Leitura de Onda

O tesouro

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Carlos Secchin na Ponta do Siribeira, Guarapari (ES), em 1969. Foto: Arquivo pessoal.

 

Dia desses tive o prazer de jantar com minha mulher na casa de Carlos Secchin, um amigo apaixonado pelo mar. Eu poderia dedicar o texto apenas a reverenciar a macaxeira orgânica de entrada, o suco de seriguela colhida do próprio pé e o incrível risoto de polvo feito por dona Jacira, acompanhado de duas garrafas de vinho branco.

Nada pretensamente sofisticado, mas tudo da melhor qualidade. Como o surfe.

É difícil imaginar, mas algo ali valia mais que o banquete: as histórias, sempre elas, claro. O homem não precisa de muito mais que a velha resenha, uma boa conversa à mesa, rodeado de bons amigos. Jantares singelos deram início a grandes revoluções.

Desde que o mundo é mundo é assim: “A mesa faz mais amigos que a razão”, já dizia o escritor da Roma antiga Publílio Siro, que viveu o último século antes de Cristo.

Carlos é um adicto em água salgada. Conseguiu, ao longo da vida, conciliar a vida mundana de empresário com a fotografia de mar. Observador sensível, fez o primeiro livro sobre Abrolhos – que acabou se tornando documento fundamental para a transformação da área em Parque Nacional – e obras exemplares sobre Ilha Grande, Arquipélago das Cagarras e outras pérolas do Atlântico.

Claro, ele pega onda. Há décadas. Gosta tanto que mandou instalar no topo de seu prédio uma câmera, de onde se vê a área entre o Posto 8 e o Arpoador, no Rio, e ligou um streaming de 24 horas de mar em sua sala, como um quadro vivo: ora ventoso e sombrio, ora espumado e claro, ora verdinho, com linhas simétricas. Pura arte.

É o tipo que conhece cada uma das espécies de ave e peixe que habita a aldeia de Ipanema, sabe exatamente os dois dias do ano em que o sol de põe exatamente atrás do Morro Dois Irmãos, formando a sombra de uma pirâmide perfeita, e é capaz de falar horas sobre a vida marinha incrustrada no emissário de Ipanema.

Não são os negócios da empresa que movem Carlos. Seu brilho vem do mar.

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AC Jacques à direita, de sunga preta, com a prancha de Arduíno. Foto: Arquivo pessoal.

À mesa, estava também o clássico AC Jacques, outro empresário que se liga mesmo na água-roxa e límpida que chega do oceano. Ex-sócio do eterno Arduíno Colassanti num negócio de imagens submarinas, ele passou a vida entre as ondas da superfície e as correntes do fundo, sempre com água salgada nas veias.

Em 1965, já estava sobre as madeirites no Rio, com a propulsão de pés-de-pato cortados para conseguir entrar na onda. Ele foi testemunha ocular do dia em que Peter Troy revolucionou, em pequenas esquerdas do Arpoador, o surfe brasileiro, com uma prancha de fibra e um repertório de manobras inimaginável no surfe de madeirites.

AC comprou a primeira prancha de fibra por Arduíno. O “foguete” era feito com isopor, “araldite” e resina de poliéster, reforçado com sacos de aniagem. Em pouco tempo, a prancha estava toda aberta. Depois de cada sessão de surfe, o garoto tinha que esperar meia hora na areia para drenar a água da infiltração, senão não conseguiria carregar a prancha, tamanho era seu peso.

Não são os negócios da empresa que movem AC. Seu brilho vem do mar.

A conversa desaguou na história de um amigo em comum, também amante dos oceanos, que passou parte da vida atrás da nau portuguesa Santa Rosa, que teria naufragado no litoral nordeste brasileiro, em 1726, com toneladas de moedas de ouro. Rico, com a vida resolvida, o explorador já teria organizado expedições milionárias em busca do navio. Diz a lenda que já gastou mais do que valeria o tesouro.

Para ele, o que vale é a busca, sempre – decretou AC, com um sorriso de quem concordava com o amigo caçador de embarcações naufragadas.

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AC Jacques à direita, em pé, de sunga preta, com amigos no Leme (RJ). Foto: Arquivo pessoal.

No fundo, todos nós concordamos. Temos muito em comum. Para o povo do surfe, o tesouro, na verdade, é a própria busca. É o que faz com que Carlos, AC, eu e o leitor mais jovem deste site possamos compartilhar felizes a mesma mesa. Ou o mesmo mar.

Fui embora grato pela comida, pelo papo, pelos amigos. Antes de chegar em casa, claro, dei uma conferida nas ondas do quintal de casa. Só para manter a busca viva.

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