O fenômeno Uri Valadão

Campeão baiano em todas as categorias, campeão brasileiro amador, campeão brasileiro profissional, vice-campeão mundial da segunda divisão, finalista do Isa games na África do Sul.

 

Este é um breve histórico do fenômeno Uri Valadão, atleta de 19 anos, sendo sete deles dedicados ao bodyboard.

 

Seu talento é um fato, subiu para o Super Tour de maneira vertical e impressionante, com performances que marcaram a história do bodyboard nacional. Enfrentou com garra e humildade, barreiras e dificuldades. 

 

E teve a frieza de manter o equilíbrio para tomar decisões importantes, como a de escolher o bodyboard como seu caminho profissional, seguindo seu sonho de criança e assumindo os riscos e as incertezas deste caminho.

 

É também um fato, a crise pela qual o esporte vem passando desde o início da década de 90. Pouca infra-estrutura, pouco reconhecimento por parte da mídia e conseqüentemente, da sociedade.

 

Chegou ao ponto de vermos o maior atleta do bodyboard mundial e um dos maiores do Brasil em todos os esportes, Guilherme Tâmega, que, apesar de seus feitos históricos e heróicos, anda despercebidamente pelas ruas do país.

 

Como conseqüência da pouca infra-estrutura, é comum observarmos grandes nomes do bodyboard nacional se afundarem na falta de perspectiva profissional, sendo obrigados a abandonar precocemente suas carreiras esportivas. Acabam por deixar uma lacuna em branco na história do esporte no Brasil.

 

Insisto em bater neste velho assunto, tão discutido nas rodas de diretores do esporte, nas rodas de atletas e entre os simpatizantes do bodyboard. Com tantos porquês e tantos questionamentos do tipo: ?Como pode? Temos tudo, os melhores atletas do mundo…?.

 

Tudo isso demonstra um único sentimento, que é compartilhado por todos, a angústia de trabalhar, sonhar e esperar por tempos melhores.

 

Desviei um pouco do tema Uri, para esclarecer uma questão muito importante para os nossos futuros atletas profissionais, nossos iniciantes e aqueles que os olhos brilham e os corações aceleram de emoção ao sonhar e idealizar uma carreira esportiva. Meu intuito não é, de maneira nenhuma, a desmotivação, mas sim, ilustrar a realidade, para que todos saibam o que lhes espera mais adiante. E se ainda assim decidirem enfrentar os

problemas, meu desejo é de muito sucesso e felicidade.

 

Traduzirei a realidade do nosso esporte através de Uri Valadão. Não preciso explicar novamente que se trata de um dos maiores competidores brasileiros de todos os tempos. Uri ralou muito para chegar ao Super Tour e quando isso aconteceu, não tinha dinheiro para viajar.

 

Cancelou sua ida para Shark Island, na Austrália, onde deveria disputar a primeira etapa deste ano e somente está em Portugal graças novamente à sua perseverança e garra.

 

Imaginem que, para poder viajar para Portugal, ele teve que vencer a etapa do brasileiro válida pelo WQT em Rio das Ostras, superando Guilherme Tâmega e faturando uma premiação que garantiria, de maneira sacrificante, a viagem até Portugal.

 

Já tem algum tempo que Uri vem cambaleando, sofrendo e lutando para fazer as viagens básicas tão necessárias para algum progresso no esporte e em sua carreira. Recordo-me bem de todas as suas viagens internacionais, o Isa games na África do Sul, as duas primeiras viagens a Portugal.

 

Duas trips de treinamento para Noronha, a viagem a República Dominicana e, por fim, o Hawaii no começo deste ano. Todas, sem exceção, foram bancadas por seu maior patrocinador. Ele mesmo! É simples, em quase todas estas viagens, ele precisava vencer ou se dar muito bem para recuperar o dinheiro que havia investido.

 

Foi assim quando ficou com a quinta colocação em Portugal, no ano passado. Ele só foi eliminado por GT, nas quartas de final Homem X Homem. Foi assim também em sua ida a República Dominicana, precisava vencer o evento para recuperar o investimento da

viagem, e assim fez.

 

Isso sem falar na sua coragem e patriotismo, gastando uma fortuna para representar o país no ISA games, viagem completamente custeada pelas premiações ganhas no circuito nacional. Uri sabia que por melhor que fosse o resultado no evento, não recuperaria nenhum centavo.

 

E mesmo diante de tanta pressão e falta de perspectivas, o vejo  treinando diariamente, sonhando e acreditando. Fazendo sua parte com amor. São quase oito anos acompanhando sua carreira e vendo que seu entusiasmo em momento nenhum sofreu sequer um abalo.

 

Sei que esta não é somente a realidade dele, mas a realidade da grande maioria dos atletas brasileiros, até os de esportes olímpicos, que às vezes conseguem alguma ajuda de patrocinadores somente na véspera dos jogos, quando a mídia e as grandes empresas nacionais correm para sugar o que resta do esporte brasileiro, salvo raríssimas exceções.

 

Fico por aqui me perguntando por quanto tempo mais Uri será ignorado… O que mais precisa provar para que receba o investimento mínimo que lhe dê condições de sustentar este sonho?

 

Sonho esse, compartilhado por muitas pessoas que acompanham sua trajetória, pessoas que possuem a consciência de que nele estão todos os ingredientes necessários para a construção de um grande ídolo esportivo, uma pessoa cuja capacidade é tão grande, quanto sua capacidade de amar o próximo e de compactuar dos seus flagelos.

 

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