Soul surf

O Surfista Peregrino – Sri Lanka – Parte I

Cheguei cansado da rua. Não das dificuldades normais do dia-a-dia, mas do volume insuportável da minha própria cobrança. Gostaria de saber quem foi o imbecil que introduziu na nossa sociedade o conceito de que a autocrítica é uma qualidade louvável e digna de ser regada com camadas contínuas de neurose.

 

Para meu alívio, vi jogado na soleira da porta um envelope solitário. Pelas cores exóticas e caligrafia tribal, só podia ser do Peregrino. Ainda assim contive a ansiedade. Entrei, larguei as roupas pelo caminho, tomei um banho, confeccionei e esquentei um sanduíche de pão ciabatta com mortadela light, queijo branco e mostarda de Lyon apimentada e sentei-me na poltrona extra soft, embaixo do abajur de conchas havaianas.

 

Uma mão contribuía avidamente com a mastigação e a outra para abrir as folhas do surpreendente papel vegetal. Os peixes do meu aquário me olhavam com aquele eterno olhar, mistura de surpresa e desdém. O que seria esta nova moda do meu amigo errante? O papel vegetal seria mais um sutil toque ecológico do Peregrino?!

 

Uma gota de mostarda caiu na primeira página da carta, bem encima das palavras “turbantes ocre”. Enquanto o líquido viscoso, como um Nilo na cheia por entre as planícies egípcias, em vez de permear o papel, escorregava folha abaixo, iniciei a leitura. 
 
“Não seria do feitio do Imnti chorar em despedidas. Um homem do mar define o ir e vir como partes iguais do mesmo corpo etérico. É tudo uma coisa só. A única coisa que existe é o agora. E o agora era eu sendo deixado pelo Imnti e pelo meu querido Dhoni, nosso resistente barco, na peculiar pista do aeroporto de Malé, capital das Maldivas. Certamente o único aeroporto do mundo que além de estar a apenas dois metros acima do nível do mar, é constituído de duas ilhas conectadas por entulhos, corais e concreto. Mais uma conexão artificial feita pela mão do homem. Não há, nas Maldivas, ilha suficientemente comprida para a descida de um jato, portanto eles tiveram que improvisar. ‘As Maldivas realmente necessitam de jatos?’, pensei.

Duas semanas antes eu havia perguntado a alguns amigos nativos qual o lugar que eles sonhavam conhecer. Entre Índia, Estados Unidos e até Brasil, um país levou a maioria dos votos: Sri Lanka. Tinha ouvido falar que era como Bali 30 anos atrás. Sem crowd e com ótimas ondas a serem exploradas e aprendidas. Num surto modernista e humanamente contraditório, dessa vez decidi ir pelo ar. Violentar meus instintos e princípios é uma maneira forte e didática de, durante muito tempo, me vacinar contra estas mesmas atitudes no futuro. Assim que cheguei no guichê na companhia de aviação pedi um bilhete de ida para o Sri Lanka. Os bilhetes de ida me dão uma estranha sensação de liberdade. O vôo partiria em uma hora.

 

No avião havia somente orientais com seus turbantes amarelados, vinho (para a transmutação das energias), branco (para o contato direto com Shiva) e dourado (para a riqueza interior, exterior e para garantir a presença do Deus Sol no indivíduo, entre outras coisas). Observei o mar de cabeças coloridas e almofadadas balançando levemente num ritmo hipnótico. Entrei num transe místico e tudo começou a se mover em câmera lenta. O calor transcendia um forte cheiro de incenso, suor e comida. Enquanto eu entrava pelo corredor pude ver uma única cabeça loira. Longos cabelos até os ombros emoldurando uma feição séria, traços fortes esculpindo uma expressão rígida. Instintivamente fui em sua direção.

 

Era Gregg, surfista e marceneiro australiano, que também viajava solitário pelo mundo atrás do seu rosto divino. Mais um buscador, pensei. E ainda por cima com a profissão de Jesus!, como vim a saber. Conversamos, nos entendemos e ficamos felizes de poder contar um com o outro neste passo rumo ao desconhecido. Pequenas coisas, como cuidar das malas enquanto um vai trocar dinheiro ou ir ao banheiro. Negociar com choferes de táxi ou de ônibus. Defender-se melhor de nativos mal encarados que poderiam se sentir um pouco mais inibidos em abordar dois estrangeiros ao invés de um, embora eu saiba perfeitamente que quando nos iluminamos internamente nenhuma escuridão se aproxima.

 

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A desvantagem é que, estando só e “desprotegido”, ao mesmo tempo você está mais aberto e receptivo a novas pessoas e novas experiências. Teoricamente. Mesmo consciente disso, dessa vez resolvi experimentar um companheiro de jornada. O máximo que poderia acontecer seria eu aprender algo sobre como construir uma mesa confiável ou a como se efetua a construção de uma personalidade através da sua recriação constante na madeira, com as próprias mãos, à moda do Jesus mítico. Não fazemos nada por acaso, muito menos a escolha da nossa profissão. O fato de Gregg ter optado pela mesma arte de um dos maiores (ou do Maior, segundo muitos) Mestres da Humanidade me pareceu no mínimo significativo e fez com que eu me sentisse estranhamente confortável.

 

Ser Peregrino, locomover-se, só não basta. É preciso estar presente em cada instante da jornada, e além. E talvez seja este um dos maiores objetivos da Peregrinação: aprender a Presença mesmo em movimento. Nunca se deslocar de si, nem mesmo durante um furacão ou um caldo numa onda gigante. Aprender a usar o movimento externo para reforçar o Eu Divino dentro de nós. Cada chacoalhão “cura” ainda mais a alma. Ensina um pouco mais ao Espírito o que significa, o que é estar encarnado. Prepara a nossa síntese, composta do terreno-carne e do céu-intangível, um pouco melhor para a Evolução.

 

Descemos no caótico aeroporto de Colombo. O Gregg se destacava perigosamente da multidão com seu “farol” amarelo que escorria bandeirosamente até os ombros. Ele era do tipo quietão, com aquela calma zen dos viajantes solitários. No começo não pareceu muito à vontade com a minha companhia, mas, ao mesmo tempo, sei que pressentia intimamente que a presença de um membro da mesma tribo, mesmo que de um “ramo” distante como o Brasil, era necessária nas circunstâncias. Estávamos comprometidos a encarar juntos o futuro imediato. Mais segurança e mais economia, além do evidente incremento nas relações bi-laterias Brasil-Austrália.

 

Dois peregrinos que evidentemente apreciam e valorizam a solidão, viajando juntos, já é por si só uma nova aventura dentro da aventura. Como o livro “O  Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien, que vou lendo, rasgando e abandonando os capítulos já absorvidos pelo caminho, deixando a bagagem mais leve depois da alma estar mais preenchida. A matéria tem a sua utilidade provisória, como toda a matéria. O livro se constitui numa terceira aventura, só que paralela. Uma viagem dentro da viagem.

 

Como quase todo trabalhador braçal do primeiro mundo, Gregg conseguia economizar grana suficiente para dar suas bandas pelo universo conhecido, fluindo à deriva. Segundo tínhamos conversado, ele havia pisado muitas areias pelas quais eu também havia deixado minhas pegadas. Meditando sobre isso eu vi as reentrâncias deixadas na areia pelas minhas pegadas durarem somente aquele tempo efêmero o suficiente para os grãos escorrerem de volta e preencherem o espaço novamente. E… pronto!, eu já não existia novamente. Uma suave metáfora para a vida. Eu e Gregg tínhamos estado em alguns lugares no mesmo mês, talvez até no mesmo dia. Ele trabalhava seis meses por ano e viajava os outros seis. Não parecia consciente do privilégio que usufruía. É natural.

 

Muitos australianos fazem isso. Para eles o contrário é que talvez seja motivo de revolta! Era um tipo que carregava um pouco do estoicismo dos primeiros colonizadores da Oceania. Ou dos primeiros bandidos sentenciados, desterrados e expulsos da Inglaterra que participaram ativamente da formatação étnica do povo australiano. Tempos duros. Dor física, por exemplo, não deveria ser motivo de lamentos ou da alteração do seu ritmo normal de vida, como veremos a seguir. Demonstrar sofrimento simplesmente não cabia na genética cultural do meu amigo. Uma introspecção cultivada e muito similar, se é que ouso extrapolar, ao isolacionismo geográfico do próprio continente australiano : a parte da cultura ou da chamada civilização ocidental mais perto do Oriente (quando perguntado o que achava da “civilização ocidental”, Mahatma Gandhi respondeu: “seria uma boa idéia…”).

 

Senão, vejamos: vindo desde os Estados Unidos e andando para o Leste, para o Oriente, a cultura ocidental vai diluindo a partir da Europa Ocidental para a Oriental. Diminui ainda mais sua influência à medida que se aproxima do Oriente Médio, se esgarça totalmente quando entra na Rússia, China, Tibet e Península Indu, para ser apenas um eco distante quando chega na Indonésia, Malásia e Tailândia. Pois bem, quando ela está quase desaparecida, pronto! Aparece a Austrália, interrompendo bruscamente o fim inevitável; o Ocidente ressurge do nada novamente, uma pequena amostra dele em população (24 milhões de habitantes), mas um enorme símbolo e uma imensa porção de terra, um continente. Talvez a maior proximidade de duas culturas tão diversas no globo terrestre.
 
Gregg me fitava, às vezes, com aquele olhar inquisidor e curioso de quem tenta decifrar um ser exótico. Logo em seguida suspirava, balançava a cabeça e baixava os olhos como quem desoladamente desiste da empreitada. Para mim ele era uma síntese do seu povo. E foi com a Austrália como companhia, cuidando da minha mochila, meu violão e minhas pranchas enquanto eu desembaraçava os passaportes, que desembarquei um pouco mais centrado e tranqüilo no, outra vez!, confuso, e bota confuso nisso, aeroporto de Colombo, no Sri Lanka. Um caos em forma de hangar. O porque deste caos exalar muito mais VIDA que o antisséptico aeroporto de Frankfurt, por exemplo, é um dos muitos e maravilhosos mistérios que eu tento desvendar…”

 

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