O amanhecer de Morning of The Earth

A tendência retrô é uma viagem de volta ao futuro, ou somente o retorno à década de 70?

Naquela época, Nat Young virou as costas para o surf competitivo organizado e retirou-se para o interior australiano.

 

Decidiu alimentar-se apenas de vegetais cultivados organicamente, desenvolver e experimentar novos shapes de pranchas. 

 

Grande parte da comunidade australiana o seguiu para a fazenda, resultando em uma era dinâmica de experimentação em design de pranchas.

 

Intermináveis artigos na revista Tracks, dissertavam sobre assuntos como “composting” (reciclagem de vegetais e outros materiais vivos decompostos de forma a produzir adubo, reduzindo a geração de lixo), além da criação de um dos maiores filmes de surf já produzidos: Morning of the Earth, de Alby Falzon.

Agora, mais de trinta anos depois, os surfistas estão abraçando violões, espirrando redemoinhos psicodélicos sobre monoquilhas deixadas de lado no passado. Todos trazendo suas filmadoras.

 

O que colhemos como subproduto? Seriam os filmes em número crescente surf-retrô inspirados no Morning of the Earth?

 

Apesar da gama de temas e da qualidade de filmes como Sprout, Shelter e Glass Love possuírem tendências comuns, todos buscaram suas raízes nos anos 70, são um pouco pretensiosos, e a maioria incita o espectador do momento a perguntar, ?o que é isso, alguém arrombou alguma coleção de pranchas antigas??

 

Fora o cabelo desleixado, é a projeção do uso de pranchas antigas que fica no coração de cada um destes filmes. Assistindo, a tendência retrô fixa-se pouco mais que um ?espírito fervilhante?, onde estrelas do surf borrifam a revitalização da moda dos anos 70 posando em alguma liquidação de monoquilhas.

 

Atualmente, com tecnologia que facilita a filmagem, de forma mais barata e mais rápida, qualquer um pode produzir e distribuir um filme de surf. O resultado é o imenso moinho do surf-vídeo, que tornou-se a imprensa da vaidade.

 

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Mas se nós examinarmos claramente por trás desta migração aos anos setenta, temos que separar os que fazem pose, do número crescente de surfistas e shapers que estão construindo e recriando antigos designs para propósitos largamente funcionais, pois atrelado à todo esse resgate, há uma revolução positiva do design.

 

Para as pranchas de marcas famosas, pode ser que ?as galinhas estejam voltando para o poleiro?. Durante o crescimento que tiveram nos anos 80 e 90, as grandes marcas da California preocuparam-se principalmente com logotipos, linhas de vestuário, times enormes e orçamentos de promoção, deixando de lado pesquisas em design e materiais.  Além de culpar o pequeno construtor de quintal por arruinar o valor de pranchas de surf.

 

Assim, seria a tendência retrô uma revolta contra as pranchas de grandes marcas, ou como elas são produzidas? Ou é somente uma moda passageira, ôca, composta de patrocinadores viajando em US$ 150 a mais em valor de pigmentos que decoram banheiras obsoletas? Ou história está se repetindo – realmente é o Amanhecer do Morning of the Earth – ou nós somente estamos viajando na poeira da história, como outras culturas e nações que se perdem explorando nostalgia?

Vamos aquecer a reação e ver o que borbulha na superfície.Se seguirmos o rastro da tendência presente até o seu começo, nós encontraremos vagando no início dela a solitária figura de Tom Curren.

 

Depois de sua saída de circulação promovida pelas viagens do circuito da ASP, Curren se tornou “O Purista Acidental”, surfando no Hawaii em uma prancha Maurice Cole sem logotipo ou marca.

 

Está obscuro se Curren, na renúncia de seu papel como uma entidade comercial, encaixou-se melhor na posição de Rolf Aurness (que perdeu o interesse pelo circuito ao chegar ao topo) do que na de Nat Young.

 

Ele largou o topo, deixando para seus oponentes (como o arqui-rival Mark Occhilupo) um grande vazio. Alguns anos depois, em 1993, Curren materializou-se do éter em uma competição da ASP na França, armado com uma prancha 5’5 ” twin-fin da década de 70 que ele havia comprado de segunda mão em uma loja de surf de Nova Jersey (Eua).

 

Na segunda fase, ele remou para o outside na prancha de 4 polegadas de espessura e demoliu Matt Hoy, então número 8 do ranking, com uma exibição surpreendente, tipo improvisação de músicos de jazz, fundindo rápidas acelerações com tail-slides no oco da onda.

 

Depois da bateria, Hoy atordoado pediu a Curren que o deixasse experimentar a prancha, enquanto murmurava, ” ?mas porque ele teve que fazer isso comigo??

 

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Logo todo o mundo no circuito estava limpando racks de pranchas usadas e buscando qualquer prancha de surf pequena, larga e de traseira dividida.

 

Quando a provisão de relíquias atingiu a exaustão, a busca se voltou para as salas de shape e antigos templates com estes modelos de prancha voltaram a riscar os blanks.

 

Curren continuou ampliando sua carga de manobras tendo Tommy Petersen (o irmão de Michael) shapeando uma fusão híbrida de fish que ele chamou de fireball-fish, com a qual ele chocou o mundo do surf esculpindo curvas fechadas por toda parte nas faces de ondas gigantescas da Indonésia.

Em poucos meses, todo fabricante de prancha de surf teve algum fac-símile da idéia de Curren disponível em suas coleções de shapes disponíveis aos clientes.

O ponto crucial a se lembrar aqui, é que nada disto teria acontecido se as fishes tivessem considerável – embora negligenciado – mérito como um design de prancha de surf, assim como a demonstração inicial da thruster de Simon Anderson.

 

É certo que Curren teria sido despachado em uma chuva de granizo de zombarias caso não tivesse arrepiado absolutamente na sua reciclagem deste tipo de prancha. A validade do movimento retrô está aqui: Determinar se nós estamos avançando,  se retrô como expressão de antigo deixa de existir e se torna algo do presente. Temos que esclarecer a intenção de cada aspecto da tendência, resgatando inovações do passado para criar recombinações progressivas de componentes de design e não estacionar em fases de desenvolvimento.

Há muitas razões para explicar o número crescente de surfistas optando por réplicas de antigos designs. Muitos profissionais mais jovens, influenciados pelo regresso de Curren ou pela re-descoberta de Morning Of The Earth pelo surfista, escritor e produtor de filmes Andrew Kidman, filmes como Ticker Than Water, estão topando com algo completamente novo – para eles – sensações que emanam de suas experiências com monoquilhas, Fishes e Egg shapes.

 

Apareceram “crianças de poucas pranchas”, depois de anos batalhando em shortboards contemporâneas, estão notando seu surf progredir finalmente com um equipamento de  mais largo e mais espesso que é funcional e legal no sentido de prazer.

 

Por isto, poderia ser dito que pranchas de surf subdimensionadas incapacitaram mais surfistas na última década do que foi atribuido ao LSD nas décadas de 60 e 70. Também há um grande número de surfistas de nível médio que vêem na prancha retrô um modo de sair da mesmice ou engasgamento gerados pela ditadura da uniformidade e se distinguir dos rebanhos de novatos do esporte, e é claro, alguns surfistas veteranos evidentemente nostálgicos para com as pranchas que surfaram em sua juventude.

 

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Shapers como Skyp Frye, Wayne Lynch, Mark Richards, Terry Fitzgerald e até Pat Curren são confrontados por uma demanda crescente por réplicas das pranchas que eles shapearam e surfaram no seu auge.

 

É interessante notar que no Hawaii, surfistas como Rob Machado e outros, continuam experimentando os antigos designs com variações modernizadas.

 

Talvez uma transfusão de mais surfistas/shapers no sistema ajudará a elevar a criatividade e superar ou liberar-se de duas décadas de refinamento da triquilha, meramente a encolhendo e então pasteurizando o resultado em espuma com o uso difundido de maquinas de cópias de shapes.

Talvez tenhamos que tolerar o capricho e o xarope de nostalgia da tendência retrô em troca de um sensato ganho em design de pranchas. Em um mundo perfeito, todos surfariam a prancha mais funcional para as suas condições locais, mas em um esporte composto de tantos espíritos livres, seria uma mudança renovadora observar surfistas escolhendo pranchas pela percepção ou tato, ao invés do olhar.

 

E é para isso que devemos tirar o chapéu para os australianos pela revivificação da retrô. Eles parecem ser muito mais dedicados a seguir adiante a paixão por um tato diferente na recombinação progressiva dos componentes do design – considerando que a tendência californiana parece ser em grande parte apaixonada com seus aspectos cosméticos nos pigmentos, matrizes e arte psicodélica.

 

“De vez em quando o Surf volta para a Fish”. Curren escreveu logo após a sua re-descoberta do design em 93. Ele foi ao ponto ao mostrar que quando o design de pranchas estaciona, a fish é reavivada e explorada até suas limitações uma vez mais.

 

Então o conserto começa, e pranchas são então alongadas e refinadas novamente, e o fruto dessa exploração é a geração de dados que resultam em uma fish mais moderna.

 

Estaríamos indo novamente para nosso próximo grande avanço? Estará em alta shapear e glassear a própria prancha, e então sair correndo coberto de pó de fibra de vidro, como “Baddy” Treloar em Morning of the Earth, ou com o mesmo espírito que muitos de nós no final da década de 60 e início de 70, rasgamos os pranchões para recriar a prancha ideal com seu conteúdo?

 

Hoje a Clark Foam, a maior fabricante de blanks para pranchas no mundo, disponibiliza 10 blanks específicos à produção de pranchas retrô. Qualquer um que sabe quanto tempo e dinheiro é investido no design e fabricação de moldes de novos blanks, percebe que este é o indicador da vanguarda que tomou a dianteira.

 

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Todas as revoluções, é dito, começam com um homem e uma idéia. Mas assim se fazem também as modas passageiras. Um dos maiores surfistas de nosso tempo nos apontou na direção certa. Agora mesmo, a prancha de surf moderna balança na beira de se tornar pouco mais que uma unidade de varejo fabricada em terras distantes, utilizando o trabalho de não surfistas, e nós precisamos de uma revolução, não uma moda passageira.

Recentemente, o ex-surfista profissional, jornalista e filósofo Derek Hynd, em visita ao Brasil na companhia de seu amigo o artista plástico Mark Sutherland, comentando a diversidade das pranchas fez me lembrar um comentário de Andrew Kidman quando produzia o filme Limitus sobre a beleza e a paixão que sentimos pelo Surf e como isso se expressa.

 

Enquanto aguardavam as ondulações na casa/castelo/pirâmide de Derek em Jeffrey?s bay, Derek surfava pela manhã com uma 5?8? twin keelfins de 22 polegadas de largura,  shape de Skip Frye, depois fazia uma nova sessão com uma monoquilha Tom parrish 8?6 ?com 3 polegadas de espessura da década de 70, e mais tarde com uma Dick Brewer 9?9? de 4 polegadas de espessura.

 

Os designs eram variados, porém nenhum menos funcional, a cada dia havia uma prancha para as condições que se apresentavam e ele surfava cada uma com o estilo necessário para a prancha lhe fornecesse o melhor desempenho. Foi fascinante assistir e acredito que Hynd surfando em Litmus, realmente abriu a mente de muita gente sobre o que é atualmente uma prancha funcional?.

 

aloha

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