O subconsciente de um big rider

Alguns dias muito especiais percorridos na minha estrada como surfista de ondas grandes foram marcados por pequenas ”viagens”, que hoje fazem parte da minha alma. Semelhanças…  

 Era Natal e minha primeira investida a Ilha de Maui, no Hawaii, aconteceu no intuito de surfar a mais temida onda havaiana, Jaws.

 

Com a adrenalina da bóia que naquela manhã marcava 25 pés, com 20 segundos de intervalo, eu, Eraldo e Edison resolvemos dar uma pequena corrida na montanha onde estavamos instalados  para uma pequena ”abertura” de pulmão, afinal, no final de tarde nossos sonhos seriam realizados na Baía de Peahi.

 

Enormes árvores decoravam nosso caminho ao longo da estrada onde corríamos, e, no meio dessa vibração, me imaginava surfando ondas do tamanho delas. Acho que meu subconciente fazia com que atitude de me imaginar surfando ”árvores onda” tornava minha alma mais apta na hora exata de usufruir das reais ondas que surfaria mais tarde.

 

E, não deu outra… Aquele dia ficou marcado na história do pico como o final de tarde mais perfeito de todos os tempos, Christmas Day.

Naquele dia, Laird Hamilton e Darrick Doerner surfaram as mais pesadas e perfeitas esquerdas já vistas no local. Doerner com certeza não esquecerá, afinal, foi o pioneiro ao colocar para dentro do tubo mais insando até então, e também surfou a maior e mais rápida esquerda da história até hoje. Eu realizei meu sonho e também fui rebocado nas ”reais” ondas líquidas.

 

Meu subconsciente também voltou a agir na minha primeira investida a temida e gelada onda de Mavericks. No trajeto do aeroporto de San Francisco para a Baia de Half Moon Bay entrei na mesma ”viagem”. A estrada passa por um local rodeado de enormes árvores, e minha alma voltou a vagar livre e solta com minha prancha mágica pelas ”árvores onda”.

Na chegada ao pico na companhia de meus ”brothers” Airton PB e Coxinha, surfamos sozinhos na remada ondas de 18 a 20 pés. O vento era side shore (lateral ou “ladal”) e, na hora que aparecemos no pico com nossas ”guns”, os locais que estavam fazendo tow-in – Peter Mel, Flea, Skin Dog e Barney – mostraram educação e abriram área.

 

Depois de cerca de duas horas de session, Coxinha e PB saíram do mar e me vi sozinho no outside. Mas, isso não durou muito tempo, pois Eraldo, Burle, Resende e um local apareceram em dois jet-skis, e pediram para que eu ficasse de lado no canal por um tempo, depois também me puxariam em algumas bombas. Foi demais poder usufruir daquele swell das duas formas.

Minha alma voltou a agir livre e solta novamente em minha primeira investida à mais temida onda do Brasil, que quebra no outside de Torres, a cerca de 500 metros da Ilha dos Lobos.

 

Novamente na estrada, mas desta vez à noite, minha alma surfou pela primeira vez sobre o efeito das luzes da lua. Foi uma viagem, porque depois de dirigir cerca de 10 horas sobre o efeito de energéticos, surfei as ”ondas árvore” bem arisco.

 

Graças a Deus, toda a vez que parto para um local inóspito, a benção é grande e nem o oceano e minha mente negam fogo.

 

Surfamos ondas de cerca de 10 pés, muito mais pesadas do que qualquer onda já vista em nosso litoral. A onda que o local Fabiano Tissot surfou… com certeza não era de madeira, mas digna de uma viagem de subconsciente.

Aloha

 

* Esse tipo de “viagem” ocorre também na adolescência, dobrando o carpete, ou a folha do caderno no formato de uma onda, e surfando ela com os dedos…

 

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