
Vocês já imaginaram se o Hawaii fosse no Brasil? Com certeza muitos já sonharam com essa possibilidade, afinal não seria preciso gastar tanta grana para desfrutar das melhores e maiores ondas do mundo, e ainda não precisaríamos aguentar o temido localismo havaiano.
Olha que o buraco é mais embaixo. Se tivessemos a qualidade das ondas havaianas no Rio de Janeiro, por exemplo, a maioria de vocês provavelmente esperaria mais tempo no line up para pegar uma da série do que se estivesse no “real” outside de Pipeline.
Nosso território é muito grande, e o localismo em cada local seria fortíssimo. Com certeza a galera menos favorecida economicamente deslumbraria uma oportunidade de vida ao desafiar e também curtir surfar um tubo “Ao estilo Pipe” no Quebra-Mar, no Rio de Janeiro. Imaginem o crowd e “cordialidade” dos locais brasileiros…
Tiros e arrastões são algumas de nossas peculiariedades. Outro dia vi uma garotada guardando as armas nas pedras do Sobre as Ondas, no Guarujá, antes da caída, e já no outside a mulecadinha de cerca de 12 anos fala grosso em posse “do canhão”.

Imaginem os gringos parando seus carros alugados no Quebra, Atalaia (SC), ou no canto de Itamambuca (SP), se quebrasse uma onda linda como Waimea, Honolua ou Rocky Point em um dos picos citados acima.
Só para completar, nosso país é imensamente maior do que o Estado do Hawaii e, consequentemente, o número de praticantes também seria…
Ao meu ver os havaianos são tranquilos perto do que seriam os brasileiros se estivessem no lugar deles.
Duvido que a rapaziada daqui iria deixar sobrar onda para os forasteiros, como os havaianos deixam por aqui. De jeito nenhum! Se bobear iriam rolar facadas e até revólveres à prova d’água. Fora as gangues tipo “arrastão” nas areias esperando por intrusos.
Os gritos e socos ainda falam mais alto nas areias polinésias, mas no Brasil quem grita mais alto é o “berro” ou “canhão”, como acharem melhor. Ou até a velha e simples porrada mesmo, afinal quantas brigas vocês já não presenciaram na praia, sem intervenção de polícia ou de qualquer cidadão?
As leis falam por si próprias. Enquanto no Brasil reina a impunidade, aqui na América basta um fio de cabelo fora do lugar para ir parar na cadeia. Deus não faz nada por acaso, e ele deve ter pensado nisso antes de colocar o Hawaii onde ele exatamente é. Nada de sonhos…

Impressionante é como nós tratamos bem nossos visitantes, na maioria das regiões. A falta de grandes ídolos, ondas de sonho, e de principalmente um sangue quente fazem com que tratemos os gringos muito melhor do que eles nos tratam por aqui.
Quantos desses havaianos já vi sorrirem para mim quando estão no Brasil, e quando estão no Hawaii fingem que nunca me viram? É claro que existem exceções.
Eles podem ter as ondas, mas a amizade e o sangue quente que corre nas nossas veias, nem de longe. As mulheres então…
O Hawaii é aqui mesmo, no Pacífico Norte, e quem quer realmente realizar o sonho de surfar as mais pesadas ondas do planeta terá que juntar uma grana e só ter alguma paciência para ter seu lugar ao sol.
*( texto originalmente publicado na coluna de Sylvio Mancusi na Revista Venice)