Assim que o swell baixou em Pavones, decidimos partir para uma nova aventura, desta vez longe do mar. A próxima parada foi a Reserva Indígena dos Boruca, onde entramos em contato com uma cultura diferente.
Nos hospedamos na casa Don Marciano, um chefe de família que alimenta o consumo de seus filhos e netos com 80% do que planta em sua terra: cacau, milho, banana, laranja, arroz, feijão e uma infinidade de hortaliças, os outros 20% vem da venda das máscaras no mercado turístico. Logo que chegamos na casa, fomos surpreendidos pelas crianças locais, tão felizes que nos deram a sensação de estar no lugar certo.
Algo que nos chocou, foi que ao desembarcarmos e iniciarmos a negociação do custo de estadia, se recusaram a nos dizer o valor e repetiam que no final da experiência conversaríamos. Passada a vivência com este povo, ficou claro que deveríamos pagar o quanto julgássemos necessário, que uma experiência verdadeira não se pode mensurar em números!
Depois de um banho de cachoeira, fomos caminhar pelo povoado e pudemos perceber o traço indígena da população, mas as casas, trajes e costumes do moradores eram típicos de um vilarejo comum, o que nos intrigou e nos motivou a ir conhecer o ancião do povoado – o artesão Don Ismael Gonzales.
Ao longo de seus 86 anos de vida, o “maestro das mascaras de Boruca” dedicou boa parte de seu tempo buscando resgatar e valorizar a cultura e o dialeto local que estão se perdendo com a chegada da tv e internet. “É uma raça que está desaparecendo. Conservar o nosso dialeto é importante como um elo entre as gerações que antecederam com a atual”, afirmou.
“Boruca, em nosso dialeto, significa o Lugar das Cinzas e nosso destino está atado a Mãe-Terra. Somos uma comunidade que se caracteriza pela união de nossa cultura, o respeito, a solidariedade e o cuidado com a terra” completou o artesão.
Em uma rápida visita ao museu Boruca, tomamos contato com as histórias e diversas lendas da comunidade. Por cerca de 700 anos, os Boruca viveram incrustados em um região serrana ao sul da Costa Rica mas o contato com os espanhóis no século XVI mudou para a sempre a história do povoado. A população foi obrigada a adotar os padrões culturais e religiosos da Europa e viu grande parte de seu patrimônio desaparecer.
A interferência dos espanhóis no período colonial foi tanta, que ainda hoje a cidade comemora a independência de uma forma bem peculiar. A partir do dia 30 de dezembro, as ruas do povoado são tomadas pelo desfile dos “Diablitos”, locais que usam máscaras de diabos e circulam pela vila fazendo festa e oferecendo bebidas às pessoas para expulsar a figura do colono espanhol, representada por um touro.
Ficamos bastante curiosos em conhecer esse ritual, e quem estiver na Costa Rica nesta época do ano é uma boa oportunidade de celebrar a virada de uma forma inusitada, já que os festejos dos “diablitos” só acabam no dia 2 de janeiro e são considerados um carnaval por aqui.
Depois da visita em Boruca, decidimos seguir para Matapalo, um paraíso natural a 7 horas de San Jose que abriga diversos mangues e é área de reprodução de baleias jubarte e refúgio de golfinhos, tubarões e uma infinidade de tartarugas.
O Golfo Dulce considerado o mais poderoso atrativo turístico do Pacífico Sul da Costa Rica, divide a população de Puerto Jimenez (povoado mais próximo de Matapalo) sobre a construção de uma marina para aumentar o fluxo de exportação de combustível, totalizando um investimento de US$ 40 milhões.
“O que passa em Golfo Dulce é o que chamo de tsunamis de humanos, primeiro os colonizadores, depois os garimpeiros, em seguida exportação de madeira, caça ilegal, pesca de atum e assim se resume”, diz Alvaro Ugalde, fundador dos parques nacionais da Costa Rica nas lutas ambientais do Pacífico Sul.
A defesa da companhia petrolífera é o desenvolvimento local e a criação de 400 empregos.
A comissão ambiental local aponta os problemas sociais ao redor das marinas existentes como a de Quepos e Guanacaste para provar que a construção de marina não resolve a vida do povoado que habita a região onde será construída. Defendem também que os riscos de acidentes ambientais podem representar prejuízos muito mais significativos ao mercado de turismo do que se pode imaginar, alem é claro de prejuízos irreversíveis na fauna e flora.
Eu conheci muitos lugares lindos mundo a fora, mas nunca surfei ao sons de macacos gritando, centenas de araras coloridas voando por toda parte, uma hora de distância podia ver os crocodilos soltos na natureza, além de peixes e tartarugas por toda parte.
Às vezes grandes projetos justificam-se pela quantidade demográfica de um determinado povoado e sua necessidade de subsistência, mas o Golfo Dulce é especial demais para correr qualquer tipo de risco de degradação ambiental. É um golfo estreito e profundo, cujas águas formam uma fossa de aproximadamente 200 metros de profundidade, sendo o único golfo com essas características na costa pacífica americana.
Em profundidades abaixo de 60 metros, diminui a quantidade de oxigênio, bactérias anaeróbicas entram em ação na ausência de oxigênio e liberam nitrogênio. O nitrogênio é usado por microalgas para fotossíntese, estas são a base da cadeia alimentar. O golfo Dulce é o segundo lugar do planeta onde isso ocorre.
Aqui segue um pouco da beleza natural que encontrei neste paraíso. Espero que nosso consumo de energia desenfreado não venha a destruir um dos berços da fauna marinha mundial.
Para acompanhar os passos da Expedição América Central acesse o blog Welcome Surf Trips. Felipe Poli viaja com o apoio da Welcome Surf Trips, Shaper Akiwas, Foto Jump, Capas Drifting e Adobe Rent a Car.
Foto de capa Luiz Pires
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