Incrível como os rituais de passagem são tão importantes nas mais diversas culturas, povos e religiões, e porque não nos esportes também.
Para nós, surfistas, creio que nosso primeiro ?surfari? marca definitivamente a entrada na tribo. Meu primeiro ?surfari? foi nos idos dos anos 1970, mais precisamente em 1978.
Eu já havia iniciado no surf por volta de 1972 quando então com 8 anos pegava minhas primeiras ondas, ainda deitado, nas Planondas.
Depois foram as pranchas Guarujá, também de isopor, e comecei a surfar de pé. Foi um ótimo começo, podendo sentir a onda na mais pura essência.
Os anos se passaram e no Natal de 1976 ganhei de meus pais e avós maternos minha primeira prancha de surf de verdade!!! Uma maravilhosa Lightning Bolt ao melhor estilo Gerry Lopez, fabricada no Guarú pela dupla Jackola / Thyola.
Mesmo já tendo ido surfar em algumas diferentes praias no Guarujá, que não minha querida Pitangueiras, berço de meu surf, ainda faltava aquele primeiro ?surfari?? O convite veio um ano depois da minha Lightning Bolt.
Renato Kubota era amigo da minha irmã Rosana, 6 anos a mais que eu e portanto podia dirigir seu Passat com toda liberdade. E que liberdade? ele literalmente voava pela rodovia dos Tamoios, que dá acesso ao litoral Norte Paulista.
Saímos numa sexta à noite, ouvindo um som dom do Deep Purple no máximo, as pranchas no tradicional rack Week-End, que não sei como não voaram do teto, pois Renato pilotava o carro com o conta-giros lá em cima!!! Cheguei quase a marear nas dezenas curvas sinuosas, algumas de até 180 graus!
Chegando a São Sebastião, partimos ainda de madrugada para a praia de Toque-Toque pequeno por uma estrada de terra ao melhor estilo off-road.
O ar úmido, o cheiro de maresia e o barulho do mar eram alguns dos ingredientes que compunham a gama de sensações que tão intensamente me envolviam naquele momento singular.
Dentro de um condomínio estava nossa casa e foi só o tempo de dormir algumas horas e no sábado acordar num verdadeiro paraíso envolto pela virgem Mata Atlântica daquela época. Apresentado aos amigos do Renato, partimos para Maresias.
Durante a viagem, Kubota havia contado do power das ondas de Marerê, de como a onda era tubular e de mares épicos que já havia surfado lá. Meu coração batia mais forte e com um certo medo, pois minha experiência nas ondas no Guarujá não era tão grande assim. Na verdade me sentia como se estivesse indo surfar no Hawaii!
A ansiedade foi quebrada quando paramos o Passat em frente à praia e vimos que o mar estava praticamente flat. Na verdade fiquei feliz pois achei que o mar estaria enorme e que ficaria na praia vendo o Renato e seus amigos surfarem e eu na areia olhando, o que me deixaria muito frustado.
Passada a adrenalina da expectativa, peguei minha 6?4?monoquilha e fui pra água. A cena foi o oposto do que havia imaginado. Renato ficou na areia e eu, por ser menor e mais leve que ele, arrisquei ver se entrava alguma ?série??
Não entrou nenhuma onda no outside nem quebrou nenhum seriado tubular varrendo a praia, mas lá estava eu surfando sozinho, numa praia absolutamente magnífica, ao som de cigarras e envolto pela mais linda paisagem que até então havia visto e na praia, sentado com uma minha inseparável Pentax K-1000, minha primeira máquina fotográfica reflex, meu ?padrinho? de batismo de ?surfari?.
A pequena onda veio, eu dropei e logo ela acabou. Corri pra areia e perguntei pro Renato: “E aí, fotografou?”.
Ele disse que sim e não deve ter entendido direito minha empolgação, pois na verdade ele era experiente e viajado e acostumado a pegar altas ondas e eu estava na minha primeira viagem de surf e tudo era novidade pra mim.
Voltamos pro Toque-Toque e passei o dia explorando a praia, caminhando pelos costões, absorvendo tudo que podia daquele maravilhoso universo surfístico!!!
Mas ainda não era tudo. À noite, reunido com o Renato e seus amigos, fui surpreendido com uma vontade ininterrupta de urinar. Não parava de ir ao banheiro e cheguei a perguntar para um dos amigos do Renato que era médico o que poderia ser aquilo. Eu nem percebi que uma risada de canto de rosto escapara dele mesmo!
No dia seguinte, já normalizadas minhas funções no rim, durante o café da manhã veio a confirmação. Eles haviam, sob a orientação do próprio doutor, colocado diurético em meu delicioso suco de maracujá e todos foram dormir rindo muito da situação em que haviam me colocado!!!
Eu acabei levando na esportiva e caí na gargalhada, afinal o que estava valendo era que estava definitivamente introduzido na tribo dos surfistas.
Aquele fora meu ritual de passagem para um universo do qual nem eu imaginava o quanto distante iria, através do surf e como fotógrafo de surf que me tornei, fazendo algumas dezenas de ?surfaris? por vários anos, rodando literalmente o mundo com minhas pranchas e máquinas fotográficas.
Hoje, passados mais de 30 anos, agradeço a Deus e aos meus familiares todo apoio que tive para viver o mundo do surf e também aproveito este texto para agradecer ao Renato Kubota, de quem perdi o contato, mas quero deixar expresso aqui meu mais profundo obrigado por ter me dado de presente o meu primeiro ?surfari?, até mesmo com direito a diurético?
