O anjo da guarda dos big riders

A californiana Shawn Alladio, 42, é considerada uma supermulher pelos big riders que frequentam Mavericks e os eventos em que ela trabalha no resgate com sua equipe, a K38. Carlos Burle, Peter Mel e Flea Virostko são alguns dos nomes que a tem como um anjo da guarda quando as ondas superam os 40 pés de frente.

 

No cartel, experiências desafiadoras, como encarar a maior série já vista em Mavericks no dia em que o Burle surfou a maior onda até hoje, estimada em 68 pés. A heroína foi a última a ficar na água e presenciou uma aberração da natureza: a maior série vista no pico, estimada em 120 pés.

 

Nessa entrevista exclusiva, ela fala dos pioneiros na arte do resgate nos esportes radicais aquaticos, sonhos e o problema que o tow-in tem criado nos lugares onde é praticado de forma indevida. Ela também revela que será mãe pela segunda vez.

Como você começou a trabalhar com resgates?

Isso começou quando eu era uma pequena garota que levava para casa passarinhos e bichos marinhos machucados em Pacific Grove, Califórnia. Minha infância não foi fácil, e eu ajudei a muitos e a mim mesma a sobreviverem com as dificuldades.

 

Comprei um jet-ski em pé em 1979 e eu o dirigia sempre e ajudava a muitos barcos que estavam na roubada, pois nunca havia ninguém para ajudá-los não fosse eu. Foi assim que tudo começou, sempre o tempo todo na água e sem medo de me envolver. Eu não fiz nenhum curso, eu mesma desenvolvi meus projetos e não tive nenhum apoio do governo, assim, eu sempre venci do modo mais difícil.

 

Em 1989, perguntaram se eu não estaria disposta a treinar alguns profissionais e foi ali que o aspecto educational começou. Fui chamada por Gary Linden em 1998 para trabalhar no resgate do Mundial de Ondas Grandes em Todos os Santos, no México. Foi a primeira vez que trabalhei em dias de ondas gigantes e Linden foi o único promotor de eventos que trabalhei até agora que tem alguma integridade.

Ele também é responsável pela carreira de vários atletas de ondas grandes, e é um verdadeiro herói nacional pela dedicação ao surfe mundo afora, inquestionável. (Nota do autor: Gary Linden é muito conhecido pelos brasileiros, afinal possui casa em Saquarema, onde inclusive já morou. Também foi promotor do evento patrocinado pela Red Bull este ano, coberto pela TV Globo e Revista Fluir).
 

Desde o começo você trabalha com jet-skis nos resgates?

 

Desde 1979, em Newport Beach, California. Comprei um jet por US$ 1.8 mil e na sequência ganhei uma multa de US$ 1.2 mil por dirigir perigosamente. Eu tinha 18 anos e me dei conta que eu tinha muito o que aprender sobre ser usuária de barco, em vez de querer só me divertir. Existe uma grande responsabilidade para poder se divertir. Sim, isso foi há 24 anos, mais do que a metade da minha vida agora.

 

Quem foram seus ídolos, pessoas que te influenciaram? E quais os profissionais que trabalharam com resgate antes de você?

 

Brad Southworth, Ronny Kling, Chuck Koontz e Steve Strickland foram os criadores do trabalho com resgate com barcos e jets no fim dos anos 70, começo dos 80, em jet-skis em pé.

Eu me considero como a segunda geração dessa modalidade. Aprendi muito com Brad e Ronny nos primeiros dias, especialmente quando eles me resgataram e me ”embalaram” levando para o hospital. Eles são veteranos da guerra do Vietnã e sempre foram muito preocupados com a segurança dos outros. Chuck Koontz foi a pessoa que teve a idéia de criar um grupo de resgate no sul da Califórnia para ajudar a galera que participava de corridas de jet.

 

E a partir dali começaram a se desenvolver as técnicas de resgate, e é claro que sofriam com as limitações dos equipamentos da época. Eles merecem todo o crédito. Eles também foram os envolvidos na primeira promoção do uso de jet-skis por salva-vidas junto com a Kawasaki em 1978, e os salva-vidas de Huntigton Beach tiveram um aqui no Sul da California.

Anos depois, eu olhei Brian Keaulana e o pessoal gente boa do Hawaii, uns abençoados por terem todas aquelas ondas grandes ao redor, e Laird Hamilton que descobriu seu sexto sentido e mostrar ao mundo quem ele realmente é com relação ao modo que lida com o mistério dos próprios limites. Eu admirava o espirito de Rell Sun e Pua, mas infelizmente não conheci nenhuma das duas. Infelizmente não há modelos suficientes de mulheres desse tipo para citar. E isso me deixa triste, sendo que somos 8 bilhões…

Onde você nasceu e cresceu?

 

Eu sou de uma galáxia, longe, bem longe?  Sou da quinta geração nascida na Califórnia, mas sou descendente de europeus, árabes e africanos. Minha familia chegou a América depois de escapar do comunismo e problemas econômicos antes da virada do século em 1900. Eu nasci em Palo Alto, Califórnia, na Universidade de Stanford em 21 de junho de 1961. Tenho dois irmãos e três irmãs.

 

Você surfa? Onde começou?

Eu surfo de vez em quando. Minha última sessão foi na companhia do meu amigo Paulo Schulte, em frente à casa dele em Santa Barbara, também com meu namorado Marcelo. Comprei minha primeira prancha quando tinha 7 anos em Pacific Grove. Eu sempre estive ao redor de água gelada. E hoje gosto de fazer tow-in com uma prancha feita por meu shaper e herói Gary Linden. É a minha favorita.

 

Você já tomou algum wipe-out em ondas grandes?

 

O maior mar que já surfei tinha 10 pés e tomei um grande tombo. Isso já foi o bastante para mim. Em ondas gigantes eu ainda não caí do meu jet-ski, e com muita oração, disciplina e  treinamento pretendo não estar nessa posição.

 

Quando isso acontecer, serei grata por todos esses anos de resgate e segurança. Espero levantar do tombo, voltar ao outside e continuar trabalhando. Isso não é uma coisa que me perturba muito. A maioria dos meus tombos acontecem quando não estou concentrada em dias de ondas pequenas. Então, eu repito: ‘concentração e disciplina são fatores muito importantes.

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O que você pode comentar a respeito de preparo para ondas grandes?  

Costumo descansar na noite anterior ao trabalho, depois de preparar os jet-skis. Eu perco muito tempo checando o equipamento e colocando tudo em ordem: papéis, instruções, aparelhagem, comunicação.

Eu não como nada enquanto estou na água. De vez em quando bebo alguma coisa. Eu deveria alongar mais, mas estou sempre muito preocupada com outros detalhes e na estrutura da equipe que trabalha comigo. Se estou sozinha, é muito mais fácil. Acordo cedo e malho.

Tenho 42 anos e uma filha de 22, chamada Kyla, e estou grávida. O bebê deve nascer em janeiro. Minha filha trabalha comigo no K38 e tem uma alma forte. Sou orgulhosa dela.

Preparar-se para ondas grandes não é diferente de qualquer outra coisa que você se determine na vida. Você tem que saber seus limites, não competir com o oceano, conhecer seu equipamento e descobrir tudo o que pode sobre seu talento, rever sua alma. Assim você poderá se motivar e comemorar os resultados e também transformar seus obstáculos em vantagens. Conhecer suas habilidades mentais, desenvolver o improviso e ter um ego maneirável são pontos positivos. Ficar longe das drogas e das vibrações negativas aumenta as possibilidades de vitória. Também são pontos importantes respeitar o oceano e não colocar outros em perigo.

Quais são os teus patrocinadores?

 

Muitos anjos invisiveis, amigos e colegas (risos). Meus jet-skis são de patrocinio da Yamaha Motor Corporation, desde 1993. Eles me patrocinam desde os campeonatos de corrida e sou muito grata pelo profissionalismo e fé no trabalho da K38. Os afiliados da Yamaha na África do Sul, Brasil, e Itália me patrocinam quando faço meus cursos nesses países. De vez em quando sou contratada para eventos específicos e, dentro do prazo do contrato, sou patrocinada pela empresa responsável e também sou grata por esses trabalhos paralelos.

Onde você mora na maior parte do tempo?

 

Vamos ver, se eu olhar no calendário posso te dizer precisamente. Eu não tenho uma casa, eu tenho trabalhado 50 semanas no ano desde 1999, e desse modo, moro onde está rolando meu trabalho. Tanto faz se estou alugando uma casa, ficando com patrocinadores, em bases militares, em estações de bombeiros, casas de amigos,  hotéis, muitas noites dormidas na minha caminhonete. Viajo de um lugar para o outro com muitos equipamentos e os internautas terão dificuldade para entender isso. Minha dedicação é de servir totalmente aos outros em grandes proporções.

 

O que você pensa sobre os problemas que o tow-in tem tido no seu pico (Mavericks)? Soube que temos boas noticias?

 

Não existem boas noticias nesse caso. Surfistas de tow-in têm a responsabilidade a partir da retirada da carta de arrais. E eles, na maioria, estão pecando na responsabilidade. Eles estão arruinando a própria modalidade.

 

O que aconteceu em Mavericks é o exemplo do que vem acontecendo ao redor do mundo: Tow-Surfers X Surfistas de remada. É muito perigoso e intimidador estar surfando na remada e ver um jet-ski vindo no seu caminho. Não pode haver jet-ski no outside quando as ondas estão pequenas.

 

É vergonhoso praticar o tow nessas merrecas.

 

Não está se discutindo os reais profissionais que praticam nos dias corretos, e sim a galera mal-educada. A mídia irá focar suas lentes nos mal-educados, e não na galera correta. Surfistas tendem a não trabalhar em grupo, então eles estão aprendendo  a se curvar diante das dificuldades e trabalhar dentro da lei em organização.

 

Hoje em dia, não há lei que suporta o uso de jet-skis para tow-in na América, e o esporte pode ser banido antes mesmo de ser aceito como uma nova modalidade. E isso já está ocorrendo aqui na Califórnia com o kite e windsurf. No Hawaii, a galera está unida diante das dificuldades e isso faz a diferença. O tempo irá dizer se os participantes irão se acostumar e trabalhar inteligentemente.

A galera que defende a proibição do tow-in em Mavericks recomendou a justiça e o uso limitado de jet-skis (20) somente em um campeonato em que os atletas, em conjunto com patrocinadores, mostrarão o seguro de saúde e o certificado emitido pelo Estado, para estarem autorizados a praticar o tow-in nesse evento.

 

E, se forem pegos praticando de maneira incorreta, teriam revogada a licença. Se isso acontecer, com certeza não haverá mais dias de free surf em ondas gigantes, o que acabaria com essa  modalidade radical e inédita.

 

E o comodismo de alguns praticantes, que não estão dando importância para os fatos podem fechar as portas para sempre.

 

Acordem!

 

Também estão tentando proibir o uso de jet-ski para resgate em Mavericks, mesmo sendo para os surfistas de remada. E isso, com certeza prejudica a todos. E, em dois anos, se isso for aprovado, só poderá entrar jet na água no dia do tal evento, tanto os surfistas quanto o trabalho de resgate. Essa proposta ocorreu em 30 de julho.

 

Sabemos que você tem um namorado brasileiro e já visitou o Brasil algumas vezes. Quais são os pontos positivos e negativo sobre o nosso país?

 

Sim, tenho um namorado brasileiro. O único problema em qualquer lugar é o lado humano, o que pode ser bom também. Eu só tenho medo da natureza do homem, não dele próprio, e sim das terríveis coisas que eles praticam para prejudicar uns aos outros. E isso afeta a minha alm. É terrível presenciar esses fatos. Os homens têm a capacidade de usufruir dos talentos que Deus deu, mas raramente usam isso de um modo positivo, isso é triste e real.

 

O bem nem sempre vence o mal, então é importante focar na paz e ser um dos que vigiam como as pessoas tratam as outras, no que elas falam, agem, pensam e reagem.

 

O Brasil é um país lindo, as mais bonitas praias, ótimas condições para o surf, bonitas pessoas, comida natural e é isso que eu escolho para olhar e que faz esse local tão especial. Minha  escolha é apreciar a beleza envolvendo o Brasil e brasileiros.

 

 

Quais as novas datas de seus cursos?

 

Eu estou treinando militares agora na Califórnia, Hawaii e Virigínia. Eu ministro diferentes tipos de cursos já reservados até julho de 2004. Muitos são fechados para inscrição do grande público aberto. Nossos contatos são feitos por e-mail com agências que trabalham com estudantes. Então, as datas mudam constantemente. Visite meu site ( www.ShawnAlladio.com ) para encontrar como participar.

 

Você sente algum tipo de preconceito por trabalhar constantemente ao redor de homens? Já teve algum problema sério no outside?

Sim, todo tempo. Eu me deparei com discriminação desde quando era uma criança e dirigia minha bicicleta suja, e os garotos tiravam uma onda da minha cara. E isso não mudou nos últimos 35 anos.

 

A única coisa que mudou é que agora fico mais tranquila diante dos insultos. O bloqueio, instabilidade, insegurança e crueldade dos outros não me irritam mais. Existe um balanço nessa questão, pois tenho a benção de Deus por trabalhar com homens capazes, emocionalmente fortes, que não se sentem ameaçados por trabalhar com uma mulher capaz.

 

Sabe por que? Eles querem o melhor no que fazem. Eu tenho muito a oferecer e acrescentar ao trabalho deles, e eles são gratos por isso. Eles estão por cima de estereótipos e acreditam no que realmente é trabalho em grupo e ajudar os outros. Esse tipo de pessoas não bloqueiam o sonhos das outras e compartilham as experiências em beneficio da comunidade. Eu aprendi muito sobre dignidade e graça dos homens e mulheres sobre essa tese e respeito muito quem tem integridade. Um grande abraço a todos, Shawn.

 

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