
Rapaz, sempre alguém muito importante resolve morrer logo no finzinho do ano. Desta vez foi o Joe Strummer, voz e uma das duas guitarras do The Clash.
Pros recém-chegados, The Clash foi a maior banda punk do planeta até encerrar o expediente em janeiro de 1986, depois de 10 longos e agradabilíssimos anos de barulheira.
Joe Strummer foi para seu canto fazer trilhas (e atuar!) com o mucho-loco diretor Alex Cox e, de quebra, aparecer num pequeno filme de Jim Jarmush.
O album triplo Sandinista!, lançado em 20 de dezembro de 80, é um dos motivos para que a maioria das bandinhas ditas punquecas americanas resolvesse fazer músca. Não fosse pelo engajamento do Clash, graças ao Strummer, o punk hoje não passaria de um monte de desocupados de cabelos arrepiados e roupinhas graciosamente rasgadas.

Quem quiser conhecer um pouco do estrago que esses camaradas fizeram na vida da maioria dos coroas com mais de 25 anos, compre correndo “London Calling”, faça 200 cópias e arranje um broche do Che Guevara.
O Clash esteve presente no imaginário do surfe desde o início, quando tudo que incomodava o ‘establishment’, nos atraía.
Dos pioneiros Sex Pistols, The Damned e Buzzcocks, na velha Inglaterra aos nova-iorquinos Ramones, Talking Heads e Blondie, ninguem tinha uma identificação maior com aquela turma bronzeada que só queria mostrar seu valor do que o Clash – afinal, o Clash misturava ritmos caribenhos, como o reggae e o ska, com as mais odiosas guitarradas de seu tempo.
Com a nova onda sonora, aparecia uma novíssima linhagem de surfistas que mudaria o nosso jeito de surfar para sempre – do mesmo modo que o Clash fez na música.
Eram eles, sem ordem nehuma, respeitando a anarquia pregada pelo finado Strummer, um baixinho atarracado (ué, não é a mesma coisa ? é sim.) que tinha acabado de vencer o campeonato junior mais importante do mundo, o Coca-Cola Juniors championship, já tradicional na terra do Midnight Oil (outro influenciado pra cacete pelo supracitado), que atendia pelo nome de Tom Carroll, surpreendentemente um goofy.

Tommy “the Gun’ gostavam de lhe chamar (por acaso o Clash também gravou uma música chamada Tommy Gun), pois tinha uma batida de back-side que era um tiro. Carroll foi o primeiro surfista campeão mundial surfando com o pé direito na frente e o fez ganhando, tambem pela primeira vez, em Sunset, de costas pro diabo da onda que cismava em cair em cima dele, que se recusava a cair da prancha.
As rasgadas de TC eram tão fortes que a turma desconfiava que ele escondia pedras na roupa de borracha. Ah, sim! É bom que se diga que logo cedo, 17 anos, os médicos disseram com toda a autoridade que os médicos se arrogam, que TC não iria surfar nunca mais por motivo de uma séria lesão no joelho esquerdo.
Carroll ignorou o conselho, fortaleceu as pernas e virou o homem de um milhão de dólares, quando fechou seu contrato de cinco anos com a Quiksilver.
Conto as coisas assim, meio sem nexo, para evitar que me faça aborrecido como um jornalista herméticamente aplicado.
Quem pega, pega, quem não pega..se vira, Juarez!
Sim? Paramos em quem?
Pela sigla, surgia numa pacata cidadezinha do norte da Califórnia, Santa Bárbara, adotada então pelo campeão mundial de 78 Shaun Tomsom, eu dizia que surgia, com a mesma sigla, T e C, filho de um velho bombeiro, dropador de bombas em Waimea, um guri chamado Curren, Tom Curren.
Mas, esperem! Isso já é bem mais tarde.
Antes dele teve o Richard Cram, que tinha um cut back que dava até vergonha no resto da turma que corria o circuito mundial, de tão bem desenhado. Brad Gerlach e Tom Curren, passando pelo Slater e Ward, todos tentam copiar a linha do australiano, sempre de pranchas brancas, RC.
Um animal de apelido Kong encarnava o punk com atitude em ondas pesadas, bebendo corajosamente e escrevia seu nome, Gary Elkerton, no livro de ouro do surfe. Kong foi o primeiro não havaiano a dominar a tríplice coroa – uma vez quase arrastou os três eventos, bateu na trave, faltou um.

Epa! E não é que já ia esquecendo do principal dessa geração, ligeiramente mais velho, o honorável Cheyne “das goiabas” Horan.
Mais um anãzinho. Surfava com uma velocidade ainda desconhecida, manobrava em espaços da onda inconcebíveis e tinha raro faro para entubar.
Amargava, no entanto, uma certa fama de maroleiro, que logo tratou de afugentar tornando-se um dos mais respeitads big-riders do espaço.
Cheyne teve a alegria de ser quatro vezes vice campeão mundial, uma para Wayne Bartholomew e três para Mark Richards, o que, digamos, o perturbou um pouco as idéias.
Cheyne insistiu em usar monoquilhas quando o mundo inteiro se rendia as duas, e, em breve, triquilhas. Uma volta heróica aos Top 16 em 89, depois de ficar pendurado nos back 14 desde 86, com uma brilhante vitória em Sunset, perfeito, pode ser considerado um dos mais belos momentos da nossa curta história do surfe profissional.
E ainda tem o meu surfista predileto da época, Dane Kealoha, mas o ano vai terminando, a cortina cai e é hora de pensar no futuro.