Muita onda, pouco surf

De Porto Alegre (RS), onde moro, até minha casa, na praia da Barra em Garopaba (SC), percorro exatamente 400 km via BR 101.

 

Com as obras de duplicação da estrada, esta viagem passou a ser uma grande e demorada aventura de quase seis horas, mas vale o esforço para pegar boas ondas e curtir um lugar lindo como esse.

 

Após esse longo tempo de estrada, chego finalmente à Barrinha. Estou louca para ver as ondas, respirar um pouco da maresia e curtir o fim de sol que ainda resta no oeste. Olho o mar e as ondas estão perfeitas!

 

A ondulação de Sul, com pouco vento Sudoeste, é a condição ideal para o canto sul da Barra, onde estou. Mas ninguém está na água.

 

Parece até piada, mas aqui no Sul todos sabem por quê: é temporada de pesca da Tainha, que vai de primeiro de maio a 15 de julho. Muita onda, pouco surfe!

 

Durante muitos anos esta temporada de pesca foi palco de muitas brigas entre pescadores e surfistas. Muitas pranchas foram quebradas, pessoas espancadas e até ameaçadas.

 

Confesso que ficava indignada por não poder surfar. Não conseguia entender que mal faria estar ali surfando. Como eu poderia atrapalhar se nem peixe eu via.

 

Os anos foram passando, as belas cenas da pesca foram me seduzindo e há cinco anos passei a fotografar este evento anualmente. Com isso fui me interessando cada vez mais por esta cultura que atravessa gerações, atrai famílias interias e envolve toda a comunidade.

 

O cerco ao cardume, feito pelos barcos, gera muita expectativa. Na praia, uma multidão espera para ajudar com a rede. São velhos, jovens e crianças que vêm de todas as redondezas.

 

Alguns são amigos, parentes ou simplesmente estão passando no momento. É incrível! E ninguém fica sem peixe. Trabalhou, ganhou. É um exemplo de solidariedade e união que pouco se vê por aí.

 

Hoje, no lugar da angústia por não poder surfar, acabei resgatando outro sentimento, o da expectativa pela nova experiência de participar, em parte, deste evento tão diferente para mim.

 

Acompanho o desenrolar desta pesca com a calma e a paciência que não nos permitimos mais hoje. Ali, observando os pescadores, reaprendo a esperar. Esperar pelo clima, pelo mar, pelo peixe e toda a conjunção necessária para realizar o arrastão.

 

Nestes dias vive-se o tempo da natureza, com aquela percepção de criança, onde o tempo é longo e não há pressa para nada. O mesmo sentimento que temos pela espera das ondas perfeitas que tanto amamos.
 
Poucos lugares ainda preservam seus costumes, suas tradições. Em geral são engolidos pelo novo, moderno e globalizado. Estamos na era da urgência, da internet, do celular. Tudo se consegue com rapidez, agilidade e muita informação.

Não estamos mais acostumados a esperar, a observar, sentir e apreciar os momentos. Mas aqui sinto um outro tempo que me ensinou a respeitar esta cultura. O tempo que sinto quando estou surfando.

 

Que essa cultura seja preservada para sempre, para que os novos e próximos saibam como era o mundo regido pelo tempo ditado pela natureza.

 

Para quem quiser surfar, hoje existem algumas alternativas, que após muitas brigas, acabou em lei e um acordo entre surfistas e pescadores. As praias da Ferrugem Norte, Silveira Sul e Rosa Sul possuem áreas liberadas para o surfe.

 

Com isso nem fica tão ruim assim, apesar do crowd que se concentra nestas poucas praias. São só dois meses e meio, passa rápido. Afinal, os pescadores é que aguardam o resto do ano por esta temporada.

 

Boas ondas!

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