
O Peregrino interrompeu a sua última carta no pior momento possível. Cheguei a pensar que talvez tenha sido a derradeira mensagem do meu amigo errante.
Será que ele sobreviveu ao seu instinto e ao seu encontro com o deus aquático do tsunâmi? Desejo de morrer ou desejo de transcender? Qual era afinal a viagem deste espírito ao mesmo tempo tão íntegro e ao mesmo tempo tão conturbado?
Tentei manter um distanciamento “profissional” do personagem, mas ele me afeta a cada passo, a cada decisão. Estarei irremediavelmente atrelado a alguém sobre o qual não tenho o mínimo controle? Estava imerso neste mar de interrogações quando vi uma pequena carta em cima da pia da cozinha.
A Marieta, a minha empregada sergipana, deve ter colocado a correspondência para dentro. Este envelope era menor que os anteriores. Parecia leve e, ao mesmo tempo, denso. Abri logo e li:
“O segredo da vida, do sucesso e, neste caso, da sobrevivência, é continuar acreditando em você mesmo quando ninguém mais acredita. Entendendo como sucesso a capacidade de aproximação máxima de si. Durante algum tempo transitei naquele espaço mágico que existe entre a euforia e a depressão. Mas a minha Fé era maior que o mundo e eu sentei na prancha quieto, esperando o meu destino, vivendo o meu destino. E afinal o que significa “sobrevivência”? Viver sobre a vida? Eu quero viver NA Vida. A minha vida é o surf. É o desenvolvimento do meu espírito através da prática sagrada das ondas.
Que sentido teria eu NÃO surfar este tsunâmi? Neste caso, sim, eu não teria “sobrevivido”. O eventual perecer do meu corpo exercendo a atividade para a qual eu fui destinado é parte indissociável do Caminho. Como o samurai que cai em combate. Vivendo o seu Ser em plenitude. A certeza da continuidade do meu Espírito nas águas dos tempos que dá paz. Dá-me firmeza de propósitos. O céu da noite brilhava com as estrelas, agora. Os fiapos de nuvem restantes da tempestade fugiam para o norte abraçadas com o vento remanescente.
Lembrei de Felipe Pomar, o campeão de surf peruano e sua história sobre o dia em que surfou uma onda de maremoto em Punta Hermosa de pelo menos 30 pés. Lembrei-me de Greg Noll, 1969 em Makaha, no Hawaii, ao surfar a maior onda já surfada até então, no braço: 35 pés. Tentei reproduzir internamente o sentimento e a confiança que um Laird Hamilton teve ao surfar Jaws pela primeira vez, na ilha de Maui, também no Hawaii. Qual o tamanho aquele dia? 40, 50 pés? Não importa o tamanho da onda. O importante é o tamanho do coração do Homem.
Ouvi um rugido tenebroso vindo do horizonte e uma lufada de vento crispou a superfície da água borrifando espuma nos meus olhos. Senti o cheiro de sal impregnar minhas narinas intensamente. Minha boca estava seca e minha língua parecia entrecortada por pequenas feridas de pavor. Fechei os olhos e olhei para Deus. Ele sorria e me tranqüilizava. Eu sorri e respirei profundamente. Passei a mão pela superfície da prancha para checar a aspereza da parafina. Estava boa. Meus pés não iriam escorregar num momento crítico.
Olhei para o meu terceiro olho, no meio da testa: ele brilhava um azul escuro forte, e se expandia para além do meu corpo. Uma luz dourada envolveu todo o meu ser e minha prancha, como uma bolha protetora. Quando eu vi a primeira onda aparecer no horizonte, refluindo da fenda, vindo das profundezas abissais do oceano, pressenti que a minha missão de vida encontrava-se com a missão de vida daquela onda. E que juntos seríamos Um”.