as leis da natureza, resolveu se apoderar permanentemente daquela pequena ilha, construindo um molhe de pedras unindo-a à terra.
Com sua arrogância e brutalidade, sem realizar qualquer estudo, o homem então bloqueou completamente a passagem da água, bem como da areia que anualmente transitavam entre a Armação e o Matadeiro, sob a influência do movimento do rio Sangradouro, situado exatamente ao lado Sul do referido bloqueio.
As pessoas roubaram a ilha do mar, e agora sofrem a sua ira. Em vez de um banco móvel que oscilava conforme a época e o trânsito de águas e seus agregados de um lado ao outro, mas com volume principal sempre mantido pela proteção da referida ilhota, passou a ocorrer sua circulação somente até o molhe construído e seu consequente movimento circular de retorno em direção ao fundo, criando – através da erosão marinha – gradativamente, um canal antes inexistente.
Ou seja, uma pequena obra de pedras alterou completamente o tamanho e a forma da praia da Armação, separando-a definitivamente do Matadeiro, sem medir as consequências futuras de tal ato, hoje tão graves ao ponto de não serem mais relacionadas com aquela “ pequena” obra.
Para um surfista, o bloqueio do movimento da areia e das águas e a formação de um canal e suas consequências são evidentes, sendo que a cada ano, o novo sentido de trânsito criado pela impensada ação humana carregava dezenas de metros cúbicos através do canal que continua aumentando em direção ao meio da praia, e que cada vez apresenta maior poder erosivo.
O mar quer aquilo que é seu, e se o homem toma a ilha, o mar toma a terra, os rios, a lagoa, e até o homem, a título de juros.
A casa fotografada no dia 23 de maio, já não existia no dia 24, sendo que hoje já desabaram outras duas. A escada de concreto existente no fim da rua em abril, hoje encontra-se ainda visível, mas dez metros dentro do mar e afundando rapidamente.
Em vez de restituir à praia o seu formato original retirando aquelas pequenas pedras obstrutivas, para então iniciar os estudos, o homem despeja toneladas de pedras em toda a orla, em uma empreitada infinitamente maior e flagrantemente mais impactante, quando sabidamente, é a areia que amortece a força das ondas, como se verifica na porção norte da mesma praia, em fotografia realizada no mesmo dia 23.
Enquanto as pessoas, os técnicos, e até o exército, num movimento frenético, tentam substituir a areia desaparecida por pedras cada vez maiores, que são igualmente tragadas pelo mar que cresce na mesma proporção, e os técnicos realizam exames e estudos que vão durar anos até constatar o óbvio, aos surfistas que nunca são ouvidos com seriedade, mas que sempre foram contra a modificação da praia, só resta acompanhar o movimento da bancada e aproveitar as novas ondas que quebram sobre sua areia, aprendendo os ensinamentos e aproveitando as dádivas do mestre mar.








