México para todos os gostos

Mais uma surf trip começava e dessa vez o destino era o México. Já visitei diversos países da América do Sul e Central e imaginava que encontraria algo semelhante, onde a pobreza, infra-estrutura e descaso das autoridades com a população imperavam. No entanto, fui surpreendido.

 

Além de muita história, o México é um país, como o Brasil, que possui um nível de desenvolvimento superior se comparado aos demais considerados subdesenvolvidos e está realmente buscando ser do “primeiro mundo”. Problemas sociais existem, mas economicamente o país é forte e se destaca em diversos segmentos no cenário internacional.

 

A história do México já atingia a marca de 3000 anos quando os espanhóis chegaram e derrotaram o Império Asteca, naquele período liderado por Montezuma II. Muitas outras civilizações habitaram a região, mas os Astecas derrotaram-nos e conquistaram a hegemonia, construindo então um Império.

 

Os espanhóis  mantiveram seu domínio até 1821, explorando e subjugando a população local. Passaram-se 300 anos até que os mexicanos conseguissem a independência, e desde então o país tenta equilibrar uma mistura de culturas, paisagens, sons, sabores e desenvolvimento com a evolução dos tempos modernos. Em nenhum outro lugar das Américas a história antiga e os rituais mágicos se encontram tão presentes na rotina da vida moderna.

 

Surfando do Centro ao Sul do Pacífico

 

Eu e mais dois amigos desembarcamos em Puerto Vallarta, localizada na Baía das Bandeiras, região central do país, que se tornou um grande centro turístico na década de 70. A cidade possui excelente infra-estrutura e recebe milhares de turistas anualmente.

 

As opções de surf mais próximas não são muitas, e além disso as ondas  quebram somente com swell de norte, fato não muito comum nos meses de agosto/setembro, época de nossa viagem. Mesmo assim, como tínhamos todo o dia antes de partirmos para Boca de Pascuales, resolvemos explorar.

 

Alugamos um fuscão e saímos em busca das ondas. Fomos para a ponta direita da Baía das Bandeiras onde fica o pico chamado Punta de Mita. Chegando lá, de longe avistamos algumas ondas. Muito embora alguns locais tenham nos avisado de que se tratava apenas de uma “ilusão”, pois naquele dia o mar estava pequeno e a melhor opção seria fazer um passeio de barco, teimosamente resolvemos caminhar os 50 minutos até o pico.

 

Surfamos ondas de meio metro extensas sobre uma bancada de pedra cheia de peixes coloridos. Para tirar a “nhaca” da viagem estava perfeito, mas não tínhamos ido ao México surfar aquilo. Conhecemos ainda Sayulitas, um balneário agradável mas com ondas medíocres.

 

Surfadas as primeiras ondas no Pacífico, pegamos um ônibus para Boca de Pascuales. A expectativa era grande, já que as referências sobre o pico eram as melhores possíveis: “beach break semelhante a Puerto mas sem crowd”.

 

Após oito horas de estrada e mais uma hora no circular da cidade, chegamos a Pascuales, praia pouco desenvolvida, com apenas dois hotéis, um restaurante e algumas casas de americanos. Quanto às ondas, 1,5 metros um pouco mexido mas com condições de surfe e dez pessoas na água….. A trip estava começando !!!!

 

Foram cinco dias de altas ondas. Todos os surfistas estavam hospedados no mesmo hotel. Tinha gente de todos os lugares do mundo, mas o respeito e amizade eram características a se destacar.

 

A força e a qualidade das ondas de Pascuales marcaram. Inclusive um espanhol protagonizou uma cena trágica. No menor dia, ao colocar para dentro, ele foi macetado pelo lip contra o fundo, fraturando uma das vértebras. Felizmente o acidente resultou apenas na abstinência de surf no México e mais dois meses de recuperação.

 

Tubos, manobras, vacas, olhar as ondas do quarto e pisar na areia ao sair dele deixariam saudades, mas as ondas pioraram e resolvemos partir em direção a La Ticla. Arrumamos tudo e enquanto aguardávamos o ônibus conseguimos uma carona. Uma hora depois estávamos em Ticla.

 

Ticla é um pequeno povoado indígena que recebeu ajuda governamental para crescer. Hoje o turismo de surfistas já representa parte da economia local. As ondas quebram sobre uma bancada de pedras com swell de norte (direitas) e sul (esquerdas), ambas extremamente manobráveis e longas. As esquerdas também são protegidas pelas montanhas, assim o vento não entra e o surfe rola durante todo o dia, foi nelas que fizemos a cabeça.

 

Ficamos três dias neste pico e surfamos ondas perfeitas, mas não muito grandes. O crowd também era pequeno, já que a maioria das pessoas no outside estava aprendendo e ficava dispersa nas muitas sessões da onda.

 

De Ticla seguimos para Nexpa. Novamente pegamos um ônibus e quatro horas depois estávamos em Nexpa. Era final de tarde e não estávamos muito confiantes, já que Ticla estava pequeno. Mas após nos instalarmos numa cabana de frente para o pico, notamos uma série quebrar com bom tamanho. Felicidade geral, o dia seguinte seria épico.

 

Aliás, os sete dias seguintes foram épicos. As esquerdas de Nexpa são incríveis e o vilarejo mais ainda. È muito difícil querer ir embora, o lugar cativa qualquer amante das ondas. O surfe rolava das 5:30 às 14 horas, depois entrava o vento. Para os mais fissurados, era possível surfar todo o dia, já que o vento não prejudica tanto e as linhas continuam bombando.

 

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Duas figuras de Nexpa merecem destaque: os irmãos Mário e Flaco, bons surfistas locais que também esbanjam simpatia. A vida que levam é impressionante. Retiram grande parte dos alimentos que consomem da natureza e do mar, convidando os visitantes a desfrutar juntos dos pratos preparados.

 

O visual de Nexpa ficou gravado na memória e dificilmente será apagado. Faltavam apenas sete dias para retornarmos e então rumamos para Puerto, com indícios de um swell de 12 pés na área.

 

Mais uma vez passamos pela rodoviária, negociando o preço para embarcar as pranchas, curtindo os costumes locais e amargurando 16 horas até Playa de Zicatela. Enfim estávamos lá, diante dos temidos cilindros mexicanos.

 

Chegamos por volta das 11:30 horas, o vento já começava a soprar e as ondas com 1,5 metros não estavam boas e a galera já estava saindo do mar. Aproveitamos então para negociar bem o hotel, nos instalar, almoçar e conhecer a praia, indo somente surfar à tarde em La Punta.

 

No dia seguinte o mar já estava grande. Zicatela fechava bastante e não tinha muitos tubos, mesmo assim três “loquitones” remavam nas séries. Decidimos ir para La Punta. A imagem das esquerdas parecia vídeo game, intermináveis, perfeitas e com a sessão do inside super tubular.

 

Todos os finais de tarde foram assim, com La Punta clássica. O interessante é que todas as pessoas que conheci que estiveram em Puerto falavam de La Punta com desprezo, mas certamente elas não tiveram tanta sorte, pois a onda é muito boa.

 

Puerto permaneceu grande e ruim por mais dois dias, aproveitamos então para desfrutar de La Punta e também Barra de La Cruz, balneário localizado duas horas ao sul de Puerto. Com swell acima de 8 pés La Cruz quebra. A onda é um expresso para a direita, com sessões manobráveis e tubulares se alternando. Além disso o pico é selvagem, sendo possível somente o camping. Foi diversão total.

 

Voltamos para Zicatela na esperança de surfar na manhã seguinte. Gunzeiras preparadas e o surfe rolou. O mar estava com 8 a 10 pés perfeitos (quem duvidar pode checar os boletins das duas primeiras semanas de setembro). A adrenalina dentro d’água era grande, mas após o primeiro drop o corpo relaxou. A queda durou duas horas e surfei somente duas ondas. Explicar isso é difícil, mas quando estiverem lá saberão o porquê!

 

Surfamos ainda 6 pés clássicos na manhã seguinte. Tubos e mais tubos!!!! Infelizmente nossa trip chegava ao fim. Partimos de Puerto para Cidade do México nesta mesma noite, mais 12 horas no “bumba”.

 

Nosso vôo de retorno ao Brasil sairia somente 22:30 horas, assim desfrutamos de um dia na capital e arredores. Alugamos um carro e fomos conhecer  Teotihuacán, sítio arqueológico com pirâmides, palácios e templos de mais de 3000 anos. Muitos mistérios ainda estão sendo desvendados sobre esta cidade do mundo antigo, mas uma coisa não se pode negar, a energia presente no local é enorme.

 

Este passeio fechou com chave-de-ouro a viagem. Não podíamos terminar melhor, já que desfrutamos de ondas clássicas todos os dias, conhecemos e interagimos com a cultura local, viajamos por diversos lugares e sentimos a energia e o poder das civilizações do passado.

 

Confira a galeria de fotos da barca.

 

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Dicas do Autor

 

Como chegar

 

Dependendo da região, é possível comprar a passagem aérea, no Brasil, para o local mais próximo. Compre a passagem São Paulo/Cidade do México e Cidade do México até o destino escolhido:

 

Pascuales ou La Ticla: Existem duas opções, ou a cidade de Manzanillo ou Colima. Ambas as cidades estão a uma hora de Pascuales e duas horas de La Ticla.

 

Nexpa: O aeroporto mais perto é Ziuatanejo, que fica a duas horas de Nexpa.

Puerto Escondido: O Aeroporto fica na própria cidade e de táxi são 15 minutos até o paraíso tubular.

 

Para quem quer economizar, da Cidade do México pegue um ônibus até os lugares. Na realidade só existe ônibus direto para Puerto Escondido, para os demais lugares é necessário pegar o ônibus para a maior cidade e depois outro até o local.

 

Pascuales: Ônibus de Cidade do México até Colima, cerca de 15 horas (sai da rodoviária norte). Outro de Colima até Tecoman, cerca de 1:30 horas, e por fim um circular de Tecoman até a praia de Pascuales, cerca de 20 minutos.

 

La Ticla: Ônibus de Cidade do México até Colima, cerca de 15 horas (sai da rodoviária norte). Outro de Colima até Tecoman, cerca de 1:30 horas e por fim um circular de Tecoman até a praia de La Ticla, cerca de 2:30 horas.

 

Nexpa: Ônibus de Cidade do México até Ziuatanejo ou Lázaro Cardenas, (entre 10 e 12 horas, saindo da rodoviária norte). Outro de Ziuatanejo ou Lázaro Cardenas até Caleta de Campos, (cerca de duas horas) e por fim um táxi de Caleta de Campos até a praia de Nexpa, cerca de 10 minutos.

 

Acomodação

 

Pascuales – Existem dois “hotéis” no local e ambos estão de frente para o pico. O hotel do Edgar, o primeiro ao descer do ônibus, é onde a galera do surf se hospeda. O preço varia de U$ 5 a 10 por pessoa. Não precisa se preocupar pois não lota, e se estiver lotado eles dão um jeito.

 

La Ticla – Existem duas opções. O Paradero Turístico fica de frente para a praia e possui cabanas U$ 50 (cabe até cinco pessoas) o dia e quartos para dois a U$ 10. O lugar é show e o visual melhor ainda. A outra opção é o Hotel do Hombre sin Pierna. Ele fica no “pueblo”, custa U$ 7 o quarto, mas não tem vista para a praia.

 

Nexpa: As opções de cabanas são muitas, é chegar e escolher. Sugiro procurar o Gilberto, ele possui algumas cabanas e curte os brasileiros (preço especial). Além disso, os locais do pico trabalham para ele (Mario e Flaco), portanto automaticamente você já fica arregado. Com o Mario você consegue o que quiser. A cabana para quatro pessoas sai por volta de U$ 40, tem geladeira e fogão. É demais!!!!

 

Puerto Escondido: Diversas opções, o negócio é verificar os preços e se instalar. Fiquei no Hotel da Ines, saiu U$ 10 por pessoa. Fica de fronte para as ondas, tem piscina e o astral é singular.

 

Barra de La Cruz: Somente de barraca. O pico não quebra sempre. Puerto precisa ter pelo menos 8 pés de sul para lá ter meio metro. Vale o bate e volta.

 

Escolham as hospedagens por lá, não fechem do Brasil. Se houver interesse, tenho o contato de todos os lugares que ficamos.

 

Puerto Vallarta: várias opções de hospedagem, a cidade é grande e cara.

 

Comida

 

A comida Mexicana é apimentada, mas não tanto.

 

Pascuales: O próprio hotel do Edgar tem restaurante e também uma vendinha para comprar o café da manhã, cerveja, etc. Ao lado do hotel (100m para frente) tem um restaurante muito bom. Vale a pena experimentar, mas lembre-se que ele fecha as 19 horas, depois somente no hotel.

 

La Ticla: No Paradero Turístico tem restaurante. Se quiser comprar algumas coisinhas, no centro do pueblo existem mercadinhos. Eles estão em frente a praça, não tem como errar.

 

Nexpa: Existem dois restaurantes bons. O rango é bom, os licuados (vitaminas) são excelentes. Além disso, as cabanas têm cozinha e geladeira, vale a pena fazer umas comprinhas na cidade de Caleta de Campos (10 minutos de Nexpa) e cozinhar em casa. Neste pico aproveitamos para restabelecer os carboidratos.

 

Puerto: Várias opções. O cafezito é demais mas o restaurante no Hotel da Inês é imbatível e possui bons preços. Quem não está hospedado lá também pode usufruir.

 

Aluguel de Carro

 

Puerto Vallarta: um fusca sai U$ 25.

 

Pascuales – Tem que alugar o carro em Manzanillo ou Colima. Existem alguns picos próximos, mas a onda é Pascuales. O que rola é surfar de manhã em Pascuales e a tarde ir até La Ticla, pois o vento não atrapalha.

 

La Ticla – Mesma que Pascuales.

 

Nexpa – Tem que alugar o carro em Ziuatanejo. Existem alguns picos próximos (ex: Au Au), mas Nexpa é Nexpa.

 

Em Puerto Escondido o fusca sai U$ 40. Alugamos para fazer o bate até Barra de La Cruz. Tanto para La Punta como para Carizalillo é melhor ir de táxi. Sai U$ 2 a corrida.

 

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