Na trilha do deserto australiano

O sol brilhava forte naquela tarde de agosto, a mistura mutante de amarelos e vermelhos nas nuvens esparsas indicava mais uma frente fria a caminho e a expectativa de mais uma trip era quase insuportável.

 

A tempestade que se formara dias antes ao sul do continente africano criara um swell grande que se movia rapidamente na direção nordeste, indo de encontro com a costa ocidental da Austrália. A cidade de Perth se distanciava no espelho retrovisor, a direção era norte e o destino: tubos no deserto.

 

O estress e a mesmice da rotina diária e a ameaça de uma guerra sem sentido me faziam querer escapar da “civilização”, com todos seus problemas e sua caótica realidade. Como

sempre o surf era a válvula de escape, e minha única certeza era que ondas boas e um certo isolamento me trariam novamente aquela paz, aquela felicidade incondicional que só quem surfa já sentiu.

 

Horas mais tarde, com a lua já alta no céu, cheguei em K-town, minha primeira parada. Um casal de amigos, Mark e Joinedille Duncan, vivem há alguns anos na cidadezinha isolada na costa de Western Australia e me receberam de braços abertos. O ganha pão da população local se dá com as duas únicas fontes de renda possíveis na região, a pesca e o turismo.

 

K-town fica situada ao longo do delta do rio Murchison, que durante milhões de anos

esculpiu um vale de belíssimos cannyons e dunas, que junto com as pitorescas praias são a principal atração para os turistas.  Mas eu vim atrás de outra atração: o point.

 

O point é a melhor onda da região, uma esquerda pesada com um drop sinistro, de frente para as pedras. Depois do drop a onda forma uma sessão tubular curta e intensa, seguida por uma parede longa e extremamente manobrável.

 

A bancada no point tem a forma de “S”, criando um movimento muito interessante nas ondas. Na primeira parte a onda se projeta para o meio da baia, e no inside ela se vira e volta em direção às pedras.

 

Como todo point-break, a área do drop é bem definida, tornando difícil pegar ondas quando o mar esta mais crowdeado. Ao contrário de muitos lugares na Austrália, o point é fortemente localizado.

 

Os locais de K-town sabem a qualidade de sua onda não querem ninguém crowdeando o pico. Eu testemunhei alguns locais apavorarem um fotógrafo, botando o coitado pra correr só porque ele tirava algumas fotos para uma revista de surf australiana. O conselho é o mesmo de qualquer surf trip: chegar com respeito e humildade.

 

Para minha sorte, Mark é um dos locais mais respeitados da cidade e com ele eu não tive

nenhum problema, muito pelo contrário, sentava no pico e compartilhava as series com a rapaziada local.

 

Mark é um australiano tomado, com várias temporadas havaianas nas costas e, mais recentemente, uma trip de dois meses ao Tahiti com sua linda mulher, a brasileira Joinedille.

 

Joy, como é conhecida, é uma nordestina porreta que surfa muito, e quem é das internas sabe que além de arrepiar no Hawaii e surfar Sunset de responsa, Joinedille tem um coração de ouro e está sempre pronta pra mais uma session, mais uma aventura.

 

Mark e Joy se conheceram no Hawaii e por lá mesmo se casaram. Mudaram para K-town

alguns anos atrás e agora estão construindo uma casa, a cinco minutos do point. Isso sim é um casal surf!

 

Na primeira semana em K-town tivemos dois dias memoráveis, com ondas de 4 a 6 pés perfeitas. O point estava de gala e toda a galera fez a mala. No melhor dia, ficamos na água tanto tempo que cada um pegou no mínimo umas 25 ondas.

 

Mark mostrou conhecimento local e entubou em quase todas. Eu não podia ter pedido para um melhor começo de trip, era a preparação perfeita para o objetivo final: G-spot.

 

G-spot não é uma onda, mas sim uma bancada gigantesca com três ondas distintas que, às vezes, nos dias mais perfeitos, se conectam. A forma como as três sessões encaixam na bancada é muito semelhante a G-land.

 

Mas as semelhanças param por aí. Ao invés da selva javanesa, o mar se encontra com um deserto árido e quente, habitado por milhares de cangurus, emas e outros animais típicos da região.

 

A fauna marinha é abundante. Baleias, golfinhos, tartarugas e tubarões são avistados quase todos os dias e a quantidade de peixes é incrível. Ainda em K-town, encontrei meu brother Drew Everest. Excelente surfista, Drew provou ser o companheiro ideal para a trip.

 

##

 

Com apenas 19 anos, o garoto era só empolgação. Acordava de madrugada e surfava quatro vezes por dia, não importava as condições. Quando o swell abaixou, nos despedimos de Mark e Joinedille e decidimos encarar o deserto, seguindo na direção norte.

 

Depois de mais um dia dirigindo, chegamos em G-spot e fomos recebidos por um inesperado swell de 8 pés. Caímos no mar fissurados e pegamos boas ondas, mas nada muito perfeito.

 

O swell entrou meio torto e as ondas estavam muito sinistras, com degraus de meio metro formando na base da onda e tubos com quatro lips. Com a maré baixando a situação ficou mais intensa e era possível ver cabeças de

pedra expostas literalmente no meio da onda.

 

Naquela noite não conseguia dormir, perdido entre o barulho do terral batendo na minha barraca, as imagens dessa primeira session e a antecipação de surfar um pico tão perigoso como aquele. A sessão mais rasa, tubular e atraente é chamada, muito apropriadamente, de Sepultura.

 

Pelas três semanas seguintes pegamos mares memoráveis, ondas tão longas e tubos tão sinistros e perfeitos que não há palavras que possam descrever a energia que envolve aquele lugar e aquelas ondas.

 

G-spot não é uma onda fácil, é cheia de sessões mais rasas e ocas, e para surfar bem lá

tem que saber ler a onda. As linhas são sempre pra frente, procurando o tubo e evitando os lips no meio da parede, que invariavelmente e inesperadamente colocam o surfista mais bem posicionado muito alto no tubo, tornando um encontro com o reef algo quase inevitável.

 

Basta checar o primeiro Billabong Challenge, que rolou em G-spot em 95, para ver que até surfistas do calibre de Slater, Machado e Occy muitas vezes não conseguem driblar as mutações na onda e evitar uma vaca junto com o lip.

 

Nos melhores dias, G-spot é um lugar mágico. Paredes e linhas intermináveis pareciam uma miragem, mas estavam ali, bem na nossa

frente. A sessão de Sepultura proporcionava no mínimo dois tubos por onda nos seus longos 300 metros de extensão.

 

A bancada colorida e os cardumes de peixes próximos à superfície aumentavam o feeling de que estávamos num lugar abençoado por Deus. A vibe na água era ótima e o respeito era geral, todos esperavam sua vez e todos que estavam dispostos pegavam altas ondas.

 

O fato de o lugar ser tão isolado – não há luz nem água doce – faz com que uma trip a G-spot se torne algo quase espiritual, no sentido que realmente se leva uma vida simples e básica por lá. Não há nenhuma mordomia, dormíamos em pequenas barracas e nos banhávamo no mar.

 

Comemos e bebemos só aquilo que levamos conosco, e um peixe ou outro pego nos dias flat. Cozinhamos na fogueria e usamos os “banheiros-fossa”, a única indicação de que estávamos num “camp”.

 

Muitas vezes também íamos surfar a baía mais próxima e protegida do vento, chamada de Red Bluff. Uma onda mais fácil e mais curta, porém mais perfeita, Red Bluff se tornou a opção mais light da nossa trip. Comparada a G-spot, Bluff é mamão com açúcar, mas, não se enganem, a onda é power e sua bancada imperdoável.

 

Com o passar dos dias e o aumento do vento

toda tarde, me despedi de Drew que voltou para Perth, e me joguei em The Bluff por mais algumas semanas, onde cruzei com a brasileirada que representou em grande estilo.

 

Destaque para Carlinhos “Cabrero”, Gustavo “Pseudo” Garcez e Eduardo “Chocolate” Moura, que botaram pra baixo e entubaram sem medo. Essa parte da trip foi muito boa e repleta de boas ondas, risadas e camaradagem. Mas essa historia fica pra próxima.

 

Depois de semanas no deserto e de muitas ondas meu corpo já estava cansado e minha cabeça feita. O deserto proporciona uma experiência que é um verdadeiro retiro de todas as modernidades e mordomias da civilização e ao mesmo tempo da vida caótica e

muitas vezes sem sentido imposta pela sociedade.

 

Na paz daquela vida simples e livre de conflitos, política, estress e violência, eu me perdia em pensamentos filosóficos, às vezes utópicos, e me perguntava para onde caminha o mundo e com ele, nossas vidas.

 

De qualquer maneira, fica o sentimento de felicidade em saber que, pelo menos em alguns lugares desse mundo, a paz e o sonho do surf ainda existem para aqueles que estão dispostos a encontrá-los.

 

 

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