
Quem esteve na I Mostra Internacional da Arte e Cultura Surf, realizada em São Paulo em julho, pôde apreciar quatro quadros do pintor Maritmo. E é provável que muitos leitores da revista Alma Surf, que viram as pinturas dele na última edição (set/out 2004), não tenham idéia de que a história de vida desse pintor carioca de 53 anos teve um importante papel no crescimento do surfe no Brasil nas últimas três décadas.
Mario Cesar Pereira Carneiro, o artista Maritmo, teve desempenho estratégico no crescimento do surfe na década de 70, quando o Rio de Janeiro era ainda a principal locomotiva do esporte, concentrando os mais poderosos veículos especializados da época.

Na ocasião, Mario trabalhou como representante comercial de todas publicações de surfe de peso: Brasil Surf, Visual Esportivo e a revista Realce.
Numa época em que o surfe experimentava um boom de crescimento, mas ainda encontrava forte resistência à abertura de espaços na chamada grande mídia, Mario conseguiu abrir portas para noticias favoráveis ao esporte nos maiores grupos de comunicação do Rio de Janeiro.
Ele foi provavelmente o primeiro surfista brasileiro a transitar entre algumas das maiores figuras da imprensa brasileira, aproveitando com talento as oportunidades para vender uma imagem positiva do esporte.

Além de possuir trânsito total dentro do Jornal do Brasil, Mario desfrutava de portas abertas nos corredores da TV Globo.
Tal prestígio tinha explicação: Mario era sobrinho-neto da Condessa Pereira Carneiro, dona do Jornal do Brasil e uma das mais carismáticas figuras da imprensa brasileira.
O sobrenome ilustre abria portas de relacionamento para Mario, normalmente fechadas aos demais surfistas.
E por ser dotado de refinamento e fluência diante de empresários, presidentes e políticos, Mario impressionava favoravelmente os interlocutores.
“Era comum pessoas da imprensa dizerem que eu nem parecia um surfista, já que eu sempre trabalhava de terno e gravata, tamanho o preconceito contra os surfistas. As pessoas achavam que um surfista jamais seria capaz de sentar numa mesa de negócios e falar de forma fluente, sem maneirismos ou gírias praianas”, conta.
Aproveitando-se do ótimo relacionamento e faro comercial, Mario começou a fechar vários anúncios para as revistas que representava.
Numa de suas iniciativas, ele negociou a publicação do logotipo da Rede Globo naquele que seria o primeiro pôster-calendário publicado numa revista brasileira, a clássica Brasil Surf.
Com o tempo, Mario passou a ser uma espécie de assessor de imprensa informal do surfe, sempre ‘plantando’ notícias sobre o esporte nos jornais, principalmente no JB, onde tinha livre acesso à redação.
A Condessa Pereira Carneiro costumava dizer que para pedir alguma coisa no jornal, ele nem precisava ir até ela. Bastava falar com os chefes da redação para que o atendessem, no caso de possuir uma pauta boa.
Clique aqui para ver a galeria de fotos do surf-artista Maritmo.
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Assim, muitos surfistas tiveram a oportunidade de ver seus nomes publicados pela primeira vez em notícias positivas nos jornais.
Outra atividade que dava muito prestígio era a locução de campeonatos. Mario foi o primeiro locutor de campeonatos dentro do perfil que hoje conhecemos, em que se busca maior aproximação entre o que acontece dentro d`água e o público na areia.
Naquela época, Nelson Machado, dono da lendária loja Waimea e patrocinador dos Waimea 5000, trouxe esse parâmetro de locução ao Brasil depois de assistir um campeonato Op na Califórnia. Nelson, então, pediu para Mario seguir à risca seus conselhos sobre a locução ideal.

Ter Mario no campeonato era sinal de prestígio para o evento, além de uma demonstração de que os patrocinadores estavam investindo, pois seu cachê de locutor chegou a ser o mais caro do Brasil.
Assim, o Waimea 5000 de 1976, vencido por Pepê Lopes, com Jeff Crawford (Pipe Master) em segundo, foi o primeiro campeonato de peso em que ele trabalhou como locutor.
Depois, todos os grandes campeonatos entre 1976 e 1986 tiveram a locução dele. Por isso, Mario foi testemunha privilegiada de toda as edições do Waimea 5000, dos grandes campeonatos no Sul do Brasil no inicio da década de 80 (Olimpykus, Op, Summertime, Taça Primo etc) , além dos grandes circuitos cariocas, como o Realce.

Por conta da intensa participação no mundo do surfe, bem como por seu jeito comunicativo e, de certa forma, político, Mario alcançou uma liderança natural junto aos surfistas. E o fato de ser um surfista convincente reforçava seu prestígio.
Dessa maneira, ele acabou sendo o primeiro presidente da OSP (Organização de Surfistas Profissionais), fundada em 13 de junho de 1985.
Cauli Rodrigues foi o campeão do primeiro circuito e Mario conseguiu a façanha de fazer o atleta ser recebido pelo presidente da Riotur (N.R: órgão municipal de turismo) da época, fato inédito na cidade.
Idealista, Mario trabalhou na presidência da OSP por paixão ao surfe profissional, sem receber qualquer tipo de remuneração.
O reconhecimento dos atletas o levou a ser reeleito por unanimidade ao cargo. Todavia, uma hepatite o derrubou e ele acabou afastando-se definitivamente da entidade.
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Já a aproximação de Mario com a arte se deu de forma quase espontânea. Ele já havia sido air-brusher da fábrica de pranchas do Daniel Friedman entre 75 e 77, o que sem dúvida exige razoável dose de aptidão artística.
Ele também teve experiência com escultura na Escola de Arte do Parque Lage, aprendizado que valeu importante embasamento técnico em benefício do desenho à lápis.
Ao migrar para a pintura em acrílico, Mario inspirou-se nos trabalhos dos havaianos Christian Lassen e Wyland, conhecidos por retratarem o fundo do mar.

Porém, inicialmente a preferência desse carioca foi por animais selvagens, influência da infância freqüentando circos, jardim zoológico e até um passeio sobre uma elefoa indiana na praia do Leblon.
A certeza de que tinha talento para a arte veio no primeiro salão em que participou, ingressando o seu nome artístico M A R I T M O com três quadros retratando cavalos árabes na praia, quando teve a grata surpresa de receber Menção Especial de Honra, entre 750 pintores.
Outras premiações marcaram sua trajetória, sempre pintando animais. De duas obras ele não esquece: um quadro de cabeça de tigre, medalha de ouro; e um quadro com dois cavalos mitológicos, que rendeu uma medalha de prata.
Por conta dessa obra, o quadro e o próprio Maritmo acabaram aparecendo numa cena da novela Araponga, exibida pela Rede Globo.
Os temas ligados ao surfe e aos seres marinhos ganham espaço recentemente e tomaram mais forca com as avançadas tecnologias que passou a utilizar, com a adoção de ferramentas digitais de última geração.
Segundo ele, a pintura digital é o futuro nas artes plásticas. E essa tecnologia permite qualidade de imagem e resolução inimaginável há dez anos.
Maritmo revela que trabalha com uma tablett Intuos2 , utilizando uma caneta e um airbrush sem fio para desenhar, pintando direto no computador.
Depois de gravadas, as artes são levadas para gráficas, onde são impressas em lona à base de tinta solvente em cores ultravioleta, o que garante altíssima qualidade à sua pintura digital.
Todas lonas impressas são colocadas em chassis de cedro, de cunha como qualquer tela para pintura (óleo ou acrílica), em tecido de linho ou lona de algodão.
De resto, Mario leva uma vida tranqüila, pintando as encomendas que recebe no seu apartamento no Leblon. Solteiro, convive com sua irmã Martina, que necessita de cuidados especiais por ser portadora de síndrome de Down (clique aqui para saber mais).
Especial também é sua adaptação à vida normal, acompanhando a irmã quando vai surfar com suas pranchas Hennek 6.0, ou com uma Ricardo Martins 6.6.
Já Martina pega onda de bodyboard, sempre sob o olhar atento do irmão-coruja.
Ao olhar para trás e lembrar tantos anos de paixão e envolvimento total dedicados ao surfe profissional, Mario não demonstra arrependimento.
“Fui testemunha ocular privilegiada do crescimento do surfe profissional no Brasil. E, se pudesse, faria tudo de novo”, garante o surf-artista cercado por seus quadros.
Para entrar em contato com artista Maritmo, envie mensagem para [email protected] .