
Duas notícias recentes mexeram com os brios dos atletas brasileiros que estão na disputa do Circuito Mundial WQS, principalmente a galera tida como “nova geração”.
Em artigo publicado no jornal Nuts, Taiu pergunta onde está a “nossa” nova geração. “Enquanto a nova geração australiana, havaiana, americana…. já esta entrando no wct, nada dos nossos…..”
Marcos Conde, no Waves e no jornal O Lance! afirma: “Salvo Raoni Monteiro e Bruno Santos – que está tendo um bom começo de ano – os outros atletas nossos ainda não acordaram para o WQS”.

Como jornalista, acabei por investir a minha grana e os meus 30 dias de férias numa viagem para as Maldivas, onde pude acompanhar de perto uma das etapas do Circuito Mundial WQS.
Tenho 15 anos de surf e 10 ligado às competições. Achei válido ver de perto a vida dos brasileiros no tour, como anda a nova geração dos outros países, o tal do julgamento etc.
Entrevistei praticamente todos os 28 atletas brasileiros inscritos na competição. E, com base nestas entrevistas e no que ouvi dos juízes e da imprensa internacional, vou tentar responder a pergunta que muitos fazem.

Dos 29 brazucas que estão disputando o WQS pra valer, nove já são do WCT. Quatro, são ex-WCT tentando voltar. Outros quatro estão sem patrocínio ou ganham tão pouco que não vão disputar o circuito todo. Outros seis têm obstáculos “extra-praia” a superar, sobretudo questões familiares, que não me cabe aqui comentar.
Então, a nossa nova geração com potêncial real para chegar ainda este ou no próximo ano, se resume a não mais do que quatro a seis atleas.
Raoni Monteiro, Marcelo Trekinho e Bernardo Pigmeu são as minhas apostas!
E, para este número aumentar, mudanças de atitude dos atletas e dos seus respectivos empresários terão de mudar radicalmente. E explico:
1) De todos os atletas na disputa do WQS, 80% não têm a verba mínima necessária para disputar o circuito todo. A maioria torce para ganhar dinheiro numa etapa para ajudar a bancar a viagem seguinte.
2) Os empresários não estão contratando um atleta para “chegar” no WCT, mas apenas para “disputar” o WQS. Aí, é fácil. É só dar uns dólares para o cara, mesmo sabendo que não é o valor correto, e ainda nem ajuda a fechar outras parcerias que possam chegar aos US$ 2.5 mil por mês necessários para encarar o tour.
Pior estão os caras do WCT. Apenas 30% têm o tour bancado. E, vejam que eles são a nossa elite.
3) Se nós competimos contra aqueles que têm o talento nato e surfam sempre em ondas perfeitas, precisamos correr atrás com etrutura que compense. Quem dera pudéssemos ter Marcos Conde e outros técnicos juntos nas competições internacionais?
Que tal as entidades brasileiras de surf reunir a “tchurma” e todos comprarem juntos suas passagens e assim baratearem os custos?
4) Precisamos também de uma evolução no relacionamento entre surfistas e managers, porque sozinho ninguém chega.
Para deixarmos o atleta tranquilo só para treinar e competir, é importante cada um ter alguém para montar uma estrutura com nutricionista, psicólogo, preparador físico, seguro-saúde, plano de previdência privado….
Nas Maldivas, dois atletas nossos – sem manager – tiveram que entrar na primeira fase porque o patrocinador perdeu o prazo de inscrição. Resultado: não chegaram nem perto do evento principal e os US$ 2,5 mil investidos foram pro espaço, além de que os míseros pontos conquistados não renderam nada.
No surf, não devemos nada e ainda entramos com muito mais garra do que muitos gringos. E, apesar de tudo, voltei convicto para responder a quem perguntar: sabe quando vamos ter a nossa “nova geração” no WCT?
Em breve, mais rápido do que muitos imaginam.
Rodrigo Tusca é jornalista da TV Globo (PR)