Surf sem barreiras

Negros, muçulmanos e aborígines – parte II

Jihad Khodr é o primeiro muçulmano a entrar na elite mundial. Foto: Reprodução Surfing.

Fiquei surpreso ao ser acusado de racismo por alguns participantes do Fórum do Waves. Li todas as mensagens e entendi muito bem os argumentos que levaram tais internautas a essa conclusão.

 

Na verdade, foi porque escrevi que o Jojó é negro e o Jihad é muçulmano. Ora, vou repetir: o Jojó é negro, o Jihad é muçulmano, o Trekinho é branco e o Vetea David é polinésio. Isso é um fato, uma realidade.

 

São pessoas completamente diferentes, com histórias de vida diferentes, hábitos e costumes diversos; abordam a vida e o surfe de forma completamente distinta.

 

Admitir tais diferenças é aceitar uma verdade, uma realidade. Aqueles que não são racistas admitem tais diferenças e as aceitam como uma riqueza de diversidades. Jamais consideram uma etnia ou raça superior à outra ou a sua própria.

 

Ignorar tais diferenças pode ser o primeiro sintoma para a construção de uma realidade distorcida e equivocada. Uma falsa consciência que pode levar a uma realidade que não desejamos.

 

Outro aspecto que foi abordado no meu texto, ainda dentro do mesmo tema, é que precisamos valorizar os feitos de nossos surfistas e as pessoas que trabalham com o surfe competição no Brasil.

 

Arnaldo Spyer e Joca Secco, que postaram suas mensagens no Fórum e trabalham com o surfe há mais de vinte anos, tocaram muito bem no assunto.

 

O primeiro nos mostra que os campeonatos de surfe no Brasil são julgados por pessoas que dão notas para a cor das camisetas de competição dos surfistas e por isso é que hoje, enquanto o mundo ocidental repudia os muçulmanos, o surfe brasileiro, em uma saudável contramão, lança, pela primeira vez na historia do surfe mundial, um surfista muçulmano no WCT. Vocês acham isso indiferente?!!

 

Ora, quando eu era moleque não havia qualquer ligação entre o surfe brasileiro e o circuito mundial, que naquela época era uma festa vip e exclusiva para americanos, havaianos, australianos e alguns sul-africanos brancos.

 

Nós brasileiros entramos nesta festa há pouco tempo, chegamos tarde. Entramos de penetra na maior cara de pau e ainda levamos uma galera, na opinião deles (gringos), muito estranha.

 

Chegamos com um nordestino baixinho e debochado que levava a família à tira colo, um lourinho do Sul, um negro, um gaúcho com cara de finlandês, um capoeirista de Cabo Frio e agora um muçulmano, entre outros.

Vocês já imaginaram como isso não os incomodou. Logo eles, que nunca deixaram entrar nessa festa gente de sua própria região, um negro ou um muçulmano americano.

 

E olha que a população negra nos Estados Unidos é enorme. Eles estão prestes a eleger um presidente negro, mas nunca colocaram um surfista negro sequer nas últimas posições do WQS. Eles conseguiram barrar seus negros e todos aqueles que são ?diferentes? na visão deles. Vocês sabem como?

 

A resposta é simples. Da mesma forma em que barram os brasileiros em suas revistas e em seus vídeos e filmes de surfe. E boicotam mesmo, sem a menor cerimônia.

 

Chega a ser engraçado. Os americanos colocam fotos de surfistas australianos em suas revistas, os australianos colocam imagens de surfistas americanos em seus filmes e os brasileiros sempre ficam de fora da festa ou com uma participação insignificante. 

 

O segundo, o Joca Secco, escreve que precisamos valorizar os feitos dos surfistas brasileiros. Assim como seus colegas de profissão, Joca pega surfistas com 10 anos de idade e os acompanha e investe até eles chegarem ao circuito mundial. Um de seus patrocinados (Pedro Henrique), quando sagrou-se campeão mundial pro junior no Hawaii, foi pouco valorizado até pela nossa mídia.

 

Uma delas dedicou apenas uma página para o seu título. Porra, uma página? Isso, uma página para um campeão mundial pro junior que depois vamos cobrar e crucificar no WCT. Ou seja, quando o cara mostrou que estava pronto para ser projetado e precisava de respaldo, nós o ignoramos, mas depois vamos cobrar dele que seja brilhante no WCT.

 

Portanto, meus amigos do Fórum do Waves, não sejamos hipócritas. As diferenças existem, sim. As pessoas que trabalham com o surfe competição no Brasil estão de parabéns por reconhecer tais diferenças.

 

Aceitar e respeitar tais diferenças, trabalhar bem cada etnia com suas formas diferentes de abordar o surfe. E o resultado disso tudo: a genialidade de um negro chamado Tinguinha, o belo estilo de um nordestino chamado Fabio Gouveia, o surfe espetacular de um suburbano chamado Leo Neves, a agilidade do muçulmano Jihad Khodr, a troca de borda do capoeirista Victor Ribas, e assim vai…

 

Vamos valorizar a nossa riqueza de diversidades, assim como fizeram os Altemanis há mais de vinte anos, a quem dedico este texto.

 

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