
Nas 10 primeiras posições do ranking, nenhum daqui da favela. Nos top 16, nada.
E nos últimos 10, de 37 pra baixo, temos 5 mortos de fome, lutando pelo prato de comida.
A coisa já andou melhor pro nosso lado, mas agora, pelo menos até agora, a vez é dos condenados, convicts, como os americanos gostam de chamar aos australianos.
Vejamos: nos top 10 temos nada mais, nada menos do que 8, vou escrever, oito malandros nascidos na terra de Oz. E quem sobra ? Andy Irons e Kelly Slater?
Tirando o Luke Egan, Occy e o próprio Robert K. todo mundo anda na faixa dos 25 pra baixo, o que finalmente mostra que há renovação no surfe mundial.
Fosse o circuito todo realizado em ondas medíocres vocês apostavam um dedo da mão que o resultado seria outro? Eu digo que não.
Em 96, por exemplo, Luke Egan deu adeus às suas chances de título quando esbarrou no Carlos Leite uma meia dúzia de vezes, sempre garfadinho, quando dava. 2002 foi a doce revanche do goofy. Egan esmigalhou as aspirações do K.S ao hepta.

Com 30 anos, Slater pode fazer a barreira dos 35 parecer uma mera brincadeira, se isso lhe apetecer. Os brios de um verdadeiro campeão são coisa que dificilmente um mortal qualquer, assim como nós, pode conceber – é sentar e assistir.
Posso contar uma histórinha?
Lembrei agora. Passava-se o longínquo ano de 1997 e o Havaí era uma ilha (!!!) de tranquilidade, Pipeline sempre sem crowd, os locais gentis e o sentimento do “Aloha’ reinava na costa norte de Oahu.
O evento – sim, um evento! – chamava-se Pipeline Masters e na bateria final estavam dois havaianos gente-fina, um chamado João Garoto do Angu do Gomes e o outro, levemente mais experiente, quase com idade para ser seu tio, era o Michael Ho, irmão mais velho do Derek, aquele que foi campeão mundial e nos envergonhou durante um ano inteiro.
Juntos, João Garoto e Ho somavam 79 aninhos. Sim, amiguinhos, em Pipeline.
Com ondas de verdade, pau comendo solto, Johny Boy fez a mala do KS duas vezes, e ainda comeu o rabo do Kalani e do Dorian. JBG tinha 37 primaveras. Michael Ho, 42?
Assustados?
A

gora imaginem o que o Slater, Machado, Knox e cia vão fazer quando chegar nessa idade? Chego até a ficar arrepiado, rapaz.
No nosso lado, temos o Gouveia que, apesar da idade chegando, cada dia melhora mais em ondas de qualidade. Perguntem a qualquer um.
Quem é o brasileiro que mais treina em Teahupo? Dornelles vai gritar lá do fundo: O Fabinho!
E no Havaí, quem é o cabra que passa mais tempo dentro d’água? Vai sair o Neco lá de dentro do carro, escondido, e falar baixinho: o Fia, não tenha dúvidas.
Conseguimos manter nove machos no WCT, o que não deixa de ser um acontecimento, desde que a imprensa faz pouco caso e os empresários estão cada vez mais distantes da praia.
Mas nada se compara, e nós precisamos nos comparar com os melhores sempre, com a nova geração australiana que entrou pra bagunçar o coreto.
A resposta deve vir com o ataque guerrilheiro dos milicianos terceiro mundistas: Léo Neves,

que chega em 2003 assessorado pelo Bocão, aumentando em mais uns 30 % suas chances de sucesso; Trekinho, cada vez mais consistente e reconhecido internacionalmente com desempenhos excepcionais, como no campeonato de Maldivas; Pigmeu, tube rider de nascença, Raoni, uma bomba de talento prestes a explodir a qualquer momento, unidos com a raça e determinação de um Yuri e a maestria genética do Danylo Grilo. James Santos, Marco Polo e Heitor Pereira podem engrossar o caldo se conseguirem manter o ritmo e seus patrocinadores.
Dos novos aussies nos 45, Toby Martin, Luke Stedman, Tom Whitaker e Darren O’ Rafferty, reincidente, não oferecem perigo algum. Vão aproveitar as festas e as ondas maravilhosas do circuito e se tudo der certo, se mantem nos 45.