Existe uma crença na Indonésia que é bastante conhecida e levada a sério sobre a maldição do bad karma. Reza a lenda que lá é o lugar onde as pessoas pagam por todos os erros e pecados que cometeram ao longo de suas vidas.
Funciona mais ou menos assim: você finalmente consegue realizar o seu sonho de ir para Indonésia, que é, sem dúvida, um dos maiores desejos de qualquer surfista. Mas além de boas ondas, praias paradisíacas, festas e toda a diversão que você espera encontrar por lá, você recebe junto de brinde, no pacote, algumas situações desagradáveis e indesejadas como punição pelas suas merdas passadas.
Quem nunca pecou que atire a primeira pedra (ou que saia ileso da Indonésia!). Eu sei que já fiz muitas cagadas na minha vida e mesmo assim, descrente ou destemido, eu ainda me arrisco a ir pra lá. Já sobrevivi a quatro viagens e enfrentei uma quantidade de roubadas ou “castigos” que não consigo mais nem contar. Eu já me cortei no coral, já tomei um monte de caldos e já passei por mais uma porrada de perrengues naquele lugar. Talvez até mais do que eu merecia. Posso estar no lucro! Mas a todo momento, em qualquer lugar, não é assim que as coisas são?
Com todo respeito a quem acredita em qualquer tipo de misticismo e superstição, o bad karma, para mim, nada mais é do que vacilo e consequências das nossas próprias ações. Eu li uma vez em algum lugar que a gente não escolhe as consequências, mas escolhe as ações que as provocam.
Acho também que seguir acreditando em conceitos estrategicamente criados e implantadas nas nossas mentes, e condicionar a nossa vida por um bando de histórias da carochinha não é a melhor maneira de compreender e superar as situações. Ou é falta de conhecimento ou é pura alienação.
Acreditar em Deus é uma coisa. Agora creditar a ele, aos desígnios divinos ou aos dogmas de cada cultura e religião a responsabilidade por tudo que nos acontece e, principalmente, que não encontramos solução já é outra questão.
É mais fácil? É. É mais cômodo? Também é. Ou como diria o bom e velho Marx, a religião é o ópio do povo. Mas talvez, talvez – porque eu não sou o dono da verdade apesar de ter minhas próprias crenças e opinião, essa não é a realidade e nem ao menos a solução.
Cada um colhe o que planta. Talvez a punição e a recompensa espiritual sejam apenas física, lei da ação e reação. E além disso, que Deus ranzinza é esse que nos ensina o perdão mas quando a gente menos espera, num paraíso como a Indonésia, nos tasca um belo de um castigo pelos nossos erros, defeitos e limitações?
Talvez os cortes podem ser apenas consequências de manobras mal feitas ou arriscadas demais naquelas situações. Talvez os “bad karmas” podem ser consequências do grau de periculosidade, das bancadas rasas de corais afiados q surfamos, das bebedeiras nas festas que podem tornar os acidentes inevitáveis, a displicência nas ações e a lista segue em frente.
Mas, além disso, lá também tem a companhia dos amigos, o sossego debaixo dos coqueiros, as ondas de Sumbawa, Keramas, Desert Point e mais uma porrada de coisa muito legal acontecendo. Tudo isso, na caso coisas boas, podem ser chamadas de que forma?
Não adianta, na Indonésia ou em qualquer outro lugar, é assim que as coisas são e é assim que a vida é. Esta aí mais um exemplo, mesmo com todos os empecilhos, de outro final feliz vindo de lá.
Foto de capa Pedro Felizardo