Budô

O surfista samurai

Mark Occhilupo, um veterano do WCT, mostra a qualidade do seu surf durante o WCT em Jeffreys Bay, África do Sul. Foto: ASP Cestari / Covered Images.

Free surfer, roqueiro da banda Redfones e professor de Aikido, o catarinense Mario Tetto fala sobre auto-conhecimento pela prática do Budô.

 

As competições de surf hoje são cada vez mais disputadas e o nível dos atletas aumenta a cada dia. A maioria dos atletas está em um nível técnico muito próximo e pequenos detalhes são decisivos para a vitória em uma bateria.

 

Sabemos que o preparo físico para surf deve set obtido com os treinamentos diários, com a possibilidade de algum reforço muscular, mas sempre preservando a agilidade e flexibilidade do atleta.

 

Um bom preparo físico representa uma boa vantagem, mas um preparo físico e mental pode diferenciar um atleta de um campeão. Muito já foi discutido sobre preparo físico dos surfistas, mas pouco se fala sobre a preparação mental.

 

Quantos excelentes surfistas que conhecemos não desempenham um bom papel nas baterias ou são irregulares? Nas competições além de surf no pé outros fatores são importantes.

 

É incrível perceber a fase em que surf mundial atravessa. O duelo entre a juventude e a maturidade dos veteranos está cada vez mais comum em baterias. Quem imaginou que a carreira de um atleta do WCT pudesse chegar até os 40 anos?

 

O controle da mente e dos movimentos é fundamental para a bateria.A calma, a respiração, concentração, ou seja, o controle emocional para utilizar o corpo e a prancha com todo seu potencial. Fatores que colocam um surfista experiente em condições de competir com o vigor da nova geração.

 

Este parece ser o segredo que até grandes campeões buscam, e que raros talentos fazem de forma espontânea. Surfar relaxado. Encarar a bateria como uma sessão de surf.

 

Quase nenhum atleta consegue mostrar 100% do seu surf em uma bateria, e no fundo o atleta profissional sabe que a vitória em uma bateria depende mais do seu desempenho do que a dos outros competidores. E na essência desta questão existe um pensamento em que quando o atleta surfa 100% do seu potencial pode vencer qualquer oponente da sua categoria ou ranking. E isso é quase uma regra.

 

Kelly Slater, o maior surfista de todos os tempos, já declarou em vários depoimentos que quando você não cria grandes expectativas, coisas boas acontecem, ou seja, quando você surfa relaxado em uma bateria, suas chances de vitória aumentam, seu sucesso independe das táticas de competição ou do desempenho de seu rival.

 

Como então surfar tudo que você pode em uma bateria? Como se conectar com a própria essência do seu surf?

 

Bem, mesmo se você nasceu com um talento fora do comum é necessário lapidar. A experiência de várias competições, diferentes ondas e viagens podem lhe dar uma bagagem que pode ser útil no futuro. Sistema já adotado por alguns jovens surfistas e marcas mais antenadas.

 

Mas tudo isso pode se perder no caminho ou simplesmente tornar o ?jovem surfista? em um eterno talento promissor.

 

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Tom Curren, rei do estilo, passeia nos tubos de Hossegor, França. Foto: Luis Passos.

Hoje existem técnicos que cuidam da carreira dos atletas. Esta participação de outros profissionais já é uma evolução no surf, mas é ainda pequena quando falamos de uma carreira que pode durar 20 anos.

 

Criar um garoto do surf com todas as regalias de uma estrela pode ser prejudicial na sua carreira no futuro, por mais que seu talento ainda o coloque no topo, ele deverá estar preparado para as derrotas, que fazem parte da vida. Principalmente no mundo competitivo do surf. Hoje no line up existem alguns jovens talentosíssimos que não passam de garotos mimados ou mascarados. Será que está certa está preparação?

 

Será que outros valores não deveriam ser incluídos na formação destes jovens atletas?

Eu costumo a comparar os grandes ídolos do surf com Samurais, guerreiros com uma capacidade técnica infalível e um profundo conhecimento da sua arte.

 

Em uma analogia este ?conhecimento? seria uma ampla visão do surf, não só como esporte, mas como estilo de vida, herança cultural e etc. É assim que os Samurais desenvolveram o Budô, onde a arte marcial ou a técnica da espada era praticada por um motivo muito maior do que a própria vitória sobre o inimigo.

Budô? Mas o que uma arte marcial tem haver com o surf?

 

Nada. Na verdade são os objetivos do Budô que se aproximam deste controle mental e corporal que podemos considerar importantes para um atleta em uma bateria.

 

No Budô está presente o caminho do aperfeiçoamento SAMURAI. Os aperfeiçoamentos técnicos, mentais e morais.

 

O Budô ensina que não existem inimigos ou oponentes, e mostra nos treinamentos que a vitória simplesmente depende da sua intenção, energia e auto-controle.

 

Fazendo uma comparação com o surf, seria como se em uma bateria não existissem rivais ou adversário, e que a vitória dependesse apenas da expressão máxima do seu potencial e de sua harmonia com as ondas.

Os antigos Samurais dedicaram suas vidas à aperfeiçoar suas técnicas, mas logo perceberam que era impossível chegar a técnica perfeita  trabalhando apenas o corpo e não a mente. Uma técnica nunca será completa se for mecânica e sem propósito. Sempre uma técnica fluida, que surge da essência do guerreiro é mais poderosa.

 

Clubes de futebol e vôlei, e até surfistas hoje contam com ajuda profissional de um psicólogo, que tentam orientar os atletas e mantê-los motivados.

Mas o Budô é diferente, ele não é como uma terapia, é o auto-conhecimento, as perguntas e respostas serão dadas por você mesmo. No seu treinamento, na sua relação com as pessoas e na sua zona de combate.

 

Um Samurai completo se fundia com a sua espada, assim como o surfista deve se fundir com a prancha e seus movimentos. A onda deve ser respeitada, e negociar com ela as melhores aberturas e sessões. Duelar com a onda pode ser desastroso e esteticamente horrível.

 

Mestres do estilo parecem saber disso. Eles percorrem caminhos que outros surfistas simplesmente não enxergam. A harmonia e fluidez dos seus movimentos entram em sintonia com a onda. Toda esta fluidez fez com que Tom Curren fosse três vezes campeão mundial, e se tornasse uma referencia de como vencer com estilo.

 

A competição não pode ser maior que o surf. Um surfista experiente deveria ser como um Samurai , seguro de sua capacidade, com movimentos graciosos mas cheios de energia, que consegue se harmonizar com as ondas e com toda a natureza que envolve o surf, incluindo seus adversários, mestres e amigos.

Se o surf pode ser classificado também como uma expressão corporal, seria correto dizer  que ao trabalharmos aspectos de nossa personalidade isso seria refletido em nosso estilo de surfar, sendo assim, o contrário seria verdadeiro também, ao trabalharmos o nosso estilo e nossos movimentos, algo em nossa postura pode ser melhorado fora da água.

 

Podemos nos tornar indivíduos mais seguros, com auto-estima e preparados para qualquer batalha, seja na terra ou no mar.

Com o resgate dos ensinamentos dos Samurais pode surgir uma nova geração de surfistas conscientes de seu potencial, e que quando testados e avaliados, em competições ou mesmo no free surf, conseguem manter uma atitude tranqüila e serena, onde os pensamentos não interferem na sua performance, pelo contrário, o seu treinamento diário no Surf-Budô os coloca em equilíbrio e em sintonia com as ondas.

 

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