Soul surf

O surf

Quando me foi dado o presente de poder surfar, há 35 anos atrás, eu não poderia imaginar a importância que isso teria em minha vida. Como uma série de ondas com linhas a perder de vista os acontecimentos foram marchando e se formando até o improvável horizonte de hoje.

 

Como eu poderia supor que ele me colocaria em contato com uma parte de mim mesmo que estava esquecida? Que me salvaria de doenças e depressões; solidão e desespero?

 

A matéria-prima aparentemente instável do mar e suas ondas se transformaram num caminho sólido para percorrer com a minha prancha e a minha consciência.

 

O surf veio e revelou, inclusive, um dos meus vários interesses profissionais com a força e fluidez de um Pipeline 12 pés, com ondulação northwest, off-shore, mais o perigo sutil do Inside Corner de Uluwatu na maré baixa (naquela época  tinha pouca gente na água de lá e daqui, o que tornava o processo mais confortável e intimista ).

 

As manobras radicais, os batidões, os cut-backs com as costas encostando na água, os tubos secos, a simples apreciação da parede de água ao seu lado, levantando e se movimentando em matizes de verde e azul, como um ser vivo, foram ganhando mais densidade e significado com o passar dos anos.

 

Deixaram de ser meros movimentos automáticos e passaram a ser a expressão da minha alma. A fantástica estética do surf, o que se via do lado de fora, era cada vez mais intenso do lado de dentro.

 

Colocar o pé na água, a cada fim de tarde, tinha cada vez mais a forma e o conteúdo de um ritual. Eu não conseguia e nem queria escapar da sensação de que, a cada momento, eu estava crescendo espiritualmente, afinando e harmonizando a minha arte.

 

Eu e a prancha, através das ondas, éramos o instrumento divino para a minha própria evolução como ser humano. Como a espada para o samurai. O que teria sido de mim se eu tivesse escolhido outro caminho?

 

Não poderia, pois estava tudo escrito nas linhas, por vezes nervosas, por vezes suaves que as minhas quilhas traçaram nas milhares de ondas que eu tive o privilégio de surfar ao redor do mundo.

 

Cada desafio vencido numa série fechando o canal em Jocko’s, ao escurecer, no North Shore de Oahu; ou num caldo matador em Sunset, onde meus braços e pernas pareciam querer se desgrudar do corpo era uma pequena vida vivida dentro da minha própria.

 

Uma infecção na perna causada por microorganismos de coral em Sri Lanka me levava a um outro estágio. Um drop aéreo na frente do paredão do cliff em Kalihiwai, em Kauai, condensava uma imagem a mais.

 

Cada evento vivido e ultrapassado preenchia um buraco no quebra-cabeça do Tempo. Mesmo os acontecimentos bem menos dramáticos, mas não menos intensos como um abraço de um velho amigo dentro d’água; o cheiro da parafina de morango antes de entrar no canal em Honolua Bay, ou o pôr-do-sol nas Ilhas Maldivas depois da sessão de surf, contribuíram para construir o que eu sou hoje.

 

Eu não consigo imaginar melhor oportunidade para crescer. Se aproveitei esta magia real da melhor maneira possível é um outro assunto. Qualidade, encadeamento mágico de eventos, amor fraternal e universal, compaixão e entendimento por si, pelos outros e por Deus (como entidade maior, presente em tudo).

 

Tudo isso me foi fornecido. E eu percebi que quase tudo o que aprendemos socialmente (o tal do mito cultural) não é lá muito saudável. Aprendi que não é vergonhoso SENTIR, SER.

 

Que as regras apreendidas no convívio social não são necessariamente as regras do Equilíbrio Universal. Que é preciso discernir, exercer o seu livre-arbítrio, a sua sensibilidade, para escolher a cada segundo.

 

Escolher o lugar, o sentimento, a onda, o amigo, o tempo. Que é preciso escolher quem se quer ser. E arriscar. Dropar a sua vida sem medo. Exercer o seu espírito sem receio das críticas. Porque ninguém pode existir por você. E ninguém pode assumir responsabilidade pelas suas escolhas. E ninguém pode dropar por você.

 

Não dá para resumir o surf em uma página e meia. Nem em uma vida. Isso é apenas parte da visão de um único homem. O sentido do equilíbrio no seu significado mais literal. Que outra atividade lhe dá a oportunidade de ser envolvido pela Natureza com esta profundidade?

 

Onde mais vamos encontrar uma arena de treino tão perfeita para o nosso equilíbrio interior, para a alma praticar viver? Ao lidar com as inesperadas nuances de uma sessão de surf estamos aperfeiçoando o lidar com nós mesmos, com as inesperadas curvas com as quais o nosso espírito se depara no dia-a-dia, com as angústias, os medos, as alegrias, os ressentimentos, as vitórias, as decepções, o sentimento de inadequação e a percepção do divino em nós.

 

Como um iogue num mosteiro deserto nas montanhas do Himalaia, ou um músico inebriado pelos sons que saem constante e misteriosamente de sua cabeça e de seu coração, estamos todos procurando, mesmo que inconscientemente, a Unicidade perdida, o sentimento de que fazemos parte de Tudo e de que Tudo é parte de nós.

 

O surf é o caminho que escolhemos percorrer mesmo depois de ouvir pela primeira vez a frase: “Surf é esporte de vagabundo…”.

 

Estes confrontos são benéficos e importantes, o que me leva a uma outra frase de que eu gosto muito: “O teu inimigo é um mestre precioso”. É com ele que aprendemos sobre o nosso ego, nossas limitações, nosso espelho exterior. É com ele, e através dele, que nos dizemos as coisas mais horríveis e inacreditáveis.

 

Se neste momento tivermos a capacidade de parar, respirar e meditar a respeito, serão com estas difíceis realidades que iremos aprender a aceitar, evoluir e nos transformar. E o surf não é exatamente isso? Aceitar o mar como ele é. Não brigar com Deus ou com as ondas. Aprender com isso, nos transformar por causa disso, e evoluir com tudo isso.

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