
Esse foi o primeiro ano em que uma mulher foi coroada campeã do Billabong XXL. Jamilah Star quebrou o tabu com uma onda surfada em Waimea Bay, Hawaii.
Local de Maverick’s, na Califórnia, ela sempre foi vista pegando altas ondas no temido pico.
Nas últimas cinco temporadas havaianas Star botou para baixo nas maiores ondulações.
Eu mesmo já surfei com ela excelentes ondas em Sunset 12 a 15 pés – e ela surfa muito mais do que muitos profissionais que já vi por lá.

Jamilah disputou o prêmio de US$ 5 mil com mais duas colegas, Kim Harmock, que concorreu com uma onda surfada em Sunset, e Jen Useldinger, com uma bomba em Maverick’s.
Mostrando ser uma esportista acima de tudo, Star levou as duas amigas ao pódio na festa de premiação e juntas cantaram uma canção.
Nesta entrevista, concedida ao site Surfline.com, ela conta um pouco de suas experiências, uma delas bastante marcante em Waimea Bay.
Como se não bastasse ser corajosa o suficiente para dropar Waimea, durante a premiação do XXL você ainda cantou um “rap” com suas amigas Jen Useldinger e Kim Hamrock.
É, nós fizemos. Eu me lembro.
O barulho era alto demais, não deu para ouvir direito a letra. Você pode repetir aqui?
A equipe JAM chegou na cidade
Nós somos o pior sabor para sentir por aí
Nós amamos surfar
E encarar as ondas grandes
Nós gostamos de nos divertir
E sermos fortes
Muito fortes.
Muito bacana. Charmoso também.
O resto foi tema livre. Normalmente terminamos a música cantando “Sem drogas. Não queremos drogas”. Mas não chegamos tão longe.
Adrenalina é a sua droga.
Sim. Obrigado. As frases da minha equipe são: quanto maior melhor! E com fé não há limites! Sem fé tudo que você tem é ilusão da Babilônia.
Então Kim Hamrock, Jen Useldinger e você formam a equipe JAM?
Elas moraram comigo no North Shore na última temporada e nossa performance foi
impressionante. Mas elas são apenas duas dos cerca de trinta membros da equipe JAM – um inspirado grupo de profissionais com a mesma paixão e objetivos. Nossa paixão é: “O oceano e a vida por si próprias com suas glórias e mistérios”. Nossos objetivos giram em duas categorias: surfar e dar algo em troca. Existem três áreas que queremos ajudar: meio-ambiente; educação de crianças e adultos; e populações nativas sem abrigo. Nós treinamos, surfamos, cantamos e fazemos tudo que podemos para tornar esse mundo um lugar mais feliz e prazeroso.
##

A onda que venceu o XXL foi a maior que você já surfou?
Eu não julgo nada, nem ondas. Apenas sei que desci uns cinco andares. Cada andar deve ter uns três metros. Em Maverick’s a cada andar vem um degrau. Eu peguei uma bem grande lá depois do campeonato. Esse ano eu estava focada em dropar no pico em Waimea. Isso realmente deixa a sessão mais intensa. No maior swell do ano, com Owl Chapman de técnico, eu peguei onze ondas em Waimea, várias em torno dos 20 pés. Se você fizer a conta, 11 ondas de 20 pés geram um total de 444 pés dropados em um dia. Na manhã seguinte fui fazer tow-in em Jaws. Depois de tudo isso fiquei bem cansada.

Eu gostaria de saber por que Jen não foi nomeada finalista depois de surfar Maverick’s?
Eu vou ter que responder essa questão com outra pergunta. Por quê as revistas não promovem as surfistas de ondas grandes? Essa questão pode ser endereçada ao Bill Sharp.
Também houve comentários sobre ondas surfadas por mulheres em Jaws que não foram finalistas.
Eu estava em Jaws no dia em que o jet com as mulheres virou. Surfar de tow-in alguns dias em Jaws não qualifica ninguém como big rider. Quando eu fiz tow-in em Jaws tinha somente 30 pés de face. Era um dia pequeno e eu não iria questionar o fato de não ter sido finalista com uma daquelas ondas, mas sei que quanto mais tempo eu passar no pico, mas preparada estarei. Eu diria a essas meninas que surfassem mais e treinassem mais em ondas gigantes na remada. Aquilo não é um jogo. Você precisa estar preparada para as conseqüências, sejam quais forem.
Roger Erickson profetizou: “Está tudo bem, até não estar mais”.
Isso é verdade. Posso contar uma história?
Claro, fique à vontade.
Eu já tive acidentes sérios, mas este ano sofri o pior. Isso rolou em um dia de sol em Waimea. Nós estávamos morando no Vale, então tínhamos somente que andar para chegar no pico. Cheguei na praia e as ondas pareciam pequenas. Cerca de 15 pés. Então fiz a minha oração e fui surfar. Surfei cerca de seis ondas, mas uma foi especial, uma das melhores da minha vida e eu quase entubei. Estava sentada bem atrás do pico descendo tudo o que vinha pela frente. Mas em uma delas eu disputei a onda com um cara e vi que ele iria me rabear e não fui. Foi o pior erro da minha vida. Quando olhei para trás veio uma série enorme fechando tudo e antes de mergulhar, três pranchas vieram na minha direção e tive que me proteger com o braço para não ser atingida na cara. Então antes de mergulhar a crista já estava quebrando na minha frente. Não tive tempo nem de respirar, minha cordinha enrolou no meu corpo e no instante seguinte desenrolou e eu perdi o equilíbrio.
Os big riders mais casca-grossas, de Flea Virostko a Laird Hamilton, e agora você, falam a mesma coisa: eles não acreditam o quanto violento é, e eles não acreditam como sobreviveram.
Antes que eu conseguisse me livrar de toda aquela cordinha eu fui dragada pelo lip com minha 10’8 e jogada 30 pés para o fundo. Eu me lembro pensando: “Ôpa, está escuro aqui embaixo”. Calmamente fui nadando para a luz e percebi que uma onda poderia quebrar assim que emergisse, então precisava ir rápido. Cheguei na superfície e tinha muita espuma, mas eu ainda conseguia respirar. Usei toda a minha força para tomar o ar e outra onda me pegou. Minha cara estava de lado, então ela bateu nos ouvidos. Dessa vez, quando eu fui jogada para o fundo, me senti calma. Todo o nervosismo tinha sumido. Tudo que eu sentia era meu corpo sendo dragado pela cordinha. Vários pensamentos passaram pela minha cabeça. Um deles era que eu tinha um círculo rosa nos cabelos. Eu me sentia muito bonita e seria triste se eu me afogasse com aquele círculo na cabeça.
##

Engraçado o que você pensa quando está se afogando.
Outro pensamento que tive: “Treinei tanto e não consigo nem mover meus braços?”. Naquele momento minha mente parou e fui levada para um outro mundo. Vi o rosto da minha mãe no paraíso, estava ventando. Ela estava tão bonita e saudável.
Sua mãe faleceu?
Ela morreu na semana que comecei a surfar Waimea, cinco anos atrás. Durante minha visão, ela pegou meu cabelo e delicadamente o colocou atrás da minha cabeça. Suas palavras foram gentis e amorosas: “Volte minha querida, não é a sua vez”. Eu respondi: “Mãe, eu não quero ir”. Depois tudo o que vi foram espécies de “portas”. Foi a mais forte visão da minha vida. Dois círculos brilhantes de ouro, que mudavam de cor, quentes, eufóricos e convidativos. Assim que eles foram desaparecendo eu comecei a orar: “Por favor, Deus, me leve à superfície”. E como se Deus tivesse me puxado para cima eu saí da água. Nunca respirei tão fundo, parecia que meus pulmões iriam explodir. Ainda levei algumas ondas na cabeça, mas nada comparado ao caldo que acabara de levar. Eu não tinha idéia de como meu corpo tinha submergido. Tudo que eu sei é que vi minha mãe e ela está bem. Então voltei para o fundo e surfei por mais uma hora, para tirar a má impressão.
Você é maluca, ainda continuou na água depois de tudo isso?
Quando eu cheguei na praia eu chorei. Nunca me senti tão perto de Deus e nunca mais serei a mesma pessoa depois disso.
Caramba, isso foi intenso. O que você fará com os US$ 5 mil de prêmio?
Eu comprei uma passagem para meu pai vir ao Hawaii, amo muito ele. Surfamos juntos a semana toda, tocamos música com a equipe JAM em nossa casa em Rocky Point. Também emprestei a ele minha Erick Arakawa novinha e ele arrepiou, caiu até no Backdoor. Era meu sonho passar uns dias com ele aqui na ilha. Pretendo levar Jen para Puerto Escondido e talvez Tahiti. Ela é uma das minhas melhores amigas e eu faria tudo por ela. Ajudei o técnico da equipe JAM Ariel Sanchez a rever a filha que não via há seis anos e vou patrocinar Cris Owens em uma travessia de remada de Sunset para o Kauai. Se fizer, ele será o segundo homem na história a completar o trajeto. O resto do dinheiro eu devo gastar surfando. Dinheiro para mim é que nem água, tem que fluir. Procuro nunca ter muito dinheiro, assim nunca preciso de muito.
Qual é a próxima para Jamilah Star?
Minha banda JAM STAR e Underground irá gravar seu primeiro CD, dedicado à minha mãe, e iremos trabalharei nos produtos da nossa marca.
Você é uma surfista diferente da maioria.
Eu não sou como as outras profissionais. Sou uma surfista de alma tentando viver para Deus. Nasci para surfar essas ondas, está no meu coração. Meus planos no surf são maiores do que minhas performances. Quero dar de volta tudo o que recebi até hoje. Minhas novas pranchas são todas amarelas, como as portas que vi, para me lembrar o quanto estamos próximos das porteiras do céu.
Agradecimentos ao site TowSurfer.com e Ben Marcus (Surfline.com).