O Bar do Surfista, localizado na praia de Intermares, em Cabedelo, virou parada obrigatória das tartarugas marinhas que passam pela costa paraibana. Os animais encontraram no dono da barraca, Valdir Moreira, um protetor. O homem se define como ”amante das ondas e do mar” e começou por acaso no ofício de ajudar as tartarugas a virem ao mundo. O surfista, sozinho, conseguiu colocar no mar três mil filhotes, nos últimos 12 meses, sem qualquer apoio institucional ou financeiro.
As mães-tartaruga têm agradecido o esforço botando ovos em Intermares até fora de época. Segundo os especialistas, a desova costuma ocorrer entre setembro e março. Em João Pessoa, entretanto, a quantidade de ninhos na praia aumentou de abril para cá. Em 2002, Valdir identificou 162 deles. O caso de amor do surfista com as tartarugas começou há pouco mais de um ano. Ele descobriu um ninho na praia onde costuma pegar onda. Resolveu observá-lo, curioso para ver o nascimento dos animais. Depois de 120 dias de vigília e nada de filhotes. Valdir ficou preocupado com a demora e ligou para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
”Disseram que os ovos levam no máximo 65 dias para abrir e isso me deixou muito aperreado.” Ele resolveu, então, cavar e encontrou 130 filhotes mortos. ”Senti uma tristeza muito grande no peito”, lembra o moço de 33 anos, nascido no Sertão da Paraíba. A ”tragédia” despertou no dono do bar o instinto de proteção. Passou a montar guarda dia e noite para descobrir novos ninhos e evitar que tivessem o mesmo destino dos outros filhotes. Ele chegava em Intermares entre 3:30 e 4 horas da madrugada para procurar rastros das mães que vinham esconder seus ovos. A mulher de Valdir começou a desconfiar de tanta dedicação. Achava que o marido só podia sair tão cedo atrás de outra mulher ou de bebida. O casal quase se separou. ”Ela só sossegou quando eu a trouxe aqui e ela viu uma daquelas tartarugas enormes fazendo o ninho”, explica Moreira.
Graças à dedicação do surfista, foi descoberta a primeira praia urbana de desova das tartarugas marinhas no Brasil. Uma informação preciosa para a preservação desses animais. Em praias mais desertas costumam haver um número maior de predadores. Os pescadores são os principais, pois se alimentam dos ovos. No meio da cidade, se houver atenção especial, fica mais fácil acompanhar o desenvolvimento dos ninhos e garantir que os filhotes ganhem o mar. Valdir parou de estudar no final do ensino médio, mas não perdeu a curiosidade científica. Logo que descobriu o primeiro ninho, procurou o pessoal do Projeto Tamar, responsável pelo trabalho de proteção das tartarugas marinhas em 23 diferentes pontos de desova no Brasil. Com eles, aprendeu a distingüir entre os diferentes tipos de animal e também como identificar os ninhos.
Da própria cabeça tirou solução simples e barata para os problemas que começaram a aparecer. A praia de Intermares fica na zona urbana da grande João Pessoa. Nos fundos da Barraca do Surfista passa uma avenida larga e há muitos postos de iluminação. Ao nascer, os filhotes de tartaruga costumam se guiar pela luz e se movem em direção à rua, em vez de buscar o mar. Muitos animais morrem atropelados ou presos na vegetação de grama e uma espécie de trepadeira que toma conta de parte das areias da praia. Valdir criou uma espécie de ”chiqueirinho” para proteger os filhotes. Ele usa tela, arame e madeira para cercar a área em torno dos ninhos. Isso evita que os freqüentadores da praia destruam os ovos e também impede que as tartaruguinhas, ao nascerem, sigam em direção à rua.
A paixão de Valdir pelos bichos tomou conta da maior parte dos vizinhos da praia de Intermares. Crianças, adultos e idosos passam diariamente pelo bar para perguntar sobre os ninhos e quando haverá a próxima eclosão (quando os filhotes saem da terra). Ele mantém ainda uma lista de telefone dos ”amigos das tartarugas”. São pessoas, como professores universitários e biólogos, a quem ele recorre para assistência técnica e ajuda na proteção aos animais.
”Chamo todos de Joaquim e Manoela porque são tantos que ficaria sem nome para dar a cada um”, brinca o surfista, que ainda não tem filhos. ”Os que eu arrumei aqui na praia me dão tanto trabalho que falta tempo.” Depois de terminada a eclosão, Valdir coloca as tartarugas numa caixa de isopor com areia úmida no fundo, onde passarão o resto da noite. Por volta das 22 horas ele deixa os ”filhos”, fecha o bar e volta para casa. Estará de volta às 6 horas, assim que a iluminação pública se apagar, para ajudar mais uma ninhada a ganhar o mar.