Na primeira matéria da série a respeito das quilhas (Evolução passa pelas quilhas), acabei não mencionando uma certa polêmica em torno da autoria da criação das quatro quilhas. Na sequência, tive a honra de receber um e-mail do Ricardo Bocão, esclarecendo toda a história.
O fato é que a primeira quatro quilhas da história foi shapeada e laminada na oficina Brazilian Dreams, onde Ítalo Marcelo (Capacete) também shapeava, em julho de 1981, apenas três meses depois de Simon Anderson chocar o mundo com a sua triquilha em Bells.
Pela ênfase e coerência cronológica de suas palavras, não tenho dúvidas quanto à veracidade dos fatos narrados. Por falta de acesso a informações tão detalhadas, fiquei mesmo devendo uma para o Bocão, e espero que esta matéria possa reduzir meu débito com ele.
Mas é com enorme satisfação que avalizo a grande contribuição de um dos maiores ícones do surf brasileiro no escasso rol de ideias e invenções que causaram algum impacto na evolução das pranchas dentro da história do surf, e que, no caso das quad, ainda deverão causar muito mais impacto, nos próximos anos.
E nada como ter a história narrada pelo verdadeiro criador da invenção. Com a palavra a seguir, Ricardo Bocão.
“No momento exato em que eu tive a ideia, estava ao lado do Rosaldo Cavalcanti, um dos jovens surfistas que faziam parte de minha equipe na época, e hoje um jornalista respeitado que nunca se furtou de testemunhar o que ele escutou da minha boca e viu naquele dia, na calçada no meio da Barra.
Antenado, como sempre foi desde moleque, Rosaldo queria uma três quilhas e soube que o Valdir tinha chegado da Austrália / Bali com uma. Ele ligou para o Valdir pedindo a prancha emprestada para levarmos à oficina.
Isso aconteceu apenas três meses depois do Simon exibir ao mundo a sua invenção vencendo em Bells Beach, Austrália, com 15 pés de onda. Pegamos a prancha e antes de ir para a oficina na Barra, resolvi ir surfar com a três quilhas do Valdir para tentar sentir alguma coisa dentro d’água e poder fazer o melhor possível para o Rosaldo.
Levei a minha biquilha também. O mar estava meio ruim, mas deu para surfar. Enquanto o Rosaldo surfava com a biquilha dele, eu alternei, usando uma meia hora a minha biquilha e uma meia hora a triquilha McCoy do Valdir.
Na verdade, achei a triquilha do McCoy uma m… Fundo meio reto, na área da rabeta totalmente reto, sem Vbottom, nem concave, as bordas muito “box / quadradas” e duras e uma rabeta squash meio larguinha.
Mas o Rosaldo queria uma igualzinha. Quando saí da água, coloquei as duas pranchas na calçada de terra batida, com o fundo para cima, os bicos apontados para mim e me afastei para ver e comparar o posicionamento das quilhas. Olhei para uma, olhei para outra e de repente, quando olhei novamente a biquilha, me veio a visão exata de duas outras quilhas atrás das quilhas grandes, um pouco mais para dentro e na mesma angulação, totalmente paralelas.
Foi exatamente assim que aconteceu. Com o Rosaldo ao meu lado e o susto da ideia, falei: “caramba, Rosaldo, tive uma ideia”. Nem bem terminei de falar e ele retrucou: “Aí, não vem não Boca, você vai fazer a minha prancha como eu tô pedindo, hein…”.
Em novembro de 81, Glen Winton chegava ao Hawaii com um quiver triquilha para ondas pequenas e outro quiver singlefin para ondas médias e grandes. Eu cheguei no mesmo mês de novembro (apenas quatro meses depois de ter criado a quatro quilhas) para competir no Pro Class Trials em Sunset e no Pipeline Masters com um quiver exclusivamente de quatro quilhas: uma 5’8”, uma 6’8” e uma 7’4”!
Tenho fotos do Gordinho comigo chegando com as pranchas ainda sem lixar as quilhas nas areias de Sunset Beach, surfando e competindo nessa temporada havaiana exclusivamente com quatro quilhas.
Todo mundo me zoou no gramado da casa do fotógrafo Bernie Baker, que organizava o Pro Class Trials e onde todos ficavam durante o campeonato: Randy Rarick, Shaun Tomson. Eles zoaram, mas não se esqueceram. Quando o Shaun veio aqui no ano passado para divulgar o “Bustin Down the Door”, demos risadas lembrando que ele tinha me dito (quando viu as quatro quilhas):
“Porque você não coloca umas quilhas no bico da prancha também?” me zoando. O Aaron Chang fotografou os meus modelos nesse mesmo gramado e uma foto foi publicada na Surfing (com a 7’4” doublewingpin), edição de Julho’82 (que saiu em março de 82), eu no meio de outros dois modelos “malucos” de quilhas na pequena matéria “zoando forte” os três modelos.
Por dois anos inteiros (de julho de 81 até julho de 83), viajei para os campeonatos da ASP na Califórnia, África do Sul, Brasil, Hawaii, etc… exclusivamente com pranchas quatro quilhas sem ver ninguém, nem mesmo o Glen Winton com uma quatro quilhas sequer!
Dois anos! Ele (o Glen Winton) competiu na minha bateria no Pipe Masters de 1982 (no meu segundo inverno havaiano só com quatro quilhas) – tenho foto do Gordinho no briefing do “beach Marshall” antes de entrar na água (éramos seis competidores), eu com uma 6’10” quatro quilhas e ele com uma 7’2” single fin azul (tenho também no Woohoo cenas dessa bateria em 16mm filmadas pelo Curt Mastalka).
Então a possibilidade de que o Glen possa ter desenvolvido a quatro quilhas na mesma época que eu, ele lá na Austrália e eu aqui no Brasil, em meu ponto de vista é pura “balela”, de boa parte da comunidade internacional, criada dois anos depois, quando as quatro quilhas viraram febre no verão de 83 nos EUA.
Uma febre curta, que durou apenas uns oito meses (como me contou o Horácio Seixas pelo telefone dos EUA depois de ter laminado 450 pranchas quatro quilhas na Califórnia), mas foi intensa.
Ora, supondo que o Glen tivesse realmente criado a quatro quilhas antes ou na mesma época que eu, pergunto:
1. Porque, entre abril de 81 (quando Simon venceu o Bells com a três quilhas) e novembro de 81 (quando eu apareci no Hawaii com três pranchas quatro quilhas), não se ouviu falar nada do Glen com a quatro quilhas e não existe registro de nenhuma foto em revista ou nenhum outro lugar dele com uma prancha quatro quilhas?
2. Porque naquela primeira temporada havaiana 81 / 82, todos os competidores, inclusive o Glen Winton, estavam com guns singlefin? Os competidores (todos, de Mark Richards a Shaun Tomson, passando por Tom Carrol e cia) ainda não tinham assimilado a triquilha para as suas guns.
Apenas o Simon Anderson e seu pupilo Mike Newling (um escocês que morava na Austrália) tinham guns triquilha e eram a sensação em termos de design na chegada ao Hawaii naquele inverno. Além deles, em termos de design diferente, eu estava com três pranchas quatro quilhas e era motivo de chacota e zoações e o Cheyne Horan começava a tentar misturar aqueles modelos excêntricos de pranchas largas, grossas e “needle nose” do McCoy às suas guns.
Porque o Glen Winton não apareceu com uma quatro quilhas no Hawaii, o melhor lugar para testar e divulgar a criação do modelo?
3. Porque o Glen Winton não foi fotografado pelo Aaron Chang (staff photographer da revista Surfing) com um modelo quatro quilhas, naquela primeira temporada havaiana, mesmo que fosse para zoar? (Resposta: porque ele não tinha nenhuma quatro quilhas no seu quiver)
4. Porque o Glen Winton, depois dessa temporada no Hawaii 81 / 82, não apareceu nos campeonatos do Tour de 82 e primeiro semestre de 83, com uma quatro quilhas? Sabe quem deu a primeira visibilidade concreta, sem zoação, para as quatro quilhas no exterior? Foi o Joey Buran e o Willy Morris juntos numa foto de página inteira, de julho de 83, na Surfing ou na Surfer, posando cada um com uma quatro quilhas, idênticas ao modelo criado por mim (mesmo outline e mesma profundidade das quilhas de trás, posicionamento das quilhas de trás em relação às quilhas da frente e em relação às distâncias das bordas).
Idênticas! E sabe por que eu escrevo com tanta propriedade? Porque tenho, como te falei, vários slides (uns 30) com as quatro quilhas no Hawaii em 81 e de novo na temporada havaiana de 82 / 83 oito meses antes de ser publicada a primeira foto do Joey e do Willy Morris. Tenho também fotos no OP Pro em Huntington de 82 com uma quatro quilhas e janela de acrílico, na África do Sul, etc…. Ainda, porque não foi o Glen o primeiro a aparecer numa revista de surf em destaque com as quatro quilhas? Estranho, não é?
5. Por último, a informação de que o Glen quase venceu um título mundial com as quatro quilhas deve ser revista, porque na etapa de Biarritz, que ele ganhou do Potter na final, Glen estava de triquilha. O Pipe Masters que ele se destacou foi em cima de uma gun normal triquilha azul / roxa.
Nunca o vi competindo regularmente com a quatro quilhas e nessa época eu estava no circuito direto.
Mas imagine você tendo uma criação sua zoada durante dois anos inteiros por quase todo mundo, no Brasil e no exterior, com você investindo toda a sua grana para viajar e competir no máximo de eventos do Tour (umas quatro viagens por ano), sendo zoado pelos estrangeiros de A a Z e ver depois a sua criação aparecer nas revistas de surf, nas mãos de dois americanos, sem menção nenhuma à você.
Depois disso, ler histórias que o Glen Winton foi um dos primeiros a usar, que o Glen Minami foi um dos primeiros também com a tal das “Twinzers” nos pés do Martin Potter. E depois de uns 20 anos (2005), ver novamente o modelo começando a ser usado naquelas “fishs” da Lost com a molecada dando aéreos em Trestles e em toda a Califórnia, o modelo começar a fazer parte dos mais variados modelos dos shapers que finalmente abandonaram a ditadura das pranchas estreitas e finas, um dos Hobgoods vencer um evento na Califa falando maravilhas do modelo (que o shaper tentou se apropriar colocando uma rabeta “estrela”, como se o conjunto é que tivesse dado certo), ver o modelo começando a ser usado em várias pranchas de tow in em ondas gigantes pelo mundo (quer melhor prova que o modelo tem o seu espaço do que isso?), até chegar ao fato inusitado (isso nem eu imaginei) de o modelo ser usado em algumas guns de Waimea, agora no Eddie Aikau!
E você “chupando o dedo”, vendo tudo isso acontecer sem nenhum reconhecimento da mídia especializada no exterior e nem mesmo no Brasil, o seu país!
Sabe qual é o resultado concreto do desinteresse dos veículos de informação a respeito da figura do criador das quatro quilhas? É o Sylvio Mancusi escrevendo no Waves um texto sobre o assunto e colocando o Glen Minami (risível!) como um dos pioneiros das quatro quilhas e ainda discutindo comigo por e-mail, duvidando da minha história e ainda tentando trazer o Cheyne Horan para o centro da discussão, ao invés de assumir a ausência de uma pesquisa dele sobre o assunto com pessoas da época (81 / 83) em que ele ainda não tinha ideia do que estava acontecendo no surf.
O resultado concreto também é o seu esquecimento (não estou “apontando” o dedo não, numa boa) ou até a sua dúvida quanto ao fato de eu ter criado a quatro quilhas. E isso, dentro da “grande mídia especializada”, tem sido uma constante! Ao invés de irem a fundo à história para descobrir quem foi que inventou e divulgou lá atrás em 81 / 83, preferem dizer que foi o Glen Winton e pronto. Mais adequado aos australianos e aos da língua inglesa pelo mundo”.
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