Nem tudo é festa

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Maior desastre ambiental do País completa dois anos. Foto: Divulgação.

Vejo aqui no Waves um mundo perfeito de ondas de todos os tipos e em todos os lugares. É só clicar para ver a molecada do Brazilian Storm enquadrando os gringos em Portugal, França. Adoro admirar as morras lindas em Jaws, Teahupoo…. Mas, nem tudo é festa.

Passamos dois anos do maior desastre ambiental do País e do assassinato da onda de Regência, a 650 quilômetros de distância da mineradora Samarco, e nossa comunidade pouco se mobilizou pela causa. Seria um sintoma apenas triste e irresponsável se o rompimento de Mariana não tivessse contaminado tudo ao redor, matado pessoas, destruído inúmeras famílias e causado um impacto ambiental incalculável e irreversível.

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As famosas esquerdas de Regência foram exterminadas. Foto: Gabriel O Pensador.

Semana passada assisti com tristeza a pescadores que há dois anos não têm o que pescar, fazendo tour para a imprensa, ambientalistas e curiosos pelos rios mortos para conseguirem alimentar suas famílias.

O rompimento da barragem provocou uma enxurrada de lama que devastou o distrito de Bento Rodrigues, deixando um rastro de destruição à medida que avançou pelo Rio Doce. Do sofá, há dois anos, o Brasil assistia à tragédia acontecendo ao vivo e no dia 5 passado revivemos algumas dessas cenas tristes e revoltantes.

E, como o rio sempre corre em direção ao mar, os 70 milhões de metros cúbicos de fezes da Mineradora Samarco foram ‘acimentando’ cidades, vidas, famílias, histórias, ecossistemas e tudo o que encontraram pela frente até desaguar num dos santuários do surf brasileiro, a Praia de Regência, no Espírito Santo.

Para se ter uma ideia, um metro cúbico de merda corresponde a 1.000 litros de merda. Então, façam as contas. Nesse último dia 5 ‘comemoramos’ dois anos da tragédia sem culpados presos, sem indenizações pagas às milhares de vítimas, sem que as grandes marcas do surf, bastiões do meio ambiente e das praias, fizessem nada além de gritar pelo Facebook.

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“Nós, surfistas, que poderíamos dar um exemplo ao Brasil, assistimos de novo pela TV e calados à festa macabra deste segundo aniversário. Muitos outros virão.” Foto: Thiago Vieira / Shot Spot Brasil..

Cadê o Gabriel Medina, o Charles, as marcas que se fizeram pelo surf? Onde foram parar os caciques do surf brasileiro, as associações menores e maiores, a WSL, que poderia fazer uma etapa simbólica e jogar luz no problema envergonhando este governo inepto?

Mataram o nosso litoral, a nossa praia, exterminaram Regência, assassinaram, a fauna e a flora. O ecossistema, além das populações que viviam nos arredores, seguem completamente afetados pela barbaridade protagonizada pela Samarco, em impacto, uma tragédia maior que a de Chernobyl, dizem os especialistas ambientais.

Por ora, o desastre da Samarco leva à extinção total do ambiente anterior ao acidente. Expõe o pouco caso da justiça e revolta. Nós, surfistas, que poderíamos dar um exemplo ao Brasil, assistimos de novo pela TV e calados à festa macabra deste segundo aniversário. Muitos outros virão.