Soul Surf

O divisor de águas

 

Laird Hamilton em Teahupoo, Tahiti, num dia menos punk que 17 de agosto de 2000. Foto: Tim McKenna.com.

Algum tempo depois de surfar a onda mais “malévola” de todos os tempos em Teahupoo, Tahiti, no “day of days” em 17 de agosto de 2000 – já faz uma década! -, o surfista havaiano Laird Hamilton exibiu o vídeo em um telão para nós, – antes do próprio filme ser melhor editado e distribuído -, no antigo Legends, do meu amigo Mark Lund, em Maresias (SP), por ocasião de um evento local.

 

 

Posteriormente, a foto de capa da revista Surfer, exibindo o mostrengo sendo surfado com postura, dignidade e uma calma sobrenatural por Laird, viria acompanhada dos dizeres: “Oh, my God!”.

 

Aquela onda foi algo de inacreditável, acima de todos os parâmetros conhecidos. Eu, como todos os presentes, fiquei em estado de choque. A onda emanava uma vibração impiedosamente destruidora.

 

Como algo não só vivo, como consciente. Soube que Laird chorou de emoção assim que saiu dela pelo canal, e que depois, durante uma semana, já de volta ao seu lar, em Maui, Hawaii, praticamente não conseguia falar.

 

Naquele momento, assim que terminou o vídeo, ainda em estado de choque, obedeci ao meu primeiro impulso, fui até o Laird, estendi o braço e ele apertou a minha mão. Eu disse: “You are blessed” (Você é abençoado). Ele sorriu e respondeu simplesmente: “I know” (Eu sei).

 

O que aconteceu no Tahiti foi um momento de transcendência. Laird transitou em outra dimensão e voltou inteiro para contar. Aquela onda confrontava e destruía todos os paradigmas anteriores, como se outra esfera de percepção e vivência houvesse sido atingida.

 

Estou aqui gastando palavras e palavras tentando chegar perto do significado, do sentimento, do que aconteceu, mas só Laird, ou talvez nem ele, possa compreender e apreender aquilo em toda a sua magnífica realidade.

 

Literalmente um “divisor de águas” na história do surf. E é verdade. Aquela onda dividiu o próprio oceano e a nossa história como surfistas ao meio. Laird visitou o outro mundo. Um privilégio e um merecimento.

 

O interessante é que, apesar de poder ser considerado o melhor surfista de ondas grandes do século, ter tido um padrasto big rider respeitadíssimo – Bill Hamilton, ser dono de uma psique e de um físico privilegiado, ser local e conhecer cada caverna e cabeça de coral do fundo de Pea´hi (Jaws), ter como amigos e companhia os mais visionários, ousados e destemidos surfistas do planeta – Darick Doener, Dave Kalama, Brock Little, etc -, e ter se preparado durante toda a sua vida para aquele momento, a qualidade que permitiu que ele conseguisse surfar aquela onda está além de tudo isso.

 

Toda a sua história, a sua condição física e a sua força mental consciente não bastariam. Ele entrou em sintonia com o oceano. Transcendeu. Foi, por instantes, parte do todo oceânico, do universo. Sem essa condição, esse abandono, não teria sobrevivido. Foram naqueles instintivos segundos cruciais, no bojo do monstro, quando ele permitiu que o espírito tomasse conta e guiasse a carne, que o seu destino pôde fluir.

 

Por causa disso, naqueles instantes, foi capaz de transformar o medo em coragem, o pânico em consciência, a morte certa num leve voo para a liberdade. Ficamos de olhos fixos nas imagens, naquela noite, perplexos com a presença quase palpável de algo que todos nós buscamos e nem sabemos nomear.

 

Naquela noite, todos nós pudemos sentir algo maior que a nossa existência. Por esse motivo todos se arrepiaram. Presenciamos mudos e estáticos um dos raríssimos momentos em que o homem chegou perto de Deus. E pudemos, assim, com muita alegria e certa segurança, pegar uma carona no divino.

 

Clique aqui para ver o vídeo da onda de Laird Hamilton no YouTube.

 

Sidão Tenucci é escritor e surfista há 42 anos. Viajou por 50 países. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Autor dos livros Almaquatica (Fnac) e O Surfista Peregrino (Livraria Cultura), mas trocaria tudo isso por um só segundo surfado naquela onda de Teahupoo.

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