
Todo início de ano é a mesma ladainha: “? atletas com potencial para?”, “? nova geração com possibilidades de?”, “?esporte está crescendo?” e sempre, sempre aquilo: “?brasileiro campeão do WCT”. Putz, que preguiça desse papinho.
Inclusive, achei ótimo o Mineirinho não ter faturado o Billabong World Junior na Austrália. Por ele, que viu a derrota fazer parte do negócio (e isso é bom), mas especialmente por alguns comunicadores que adoram fazer projeções e comparações. Incutindo responsabilidade em moleques que deveriam apenas surfar.
Há anos acompanho a utopia deste tal campeão. Na verdade acho que até já fiz parte deste grupo patriótico verde-amarelo.

Mas hoje, como humilde colunista e mero espectador do esporte, vejo uma certa confusão nos caminhos do surf brasileiro. Existe uma corrente forte em prol do surf de base, da formação de novos atletas que, no futuro, serão os grandes profissionais do Circuito Mundial.
Mas alguns profissionais de hoje do WCT estão sem patrocínio. É como se essa meia-dúzia que lá está, e que ralou muito para isso, não fosse render nada.
Até pode ser que não renda mesmo, mas neste caso, só pagando (literalmente) pra ver. Agora, se o futuro do mirim é a realidade do profissional atual, melhor ir pra faculdade virar doutor.
Caímos no que rola nas grandes cidades. Uma infinidade de Ongs ficou com os cofres cheios promovendo atividades circenses entre os menores da população de baixa renda. O objetivo, segundo as Ongs era tirar os menores da condição de pedintes e formar profissionais do circo. Só que quase não existem circos por aí, então o que formaram foram pedintes malabaristas. E palhaços, claro. Afinal quem bancou isso tem um papel no picadeiro também.
Assim, abandona-se caras que chegaram ao WCT em detrimento das categorias de base. Todo final de semana acontece um campeonato amador. Lota-se uma praia com “atletas” que NUNCA chegaram a lugar algum. E aí a tal categoria de base começa a se achar importante, chegando ao absurdo que qualquer criança que fica em pé sobre uma prancha acha que merece ter patrocínio.
Os pais dessas crianças também têm essa opinião. Muitos garotos acham que as marcas têm obrigação de patrociná-los. Reclamam ainda. E atribuem aos não-patrocinadores as derrotas e os fracassos. Garotos, vão aprender a pegar onda primeiro!
Mas voltando às projeções e comparações, faz um tempo, na capa de uma revista do Nordeste, a manchete: “Chiquinho Blem-Blem, o futuro Kelly Slater!” Chiquinho Blem-Blem é um nome fictício. Vocês se dão conta da responsabilidade atribuída ao moleque?
Uma comparação dessas na capa da revista. Essa hiper-promoção de atletas é bem comum. Quantos “o futuro do Brasil” já não apareceram? Hoje estão todos largados por aí, sem emprego, auto-estima à zero, vários filhos, álcool e drogas. É o preço da frustração diante de tamanha responsabilidade.
A esperança que as vitórias do Mineirinho causam nesses babacas utópicos me assusta um pouco. Não sei quanta responsabilidade conseguem impor através de belas palavras. O Mineirinho pra mim, digo logo, não é o futuro Kelly Slater. Nem futuro Andy Irons. Nem o futuro campeão mundial.
Mineirinho é o Adriano. Moleque do Guarujá, surfa muito, está sendo muito bem assessorado mas tem um longo caminho pela frente. Muitas fases a ultrapassar como atleta e como pessoa. Para no futuro sim, se ele realmente tiver tesão pra isso, poder ser campeão mundial. E mesmo com muito tesão, pode ser que isso nunca aconteça.
Não aconteceu quatro vezes com Cheyne Horan, o eterno vice-campeão mundial.
Já fiz parte do grupo que acreditava num surfista brasileiro campeão do WCT. Hoje não faço mais. Por favor, alguém mostre que estou errado.