Em um portal designado a atender surfistas de todo Brasil, este título pode soar fora de contexto. Não está. Na verdade trata-se de um comunicado institucional, dirigido a todos nós, surfistas, simpatizantes, iniciantes e veteranos.
Mas gostaria de substituir a palavra “ódio”. Meu pai sempre disse que é um termo muito forte para ser usado sem certeza. Concordo e como ele tem mais moral, então substituiremos por “não suporto mais surfista”.
Há muito tempo digo isso em razão do meu desapontamento com a rapaziada. Estou perto dos 30 e surfo desde os 15 anos, quando herdei do meu irmão uma “Flor da Ilha”. Muita gente vai se identificar com este início, principalmente quem é aqui de Florianópolis (SC) e que conhece esta prancha.
Meu nível de surf está para “amigo da raça”. Vez ou outra sai uma batida, uma rasgada legal, uma penteada e raramente um tubinho para ganhar o dia, honestamente falando, pois sei bem a diferença entre uma penteada e uma boa “tubaca”, o que muitos não sabem.
Não sou local de nenhuma praia. Aqui, como a maioria, sempre surfei de acordo com as condições, o que faz muito local sair do seu pico para procurar coisa melhor. Para mim está mais para ‘‘deslocalismo’’.
Mas enfim, o localismo existe e deve ser levado a sério. Pelo menos no Atalaia, Itajaí, o único lugar que pude realmente constatar que haole não entra. Só lá! Ou alguém discorda? Em qualquer outro lugar forasteiros entram sim e ainda fazem a festa, ou são “arregados”.
Mas não é do localismo que quero falar e sim da atitude dos surfistas. Um dia destes um amigo que não é do surf me descreveu como invejava os surfistas: “Bixo, esta turma do surf dá um banho. Sempre na praia, tudo em forma, curtindo a natureza, relaxadão…”.
Relaxadão? Curtindo a natureza? Tive que interrompê-lo para dizer que ele não fazia ideia do que estava falando.
Expliquei que hoje em dia existe o localismo. Que em muitas praias surfistas não aceitam outros surfistas. Que o surfista, o garotão da praia, envolvido com a natureza, é no fundo um preconceituoso.
Expliquei que a indústria fabrica surfistas que nada entendem do esporte, que acham que basta tirar a calota do carro, encher de adesivo e amarelar o cabelo para entrar na água berrando, bicudo, sem respeito por nada.
Muitos dizem que não se trata de um esporte democrático. Estive no Rio meses atrás e vi dezenas de moleques da favela andando de prancha na mão, amarradões, sem vícios de marcas ou modismos, apenas curtindo o que as ondas oferecem.
O que se percebe atualmente é que no surf não existe o menor sentimento de companheirismo. Dentro d’água, o sentimento é competitivo e nada amistoso, como se cada onda perdida, pega por outro, despertasse o pior sentimento nos espectadores ali presentes.
Em uma pista de skate, crowdeada de profissionais e amadores, basta um qualquer executar bem uma manobra que soa o coro: “yeah!”. Aliás essa raça do skate sim dá um banho.
Tomar o exemplo desta galera não é difícil. Alguém já experimentou andar em uma pista cheia? Trombadas, skate dos outros “espirrando” na sua canela (o que machuca demais), porém nenhuma briga, xingamento.
E olha que nem o mar está ali para esfriar a cabeça. Acho que, inconscientemente, existe o respeito ao ser humano, ao desconhecido que está ali compartilhando a mesma experiência. Não vamos considerar como uma virtude o respeito, mas sim como algo essencial para a boa convivência, um acessório de fábrica.
Enfim, pode ser uma opinião bem pessoal. Uns podem se identificar e outros não. É capaz de ter gente me esperando com uma pedra na mão na minha próxima queda.
Queria ver a galera mais relaxada, menos tensão no mar, mais surf e menos desrespeito.
Que os iniciantes busquem entender os fundamentos do surf antes de entrar em um mar crowdeado. Procurem saber o que é preferência, que rabear não é legal, que o mar merece respeito.
E veteranos, vocês já foram iniciantes, tentem ser mais compreensivos e, ao invés de dar um esporro, ensinem, compartilhem experiências, auxiliem. Não é utopia. Pratiquem isso pelo menos uma vez e garanto que as próximas serão mais fáceis.
Costumo dizer que o surf se tornou um esporte ingrato, que estava me trazendo mais desilusões que alegrias. Até que ontem levei meu cunhado, portador da síndrome de down para surfar comigo.
E nele, deitado na prancha pegando uma espumera, eu vi a pureza do surf novamente.
Paz no surf galera!