Soul surf

Na fronteira do fim do mundo

O avião sobrevoava o incrível e interminável deserto da Patagônia, na Argentina. Tínhamos saído de Buenos Aires há três horas em direção ao ?fim do mundo?.

 

Meu amigo Marcelo Lacerda, sua mulher Adriana e eu. Dois surfistas em busca de um ângulo inusitado do mar: o do velejador polar. Entretinha-me com a biografia do iogue Yogananda, e seu clima hindu, quente e vaporoso, contrastava fortemente com as imagens frias e agressivamente nítidas da paisagem da Tierra Del Fuego.

 

Quando nos aproximamos do extremo sul do continente, as montanhas que cercam e encurralam a pequena cidade de Ushuaia revelaram trechos cobertos de neve e algumas pequenas lagoas de um verde profundo e brilhante, como um patch-work disperso e caprichoso, bordado por Deus e coadjuvado por pingüins. O vento gelado vindo da Antartida ameaçava derrubar o avião. O mesmo vento rude que encapelava as ondas na grande baía e no canal de Beagle.

 

O piloto traçou uma longa curva, sobrevoando o mar, para se posicionar de frente para a pista enquanto o aparelho vibrava fortemente. Eu só respirei quando assentamos a bunda em solo firme. Íamos a procura de alguns sentimentos e objetivos difusos: pegar uma ?carona espiritual? na fantástica viagem de Roberto Pandiani e Duncan Ross, dar um apoio moral e afetivo aos nossos queridos amigos que deveriam estar precisando de todo e qualquer tipo de calor, incluindo o humano, e tentar entender ?in loco? o que realmente aconteceu.

 

Aquecer o nosso coração sem respostas com algo mais substancioso que o ?Fantástico?, os jogos de futebol e os dias cinzas da cidade igual, feitos de momentos iguais. ?É preciso não conter o impulso?, me disse o diabinho no ombro esquerdo, ?mesmo que ele te leve para o inferno!?.

 

?Pondere, equilibre. É possível e prazeroso viver na paz?, dizia o anjinho no ombro direito. Viríamos a descobrir que ninguém, nem mesmo eles, tinha uma noção exata e real da dimensão do que tinha sido realizado. O canal pontilhado de ilhotas misteriosas se estendia como um túnel azul até o mar aberto. Fiquei me imaginando saindo naquele mar, rumo à Antartida, distante 900 quilômetros, agarrado num catamaran Hobie-Cat 21, sem cabine, vestido com várias camadas de roupas diversas sob a roupa especial de borracha.

 

O meu pai também achava que eu era louco de passar o inverno no Hawaii, dropando aquelas ondas que poderiam me matar. Mas isso foi em 1975, hoje era diferente. O medo vivido e visto quando olhamos para trás, habitando a névoa do passado, é apenas mais uma cena engraçada para contar no bar com os amigos. A imagem logo saiu do foco da minha mente, a esta altura obscurecida pelo novo medo, este bem atual. Um presente. A violenta discrepância entre a terra inóspita e o mar gelado, a mais aguda que eu já havia visto entre todas as minhas mais de 50 viagens pelo mundo, tornava o cenário ainda mais poderoso e épico, transmitindo um temor desconhecido e ainda intocado pela minha percepção.

 

O fim do mundo. Eu não poderia imaginar que fosse tão belo. Por que não ouvir o sussurrar dos ventos, acreditar e viajar com eles? Deixar-se levar por Deus, acreditar nas mãos Dele? Foi o que o Betão e o Duncan fizeram. Também no mar, como eu e meus amigos, algumas vezes. Dentro do coração aquático do planeta. O que nos leva a colocar o limite da pele em risco? Algo pode nos perfurar, congelar, quebrar, transformar. Algo externo pode nos descobrir.

 

Muito preparo, muito apoio, muito planejamento e… muita fé, ou sorte, ou ambas. Tudo magicamente no tempo certo. A ?janela? no tempo para a travessia do Drake (são somente duas por ano), embora prevista por conhecidas estações de meteorologia ao redor do mundo, não podia ser totalmente confiável. Como nada, diga-se de passagem e da passagem.

 

O Drake é conhecido por burlar os equipamentos mais sofisticados. Mas porque os quebra-cabeças vão se encaixando na trama do tempo, eu me pergunto? Formando, quando menos esperamos, um quadro pleno da vida? Que força atrai as peças naquele exato momento para que se abracem e se amem, daí encontrando seu mais profundo significado, e por quê? Roberto Pandiani tem alguns talentos. Um é acreditar, o outro, um dos maiores, é conseguir reunir personagens de qualidade em torno de seus projetos.

 

Não estar sozinho é uma arte, e bem acompanhado uma arte ainda mais sutil. Seja com um co-piloto de extrema confiança e competência, seja um patrocinador apaixonado pela aventura, sejam amigos que aconselham e apóiam, sejam companheiros de viagem que se completam em suas habilidades, traçando com suas personalidades uma rede de segurança impecável que transcende o meticuloso planejamento e confirma o poder das mentes e almas convictas e obcecadas em torno de um sonho.

 

Neste caso o improvável e temerário feito de cruzar o Estreito de Drake, palco de inúmeros dramas da navegação mundial, cemitério de navios e barcos de todos os tamanhos e formas durante a história conhecida. ?Simplesmente não se navega no Drake com um barco assim?, dizia no jantar de recepção e alívio aos nossos heróis, Sophie, a esposa de Oleg e co-pilota do seu lendário veleiro Kontic II, que deu o suporte ao Satellite (o catamaran) de Beto e Duncan.

 

Simplesmente não se surfava Waimea em 1957, quando Greg Noll e sua gang, como se dizia na época, colocaram as pranchas no canal e remaram para fora pela primeira vez. Neste jantar na mística Ushuaia, ouvi a voz e o sotaque de Oleg, o velho marinheiro, que sem se levantar da cadeira, e com uma expressão de alívio no rosto sulcado pelos 30 anos olhando o vento gelado da Antártida, tinha estimado em 30% a chance de sucesso da empreitada.

 

Fazer Oleg sair do seu querido barco não é uma tarefa fácil (nos 45 dias do projeto saiu somente 10 minutos, na Antartida, para uma brevíssima supervisão), fazê-lo falar num jantar desse tipo menos ainda. Mas ele falou, só uma frase, depois que todos já haviam discursado: ?Só fico contente que todos tenham chegado inteiros?. Percebendo a expressão de genuíno alívio do velho lobo do mar, caiu a minha ficha; só daí eu tive, com clareza, o impacto da proporção do perigo que eles realmente correram.

 

Na verdade, só Oleg sabia o tamanho da encrenca, depois de ter presenciado todos os tipos de barbaridades que as caprichosas mudanças climáticas do Drake ocasionaram aos marinheiros incautos e mesmo aos precavidos no decorrer da sua longa experiência nas águas geladas. Será que uma certa dose de insanidade é uma característica comum, intrínseca e necessária a todos os desbravadores? Betão diz que não. Amyr Klink também. Laird Hamilton idem. Cuidadoso planejamento e preparo, dizem. Será tão ?simples??

 

Por que os homens se arriscam em aventuras aparentemente acima da capacidade humana? O que faz alguém dropar Jaws 60 pés? O que impulsiona uma alma humana a escalar o Everest ou buscar o extremo e a superação de suas forças até que a consciência se arrebente e ele possa vivenciar, mesmo que por alguns segundos, a ausência de pensamento, o flutuar no espaço/tempo sem matéria definida ou percepção de si mesmo, da sua persona social? A liberdade, para alguns, está na busca do extrapolar. Um movimento para fora, buscando o interior.

 

Na aterrissagem, rostos duros e formosos de mulheres jovens e de aparência decidida transitavam pelo aeroporto segurando placas com nomes de pessoas e hotéis. Algumas notaram meu ar de felicidade pelo extasiamento da descoberta de um novo lugar, mas desviavam pudicamente os olhos assim que cruzavam com os meus. Ao pisar na calçada, percebi um estranho alívio por sentir frio, depois de quatro meses de 30 graus, em média, no Brasil; como se meu corpo tivesse encontrado um velho amigo, ou pelo menos uma temperatura mais familiar à sua genética, talvez de encarnações passadas vividas em latitudes mais altas.

 

Encontramos Betão e Duncan na cidade. Festa. Mil perguntas. Algumas respostas. Muitas perguntas eles ainda estavam se fazendo. Quem somos nós, afinal, no imenso questionário da vida? No dia seguinte fizemos um trekking com uma certa verticalidade até um pico de 900 metros. No caminho os pensamentos fluíam mais fáceis, empurrados para fora pelo esforço realizado pelas pernas. Eu, Betão e Marcelo chegamos até o pico onde Duncan e Patrícia nos esperavam.

 

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Ventos frios, solo pedregoso e escorregadio. Senti uma insegurança da mesma raça e modelo da que senti 20 anos atrás, remando sozinho para um pico isolado e distante da praia, na ilha de Huahine, no Tahiti. Você só vai saber se é justificada quando completa o trajeto ou a aventura. O que é instinto de autopreservação e o que é medo irracional? Cortando a desolação, desta montanha, no entanto, rajadas de pureza. Um sonho frio vindo da origem do homem. Rostos selvagens e paisagens em formação transitavam por ali. Pressão e amor. Um violento empurrão da natureza no sentido da evolução. Tudo respira e, ao mesmo tempo, tudo permanece estático. O fim do mundo é apenas o começo.

          

Durante a travessia do estreito, seja pelo cansaço, seja pelo clima de tensão, presenças foram sentidas. De pessoas amigas, de entes queridos, ou talvez dos fantasmas das centenas de marujos vitimados nas correntes geladas.

 

Cair na água, mesmo com as “dry-suits” de borracha especiais é morte certa por hipotermia em duas horas; sem elas, em 3 minutos. A pele necrosa e o cérebro pára, perspectiva nada agradável para quem tem o hábito e gosta de sentir e pensar.

 

Quando confrontados com o perigo às vezes sentimos presenças, como entidades que nos sussurram avisos e pairam à nossa volta na esperança de contato. Alguém que morreu e quer retornar por nosso intermédio ou simplesmente vozes sem origem, vindas do fundo da alma.

 

A mente prega peças ou descortina realidades somente pressentidas nestas condições? Quem é a realidade e quem é a ilusão? Os dois tripulantes, sozinhos no meio da imensidão das ondas de até 5 metros, cruzaram o portal onde não se é mais possível discernir qual a nossa verdadeira natureza ou em qual dos inúmeros mundos possíveis vivemos. Tocaram o limiar, e por ele foram tocados.

 

Na cidade fui dar uma volta de reconhecimento. A sensação de estar num lugar inusitado, para mim, sempre foi para como renascer. Quando botei o pé pela primeira vez na vida no solo árido do Peru, em 1972, é como se estivesse chegando em Marte, e todo o meu passado de ?terráqueo? tivesse sido apagado, deletado; e eu começava algo totalmente novo, descobrindo sentimentos que sempre estiverem dentro de mim, mas que só poderiam vir à tona sob a bênção e auspícios de novos ambientes. Ushuaia, a ?cidade de migrantes num país de imigrantes?.

 

Entrei e sentei dentro de um bar envidraçado de frente para o mar, o ?Punto Final?. Um velho molhe de pedra de mais ou menos 50 metros o ligava a um barco semi-afundado. Todo o seu metal enferrujara e as partes de madeira necrosaram tristemente. Ele emborcava meio de lado, apoiado no precário cais, como que cansado de existir. Algumas gaivotas voavam sobre o casco e eventualmente pousavam sobre o que restou da única chaminé. Cecília veio me servir um chá.

 

Perguntei seu nome. Cecília. Tudo se movia como num filme antigo. Não sei se foi o lugar isolado ou o ?descolamento? do meu eu brasileiro, agora distante, mas reconheci uma forma diferente e ao mesmo tempo familiar de vida naquele momento, algo de minha própria vida. Algo que eu tinha perdido ou algo no qual me reconheci. Uma imagem arrastada por um sopro de vento. E não é assim a existência? Um caos que nos apanha em pleno ar? Algo que reconhecemos sem nunca termos visto? Uma paisagem que discernimos no escuro.

 

No ar, algo. Ou será dentro de mim? Reconheço minha própria criação pairando na frente dos meus olhos ou finjo desconhecer o que sinto? Tenho medo do que sou? Mas o que sou? Toda a humanidade evolui quando um só homem ultrapassa o limite? Apostar a vida no jogo. Vaidade ou ambição? O aprendizado através da superação. Ou da vaidade. Várias formas de procura. É mais uma limitação metafísica que moral. Falamos aqui sobre as que envolvem água. Velejar. Surfar. O planeta Terra, 70% água, tem esta empatia com o nosso corpo físico, também 70% água. Um mesmo corpo, diferentes formas, diferentes procuras.

 

Eram exatamente estas e outras mil perguntas que deviam estar assombrando as cabeças de Betão e Duncan durante as 82 horas que durou a primeira travessia do Drake feita por um barco deste tipo. Miragens e alucinações passavam na frente de seus olhos enquanto eles se alternavam nas funções de manejar o leme ou de se amarrar no mastro para poder tentar dormir uma ou duas horas.

 

Tarefa praticamente impossível. Do nada, uma baleia emergiu a poucos metros da frente do barco. Se tivesse roçado o seu imenso corpanzil no frágil casco do Satellite eu estaria contando esta história em tons mais trágicos. Mas não era uma ameaça, talvez fosse exatamente o contrário; uma guardiã. Porque é nisso que Roberto Pandiani acredita: na confluência fortuita dos fatos, de que tudo sempre acontece para o melhor. E agora, quem é que pode duvidar? Se estou vivo depois de todos os corais e caldos e pancadas, também pressinto que o melhor, a única alternativa possível, é sempre o que acontece. Quem duvida? E o mais interessante é que ?o melhor? não é necessariamente a sobrevivência…

 

9 de março de 2003. Último dia no Ushuaia. Sentei-me só à mesa de um restaurante. Pedi centolla (king-crab), quinta vez em quatro dias. De uma mesa em frente detectei a vibração incômoda e maligna da dor vinda de uma velha senhora. Logo depois a ouvi dizendo ao garçom que não estava bem, pois o seu marido, voltando de um charter à Antartida, estava no hospital por algum problema que eu não captei. Não tinha sido, a princípio, solidário ao seu sofrimento, pelo contrário; mas agora, entendendo a sua abrangência e densidade, caíram as minhas defesas e, com elas, a minha aversão.

 

Temos raiva da dor que não compreendemos. Compreendi, a raiva passou. Paguei os 30 pesos, gorjeta incluída, levantei e fui para perto do mar. Eram 19:15 horas. Fim de tarde no porto. O canal Beagle à minha frente parecia querer contar histórias secretas. Desacostumado à ausência de vento, se ?quedava? surpreso, estático e majestoso. Prestei atenção. O arco-íris mais sólido que eu já havia presenciado iluminava as montanhas e cada canto da minha consciência, limpando as pequenas sujeiras e manias de um ego insistente.

 

Senti a antiga e prazerosa solidão dos tempos de juventude e viagens ao redor do mundo. Pensei em me instalar aqui por pelo menos mais duas semanas, ou dois meses ( ! ), e escrever sobre estas ruas e pessoas, sobre os raros encontros que temos com as nossas almas e como elas, maduras e plenas, não se ressentem disso e nos acolhem, como se jamais tivéssemos partido à procura de belas e enganosas superficialidades. O vento recomeçou e quase me levantou do chão apesar de estar estranhamente quente.

 

?Él dia más caliente del año, señor?, como me disse a simpática senhora que se mudou para cá há cinco anos, de Buenos Aires, à procura de melhores oportunidades. O sorriso sulcado pelo tempo emanava um prazer tímido, um azul frágil dentro da força vermelha e lilás do pôr-do-sol. Disse que se lembrava de quando aqueles rapazes saíram naquele incrível barquinho pelo canal.

 

Lembrou-se que tinha pensado: ?Eles vão morrer?. Lembrei-me de que já havia ouvido esta frase antes. Fui até o cais e passei pelos barcos e navios de ferro e fé. Um pequeno veleiro, ?Spirit of Canadá?, saía com três tripulantes em pé ocupando praticamente todo o convés.

 

Dois homens e uma mulher. Senti a apreensão que me dá quando o ínfimo é cercado pelo gigantesco. Um dos homens, o de barba, me acenou. Acenei de volta tentando esconder o mau-agouro que um gesto inseguro ou temeroso na saída de um barco pode causar. Ele pareceu perceber, mesmo de longe, mas ficou imóvel, como se uma inexplicável segurança interior impedisse que pudesse se abalar com o meu medo. Todo o mar flutuava e eu também. A noite enviava algumas sombras como batedores avançados antes do seu domínio completo. Lembrei de respirar. Meu pulmão doeu com o esforço repentino, e foi aí que a noite caiu.

 

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